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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Centro Cultural Mr. Watkins - um sonha a realizar




O Centro Cultural de Mesquita, uma reivindicação que tem praticamente a mesma idade do município, está em vias de realização. O terreno, comprado com recursos próprios, carecia de fonte financiadora para a construção, o que para os cofres públicos inviabilizava a obra. A área que pertencia aos Correios e já serviu inclusive como central telefônica, está localizada em área privilegiada, pois, como diz Edson Maciel, secretário de Urbanismo de Mesquita, o centro cultural estará localizado no Centro do Centro da cidade, por se localizar na antiga Rua Barão de Mesquita, bem no centro comercial e dos bancos.

Com a proposta de um prédio arrojado e de vanguarda arquitetônica, a imagem da fachada deve ser no formato de pintura grafitada Segundo Edson. A participação de grafiteiros na pintura da fachada do centro cultural então pode ser o primeiro marco de intervenção artística já na fase de construção.

A principal fonte de financiamento é uma parceira feita com uma ONG internacional ligada à família de Mister Watkins, industrial que investiu na área metalúrgica no então 5º Distrito de Nova Iguaçu, como Mesquita era classificada administrativamente.
Último piso: área para confraternizações

O centro cultural de Mesquita aproveitará ao máximo o espaço físico. Segundo o que se vê na planta, a área total está dividida em Três Lajes. De cima para baixo, O último dos três pisos terá um espaço semiaberto com churrasqueira, remontando o imaginário de laje como área alternativa de lazer nas residências, sendo de fato um espaço de socialização em muitas comunidades.
Segundo piso: espaço  de exposições e setor administrativo
Segundo piso: mezanino, plateia e melhor aproveitamento do espaço
No segundo plano teremos um mezanino com área de visão para o palco e uma parte administrativa com acesso a banheiros e um espaço de exposições. 
Térreo: saguão com mini biblioteca e café/bar
Térreo: acesso principal do público ao palco

O térreo tem hall de entrada, um bar, uma mini biblioteca e um acesso frontal ao palco. A área total tem capacidade para cerca de 200 pessoas confortavelmente, com uma área útil total de mais de quatrocentos metros quadrados nos três pisos. Todos os espaços oferecem acessibilidade para deficientes nos três pavimentos por meio de rampa e elevadores. Em relação aos artistas, é possível ter acesso ao palco via entrada social ou pela área superior, por conta de uma escada caracol postada atrás do palco.

O prédio é de construção simples, o que garante a celeridade da entrega já em dezembro, segundo o secretário de Urbanismo. Um dos objetivos fundamentais é que ali seja um verdadeiro espaço de encontro e de fruição da produção cultural local e até mesmo da região da Baixada Fluminense, exatamente por ser um ponto nobre da cidade e por dar o caráter simbólico que a cultura requer, garantido o aspecto cidadão da Cultura.

A rua Barão de Mesquita
A rua onde estará localizado o Centro Cultural já traz consigo um conteúdo histórico importantíssimo, segundo o que consta do livro Nossas Ruas têm História, do qual tive o prazer de participar. O Barão de Mesquita foi um proprietário de terras nesta Região, muito influente na Corte portuguesa, no período que antecedeu a República.  Já Armando Sales Teixeira foi, em síntese, um especulador imobiliário (grifo meu), influente por ser filho do Ex-prefeito de Nova Iguaçu Manoel Teixeira. Funcionário da Cia. Orácio Lemos, Armando Teixeira foi um dos responsáveis pela venda de lotes da Vila Sta. Terezinha que hoje engloba os bairros de Sta. Terezinha, Centro e Coréia.  
 Linha do tempo 
A partir de hoje vamos fazer uma linha do tempo, com fotos novas a cada semana. assim, você poderá ter uma ideia de a quantas andam as obras no Centro Cultural. Hoje, 20 de agosto, o pessoal da obra concluiu a demolição  do prédio antigo. na próxima segunda-feira teremos outras.


Segunda, 27 de agosto
As fundações começam a ser preparadas es as marcações já estão quase prontas nessa segunda semana das obras.

Marcações e escavações na segunda semana de obras
Segunda, 03 de setembro
Nesta terceira semana e ainda em fase de estrutura, surgem algumas informações importantíssimas em relação ao  Centro Cultural de Mesquita.
A primeira é em relação a transparência nas informações relacionadas à obra. Foi colocada a tradicional placa informativa contendo detalhes quanto ao edital de concorrência, processo administrativo e, sobretudo, custo da obra que apresenta o valor de aproximadamente um milhão e duzentos mil reais.
Outro detalhe relevante, sobre o qual vamos nos deter nesta postagem, é que o Centro Cultural terá como patrono Mr. Watkins, industrial atuante no então 5º Distrito. Como estamos ainda no início das obras, vamos inicialmente elucidar mais um nome, nesse caso o da figura que doravante dará nome ao mais importante símbolo das artes em Mesquita.
informações importantes: custo, fonte dos recursos e nome do patrono  

Wolf White Watkins era um inglês naturalizado brasileiro que viu na indústria seu principal foco de atuação no país. Homem influente e empreendedor, Mr. Watkins não via barreiras para avançar em direção aos que de costume chamávamos de progresso. Em setembro de 1949 o industrial firmava convênio com a então Estrada de Ferro D. Pedro II com a finalidade de escoar sua produção e maquinário. Assim, um desvio na rede ferroviária foi mantida, ligando a SONAREC (Sociedade Nacional Reconstrutora Limitada) à via que possibilitava ligar Mesquita ao restante do Brasil. Entre as atividades da SONAREC a principal era a de manutenção e construção de peças para os trens. Em contrato firmado com a empresa gestora de transportes ele constava como “Diretor-gerente e Chefe Técnico das Oficinas”.


Segundas, 10 e 17 de setembro
 Nessas duas segundas-feiras as obras continuam em fase de estrutura. Segundo o encarregado da atual etapa de obras, deve ser assim durante o restante do mês de setembro. "é a fase mais chata da obra. depois disso, deve acelerar. Sabe como é, "né"? fundação tem que estar firme pra suportar os três pavimentos." diz o encarregado.


24 de setembro a 22 de outubro
Por conta de questões operacionais, tais como espaço útil para trabalho e dificuldades com o terreno, há um atraso no cronograma da obra. “por conta dessas dificuldades, os trabalhos de fundação devem  durar mais uns trinta dias” alegou o mestre da obra.
terreno encharcado - imprevistos no cronograma

Improviso - lentidão por conta das condições de trabalho

Obra e material de construção - área muito restrita
26 de novembro a 10 de dezembro
Como já se previa, de fato a entrega do Centro Cultural Mister Watkins não será feita neste ano. Só agora as primeiras colunas estão sendo erguidas por conta das várias dificuldades. Segundo Alex Oliveira (Engenheiro responsável) as obras devem estar próximo do final lá por meados de março de 2013, caso não haja mais interferências no cronograma.

Contratempos: Aporte de recursos, condições de trabalho e do terreno dificultam obras  
  


Abril de 2014
O ano de 2013 foi marcado por um longo compasso de espera em relação ao Centro Cultural e agora em 2014, com a conquista de um Conselho de Políticas Culturais para nossa cidade, está sendo possível não só discutir mas também acompanhar mais de perto o que se desenvolve em termos de políticas públicas de cultura para Mesquita.

 


As obras estão bastante avançadas, faltando apenas a contra partida da Prefeitura para o acabamento e mobiliário. Nosso desafio agora é a convocação dos artistas da cidade para compor as Câmaras Setoriais, que darão o suporte para a formulação de uma metodologia de gestão para o espaço tão sonhado. Desde já, deixo aqui meus agradecimentos à D. Lili Safra, que vislumbrou na cultura uma forma  lúdica, simbólica e permanente para homenagear seu pai Mr. Watkins, industrial que trouxe muitos empregos para nossa região, sobretudo aos mesquitense, colocando-nos no  topo da cadeia produtiva do Estado durante Décadas. Legítima e merecida homenagem.



Maio de 2014

Agora, com cerca de 90% das obras já concluidas, resta apenas a contrapartida da Prefeitura (cerca de 10% do valor) para que os equipamentos e mobiliários sejam colocados. Resta ainda uma complementação, visando a adequação do entorno do Centro Cutural, o que certamente vai adiar ainda mais a inalguração.


Visão de parte da galeria e palco

Espaço de Convivência - design futurista de bom gosto

Visão da fachada
Dezembro de 2014

A parte externa e fachada já estão prontas, restando agora as adequações do entorno, sem definição ainda de uma data para inauguração. Foi feito um aditivo de recursos que possibilitou enquadrar inclusive melhorias nas ruas ao redor do Centro Cultural. A novidade é o fato ter vinculado o Centro Cultural Mr. Watkins à Secretaria de Educação, sem a possibilidade de atuação de agentes culturais e artistas em agenda que não seja diretamente de cunho educacionais, dentro dos parâmetros da Educação Básica. Tal fato vem gerando uma série de encontros entre Conselho de Cultura, Câmara de Vereadores e secretaria de Educação, no sentido de tentar reverter tal limitação no uso daquele espaço tão esperado.


Fachada pronta e obras do entorno em andamento
Decreto nº. 1546 de 21 de outubro de 2014 - Centro Cultural foi pra Educação

26 de junho de 2015
  
Hoje o dia foi de corrigir detalhes nas obras do entorno e na área interna do CCMW que já está inclusive com o letreiro da fachada. Alguns detalhes positivos e negativos me saltam aos olhos logo na chegada.


Rede elétrica instalada e letreiro já colocado
O aproveitamento do terreno foi algo bastante positivo, no sentido que uma área pequena e restrita pode atender todas as necessidades do projeto básico.


Galeria - não contempla área pra som e luz
São duas áreas de plateia, sendo que a superior também deveria contemplar um espaço para operadores de áudio e luz, com seus respectivos equipamentos, o que aparentemente não está disponíbilizado.


Visão frontal do palco - pouco espaço cênico
Visão da lateral - as cadeiras da direita não têm visão do palco

Logo de cara é possível ver a limitação do palco, que tem quase um terço de sua área tomada pela escada "caracol" que vai até o erceiro piso e o elevador de acesso para deficientes.


Elevador - sem utilidade em caso de falta de energia


 Opção ideal seria a instalação de rampa de acesso devido a pouca inclinação, o que daria autonomia à pessoa de mobilidade reduzida.
Primeira fileira da galeria - muito estreito

Na galeria, a primeira fileira com cerca de vinte cadeiras, com espaço muito curto em relação ao alambrado de proteção. 
Terceiro piso - lindo espaço
 Ese vão livre no terceiro piso dá acesso ao palco. Com uma escada em formato de caracol, o acesso descoberto pode molhar a área interna pois, em caso de mal tempo, não pode ser acessado. Por ser uma área aberta, no verão pode ficar pouco útil por ser descoberto.


Rua com o nome do patrono do Centro Cultural
A Rua Mr. Watkins fica no trecho onde esse grande benfeitor tinha sua fábrica e peças para ferrovia. Por conta dos benefícios em relação ao então 5º. Distrito de Nova iguaçu que inclui também a construção do Tênis Clube de Mesquita, vemos uma justificativa bem plausível para a imposição de D. Lili Safra em fazer melhorias no entorno do centro Cultural.
Arborisação do entorno - imposição de D. Lili Safra
No conjunto das coisas, vemos que a execução das obras e a entrega desse espaço simbólico é de extrema importância para o município de Mesquita. A participação da população e sobretudo dos agentes culturais e artistas da cadeia podutiva da Cultura em nossa Região da Baixada Fluminense. Dito isso, pelo fato de que um espaço dessa natureza vai contribuir para fazer com que Mesquita torne a ser referência cultural inclusive para os municípios do entorno.

30 de junho de 2015

Fui realizada a inauguração do Centro Cultural Mr. Watkins, com ressalvas importantes quanto a participação popular no evento, que ocorreu de forma privada e, segunda a Secretária de Educação Áurea Lobo, assim ocorreu por determinação da Fundação financiadora dos recurso utilizados para execução das atividades naquele espaço. Segue postagem extraída do site da Prefeitura de Mesquita sobre o evento.


Professores de música e Educação artística garantirão as atividades  

Conselho de Cultura preterido: não houve convite formal para a solenidade

Segundo informado pelo administrador do Centro Cultural, não existe ainda um plano de participação dos artistas locais na programação do espaço, contrariando o desejo dos artistas e agentes culturais do município, que defendem a ideia de uma agenda prioritariamente de acesso aos artística e agentes culturais da região, com transversalidade educacional, haja visto que a manutenção do vínculo com a Secretaria de Educação é um desejo do Governo Municipal em detrimento do que a classe artística pleiteia.
Com um quadro funcional  bastante qualificado no que se refere à transversalidade entre educação e artes, será utilizado esse pessoal para dar vida útil ao CCMW, dando acesso aos alunos da Rede Pública Municipal, fazendo circular sua produção artística sem, no entanto, produzir interação significativa com os artistas locais, bem como conhecimento da amplitude dos bens culturais do município de mesquita e região.

http://www.mesquita.rj.gov.br/?p=20405


17 de agosto de 2015

Foi publicado em Diário Oficial do Município de Mesquita a primeira nomeação referente à gestão do CCMW. O servidor Rogério Castro é Arte Educador da Rede Municipal de ensino desde 2006 e o primeiro administrador desse espaço que tem como virtude ter um servidor de carreira, responsável por gerir esse espaço e sua decorrente programação. 


Rogério Magalhães Castro, à frente do CCMW

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A MARINHA DO BRASIL E SEU HISTÓRICO DE VIOLAÇÃO DE DIREITOS


Nome dado à rua com maior numero de negros no eixo Mesquita/Nilópolis

(Texto revisado em 08/11/19)

A ideia de “direitos humanos” tem sua origem no ano de 1948, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a partir do que os estados nacionais deveriam se referenciar, no sentido de estabelecer regras de convivência pacífica e cidadã, ainda que tal dispositivo tenha surgido após duas grandes guerras que devastaram países e contribuíram pra refazer o mapa mundial. O fato é que as forças armadas se colocam como um rincão de austeridade e disciplina, que se estabelece a partir de sua própria interpretação, muitas vezes sem a devida transparência, o que torna difícil a aplicação de uma justiça que garanta direitos.


A Marinha do Brasil, em particular, se notabilizou ao longo do tempo como uma força armada que se coloca acima das demais, por seu inegável legado histórico, sobretudo no que se refere ao pioneirismo da navegação portuguesa, herdada. No Brasil república, a Marinha deixa claro seu desejo de manutenção do status quo, da pior maneira possível, ao subjugar seus subordinados através de castigos corporais, quando em situação que carecessem de punição, como vemos na chamada “Revolta da Chibata” (vide link a baixo). O agravante em relação a essa postura da Marinha do Brasil é o reflexo disso na sociedade. O conservadorismo das camadas privilegiadas demonstra que de fato algumas medidas punitivas devem mesmo ser exaltadas, quando ocorrem na base da sociedade, como vemos no exemplo a seguir.

O Almirante Batista das Neves na Chatuba


Pode parecer zombaria... e de fato é. No bairro com maior população de negros e pardos e onde os moradores detém a menor renda do eixo Mesquita/Nilópolis, ergue-se uma homenagem a um notório torturador de negros da República. O Almirante João Batista das Neves, comandante de um dos maior navio de guerra das Américas, institucionalizava o que João Cândido chamava de “escravidão na Marinha brasileira”, fazendo dos castigos físicos uma verdadeira vergonha para a nação brasileira e mostrando que, para muitos "senhores", o pobre e o preto ainda devem ser submetidos à "justiça" de quem manda.

Em 21 de Agosto de 1947 Nilópolis emancipou-se de São João de Meriti. Questionou-se então que o território nilopolitano deveria ser o da Fazenda São Matheus, que ia até o Rio Socorro(divisa entre Av. União e Rua Batista das Neves). Com a venda dessa área no início do Século XX, os lotes destinados aos compradores de mais baixa renda  foram registrados em cartório com ruas enaltecendo grandes “vultos históricos” como era praxe do positivismo, uma tradicional corrente filosófica, cuja criação é inspirada no pensador francês Auguste Comte (1798-1857). O Município de Nilópolis então teve – como na verdade deveria ser – limite no Rio Sarapuí, maior acidente geográfico de referência, fazendo com que se perdesse para Nova Iguaçu os bairros Chatuba e Várzea do Sarapuí, hoje conhecido como Edson Passos.

Se os castigos físicos eram tidos como desumanos mesmo na primeira década da Republica, o texto a mim enviado pelo Otair mostra que, na mente de muitos, a escravidão ainda não terminou.

Ivan Machado

Texto enviado por Otair Fernandes

Encerramos o ano de 2011 com um balanço de violação dos direitos das comunidades quilombolas no Brasil.
A Marinha como inimiga histórica da população negra do Brasil - vide o exemplo da Revolta da Chibata, em 1910, e, 100 anos depois, os recentes eventos ocorridos em Alcântara, no Maranhão, em Marambaia, no Rio de Janeiro, e, agora, no Quilombo Rio dos Macacos, Bahia, onde mais uma vez o Ministério da Defesa, através da Marinha, corre o risco de responder numa corte internacional dada a situação de violações composta por um repertório que passa desde o impedimento de crianças irem à escola até a negação de socorro a pessoas centenárias. No território quilombola do Rio dos Macacos, oficiais da Marinha estão diretamente implicados em casos que levaram até mesmo a óbito.
Se tem uma expressão entre os poderes no Brasil que não conhecemos são as Forças Armadas, que se constituíram no País desde o início do século XIX com a missão de caçar negros e indígenas, impedindo qualquer forma de organização política destes dois segmentos . Ao longo do século XX, esta mesma instituição se articulou e cresceu no Brasil, sustentada por três pilares: trata-se de uma organização patrimonialista, sectária e focada na estratégia de guerra onde a maioria da população é tratada como inimiga. Só por isso foi possível atravessarmos o século XX com intervalo de democracia e realidade de ditadura, pois o último princípio de sustentação das forças armadas no Brasil conta com o elemento de ausência de qualquer mecanismo de diálogo e controle social por parte da população.

Portanto, o que está acontecendo em Rio dos Macacos coloca a Marinha em rota de colisão com a sociedade democrática de direitos, onde todas as instituições do Estado estão funcionando. A Marinha, enquanto instituição anunciada em sua missão de defesa, tem atuado constantemente violando os direitos humanos dessa e de outras comunidades que por gerações inteiras lutaram para conquistar, implicando na negação do direito de ir e vir, de expressão, de organização política, de acesso aos serviços básicos, como educação e saúde, do modo ser e fazer das comunidades que habitam secularmente e que tiveram seus territórios invadidos datado nos últimos 50 anos. 

Nos últimos meses, como forma de enfrentar a organização política da comunidade Rio dos Macacos e da solidariedades de muitos grupos da Bahia e do Brasil, a Marinha protagonizou  inúmeras ações violentas a exemplo do assédio diário à comunidade com dezenas de fuzileiros armados; invasão de domicílios atentando contra os direitos das mulheres; uso ostensivo de armamento exclusivo das forças armadas criando verdadeiros traumas em crianças, adolescente e idosos, que tiveram casas invadidas e armas apontadas para as suas cabeças; impedimento das atividades econômicas tradicionalmente desenvolvidas pela comunidade, como a agricultura e a pesca de subsistência como forma de inviabilizar a permanência no território;

Um saldo desse conflito desigual se evidencia no grande número de crianças, adolescentes e adultos que foram impedidas ou que foram forçadas a desistir de frequentar a escola. Na comunidade de Rio dos Macacos, dois fuzileiros ficavam de prontidão num ponto denominado pela comunidade como “barragem” para impedir a saída e entrada de pessoas, e quem insistiu foi espancado, preso e humilhado publicamente como castigo exemplar. Desde a década de 1970 que mais de 50 famílias foram expulsas do território e se mantém alto nível de hostilidade aos que permaneceram resistindo. 

A disputa não se dá apenas no campo objetivo, pois a Marinha, ao destruir dois terreiros de Candomblé em Rio dos Macacos, também estabeleceu uma guerra contra a sustentação simbólica, que incide diretamente no ataque à memória, à cultura e às tradições, elementos fundamentais à identidade quilombola. Neste ponto, a Marinha viola todos os protocolos internacionais assinados pelo Brasil, a exemplo da Declaração de Durban, resultante da 3ª  Conferência Mundial contra o Racismo, na África do Sul, em 2001.  

Diante da ampla mobilização e denúncias tão contundentes, diferentes órgãos e instâncias da administração pública do Governo Federal (SEPPIR, FCP, AGU, PGF, PGU, MDA,INCRA, MINISTÉRIO DA DEFESA E SECRETARIA GERAL DA PRESIDENCIA), implicados na garantia dos direitos das comunidades quilombolas, garantido no artigo 68 dos atos das disposições transitórias da Constituição Federal de 1988,   que garante que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos”, regulamentado no decreto 4887/2003, em conformidade com Convenção 169 da OIT, tomaram como decisão realizar imediatamente o RTID (Relatório Técnico de Identificação e Delimitação), que é uma peça técnica fundamental para que a presença da comunidade no território seja entendida pelos poderes públicos.

Estranhamente e de forma arbitrária, a Marinha achou-se no direito de impedir um órgão da administração federal, o INCRA, de cumprir com o dever constitucional e o acordo institucional firmado no dia 3 de novembro de 2011. No dia 09 de dezembro, a Marinha anunciou que não ia permitir a entrada dos técnicos do INCRA no local, alegando que as ações daquele órgão no sentido de realizar os estudos necessários à regularização das terras dos quilombolas e assim cumprir o que manda a Constituição seriam incompatíveis com o interesse público. Leia-se, como interesse de ampliar a Vila dos Militares.

Desta forma, enquanto a Presidenta descansa sem talvez saber o que se passa a poucos metros da caserna, guarnecida pelo aparato militar, também o INCRA e seus servidores estão sob ameaça, pois a Marinha, nos termos do documento anexo, promete, “utilizando-se dos meios permitidos em Regulamento para inibir qualquer prática atentatória à perda das garantias de manutenção da Dominialidade Federal da região”, barrar o processo de realização dos direitos constitucionais da comunidade.

Por tudo relatado, exigimos providências imediatas por parte da Presidenta da República e pelo Ministro da Defesa, pelo fim da violação dos direitos humanos, pelo garantia dos direitos quilombolas e pela imediata regularização fundiária do Território da Comunidade Quilombola Rio dos Macacos!!!