sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

CULTURA GOSPEL: tendência na sociedade ou estratégia de poder?


 Em dezembro de 2025 o Brasil assumiu oficialmente o Gospel como “manifestação cultural brasileira”, possibilitando-lhes acesso aos mesmos direitos que nossas festas tradicionais populares ou ritos e crenças ancestrais, negras ou indígenas. Quero então dedicar aqui um tempo para discorrer brevemente sobre a história do Gospel no Brasil, até a chegada do Worship, enquanto tendência estética contemporânea neopentecostal que, a princípio, nada mais é que mais uma forma de americanização do que conhecemos como louvor ou adoração, entre cristãos evangélicos. Essa é uma tendência neopentecostal que ganhou força no Brasil nos último 10 anos, tendo como público prioritário a juventude evangélica, tendência essa que se coloca como uma nova forma de “avivamento Espiritual”. Amparados por forças políticas e midiáticas internas e externas, esse movimento, que tem a música como carro chefe, não difere de outras estratégias que pairam pelo Brasil desde os anos 60, e que tem seu ponto culminante nos anos 70, motivada pela Guerra Fria e o financiamento estadunidense à ditadura no Brasil. A ideia desde sempre é envolver corações e mentes em um modelo estadunidense de conduta moral e olhar sobre a política, tendo a fé e seus simbolismos como meio para criar empatia junto a população. Partindo desse princípio, vale questionar também porque não seria o momento ideal para acentuar a relevância do Pagode Gospel, que se fortaleceu a partir dos anos 2000, além de outras tentativas pontuais de colocar congas e tambores no altar, como tentaram o Pastor Claudio Claro e o grupo Jabacor. Essa ideia seria uma possibilidade, não fosse a necessidade dos supostos missionários norte-americanos de exercer influência sobre a cultura nacional horizontalmente, de forma centralizada e sob domínio de quem deseja comandar um rico mercado, como pensam os detentores dos direitos autorais do chamado Worship. 


“Um Maracanã lotado”. Essa sempre foi uma das principais frases para definir a ordem de grandeza de algum acontecimento que envolva multidões. O show gospel que aconteceu no Maracanã no dia 31 de dezembro de 2025, reunindo cerca de 30 mil pessoas, foi apenas mais um desses eventos promovidos para marcar posição  diante da sociedade. No momento em que o movimento gospel é assumido pelo estado brasileiro como patrimônio cultural, o movimento gospel consegue um forte mecanismo de reconhecimento de sua relevância. Avanço esse que vem sendo desenvolvido como estratégia midiática iniciada desde os anos 90, se estabeleceu, tomando como ponta de lança a produção musical desse segmento religioso. Como previsão de público inicial na faixa das 50 mil pessoas, o MaraViraRio não foi o maior evento midiático evangélico, naquele que já foi o maior estádio do mundo, em um histórico de ocupação de espaço político por parte do público evangélicos, no Rio de Janeiro. Vale também acrescentar que esse evento foi promovido pelo pastor Josué Valandro, dirigente Igreja Batista Atitude desde 2003, tendo como membro a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, que integra aquela comunidade evangélica desde 2018.


Já apresentei aqui no blog, texto que descreve com mais profundidade a relação entre música sacra e canções de enlevo espiritual ou, como era comum descrever, "Louvor e adoração". No texto "O gospel que o que é de Cesar", eu falo sobre os primeiros pastores que exerciam a música como prática missionária, dando seus testemunhos de mudança de vida e conversão, sempre muito ligados à doutrina de suas respectivas igrejas. Um segundo momento, extremamente relevante nesse processo, é a radicalização teológica proposta pela Igreja Universal do Reino de Deus que, juntamente com a Igreja da Graça, investem pesado nas mídias televisivas e radiofônicas, culminando em seu principal objetivo, que é a influência no campo político, não apenas indicando candidatos ligados à igreja, como sempre ocorreu. Mas, com a criação de partidos políticos, majoritariamente alinhados ao pensamento de seus líderes evangélicos.


Algumas igrejas evangélicas têm se dedicado a uma disputa de hegemonia cultural no Brasil, sob a justificativa de que estamos vivento uma verdadeira “batalha espiritual”. Ocorre que essa visão de disputa entre forças espirituais politicamente inspiradas, sempre ocorrem a partir de motivações extra fronteiras. O Pastor estadunidense Billy Graham esteve no Maracanã em 1974, em cinco dias de sua  Cruzada Evangélica pela América Latina. Foram 615 mil pessoas assistindo presencialmente às pregações daquele que foi o evento divisor de águas para os evangélicos no Brasil. Grande parte da produção daquele evento foi financiada pela Associação  Evangélica ligada ao pastor Graham, enquanto os governos justificaram apoios financeiros por se tratar de “um evento de forte apelo diplomático”. Em plena ditadura militar, a realização  desse evento foi interessante para ambas as partes, pois o governo dos EUA se utilizava do chamado “Soft Power” para levar os interesses daquele país à América Latina. Conhecido como o “o Pastor da Casa Branca”, Billy Graham pregava o que os EUA entendiam ser fundamental para o Brasil.

Um dos dias do Pr. Graham no Maracanã


50 anos depois, o Brasil se vê mais uma vez em uma teia midiática de espiritualidade tipo exportação. Em uma nova onde de suposta espiritualidade, pastores dos Estados Unidos vêm investindo em caravanas evangelísticas no Brasil, como o Voice of the Apostles (voz dos apóstolos) de Randy Clark, que chega com o discurso de promover avivamento espiritual, cura e libertação. O Global Awakening de Clark é apenas um entre outros mecanismos de influência na forma como o Brasil vê e pratica sua espiritualidade, enquanto lucra com o estabelecimento desse novo modelo, através da música gospel. Ocorre que esse modelo de mídia cristã, assim como os demais trazidos para o Brasil, desde sempre, não dialoga com a diversidade cultural brasileira. No entanto, diferente do que ocorria entres as igrejas evangélicas no século XX, hoje não são mais os pastores, muito menos as denominações protestantes e seus hinários, que determinam o repertório eclesiástico e sim, as rádios evangélicas, plataformas de streaming e, sobretudo, as produtoras estadunidenses hoje, com Worship. Sendo o Brasil um país de influência e relevância grandes entre os demais países do Atlântico Sul, estabelecer, consolidar e expandir o mercado gospel por aqui, redunda em ampliar a influência estadunidense entre países vizinhos que defendem mais fortemente sua cultura.

A maneira feroz como alguns líderes religiosos rechaçam a diversidade cultural brasileira, nada mais é que a necessidade de garantir a hegemonia do discurso, diante da sociedade. Para tanto, interferir em uma estrutura midiática já polarizada, como no Sertanejo, torna-se fundamental à superestrutura que, atualmente, mistura mídia e poder. o Worship é parte de um conjunto de estratégias de evangelização composto de parcerias educacionais, marketing visual e o estabelecimento de uma indústria fonográfica que aponta para o mercado gospel dos EUA, dando formação e especialização técnica para a cadeia produtiva do Gospel brasileiro, por igrejas e estúdios consolidados no mercado. Nessa formação são incluídas estratégias voltadas as mídias sociais e pesados investimentos em publicidade, como é possível perceber, sempre que ligamos nossas TVs em horário nobre, o que foi possível perceber na programação de canais abertos nesse fim de ano. A iniciativa de Estado que reconhece o gospel como manifestação popular, reflete bem o esforço de líderes evangélicos em ocupar espaços de poder, cientes que tal atitude garante a criação de políticas públicas que contemples seus interessem em particular. O esforço inicial da doutrina missionária estadunidense já deu seus primeiros resultados, no sentido de horizontalizar o cancioneiro cristão evangélico que, por mais de um século, possibilitava corroborar a doutrina de cada denominação evangélica através de seus cânticos. 

Os hinários cristãos eram usuais até o fim dos anos 90

Aquele cancioneiro evangélico, tido como patrimônio antes da virada do século XXI, agora dá lugar a uma melodia simples e de fácil assimilação, de linguagem genérica e de pouco aprofundamento na doutrina cristã do Novo Testamento. A música cristã do início dos anos 2000 ainda conserva os princípios básicos do pentecostalismo, como o discurso focado na chamada “batalha espiritual”. Porém, como o objetivo que se apresenta naquele momento é estabelecer uma igreja jovem e dinâmica, a figura do Diabo é gradativamente afastada na canção, apontada diretamente na sociedade, tendo as esquerdas como exemplo de impedimento ao cumprimento da vontade de Deus, no Brasil. É a proposta de uma visão globalizada da vontade de Deus, afastando definitivamente qualquer possibilidade de identificação comunitária da fé, o que não nos permite mais diferenciar um cântico metodista de um hino pentecostal ou “Corinho” batista. Refletir a mensagem bíblica não é hoje mais importante quanto a redundância de um refrão “chiclete”. É inclusive difícil classificar esse cancioneiro gospel como cristão ou evangélico, pois Cristo não está no centro do discurso, nem mesmo o evangelho, com seu texto neotestamentário, serve mais de referência poética ou doutrinária, me trazendo a menta a seguinte pergunta: a qual cultura o gospel no Brasil, se refere?

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

TRUMP, TARIFAÇO E NÓS, NA ANTIGA "ARTE DA GUERRA"


“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, 
não precisa temer o resultado de cem batalhas”.
Sun Tzu

A máxima “roupa suja se lava em casa” nunca foi tão oportuna, considerando a conjuntura política do Brasil hoje. Se considerarmos a persistente desaprovação do Governo Lula desde o início do ano, que se reverte a partir de junho, é possível perceber que as elevadas tarifas econômicas impostas pelo presidente dos EUA Donald Trump fizeram a diferença nos indicadores do nosso velho estrategista político. Ocorre que o presidente estadunidense adentra a uma seara que evoca o adormecido sentimento de nacionalismo no povo brasileiro, no sentido que Trump passa a interferir não somente na balança comercial, mas também na ideia de justiça, imposta a partir de seus interesses e afinidades, além de uma ideia de liberdade e soberania nacional, fundamental para suas estratégias de política interna.

 Mas, qual é o papel de Lula nesse embate, que supostamente apresentava características meramente econômicas, mas que se mostram agora como interferência do governo dos EUA na política interna brasileira? Será que existe método na atitude do presidente brasileiro quanto a forma com a qual rebate Trump? Vou responder a essas questões tomando como referência o clássico livro te Sun Tzu, “A arte da Guerra”, tamanhas as semelhanças entre as estratégias do escritor chinês e a postura política do presidente brasileiro.

Sun Tzu e seu livro, em seu contexto histórico entre o ontem e o hoje

 Tzu supostamente viveu no século V aC, no território onde temos hoje o grande império chinês, em um período no qual os estados nacionais ainda não existiam. É um momento no qual a guerra era vista como uma arte, essencial para apresentar o perfil do lider, manter o equilíbrio político no território e garantir a permanência das estruturas de poder existentes. O livro,ao longo do tempo, foi adotado como um manual prático de estratégia, com foco em vencer conflitos com o mínimo de desgaste. Os ensinamentos de Sun Tzu foram usados por figuras históricas como Mao Tsé-Tung - líder da Revolução Chinesa - ou até em estratégias empresariais modernas. Quando observamos como o atual presidente chinês Xi Jinping se porta diante do quadro político internacional, somos levados a pensar na mensagem contida naquele constante sorriso, que pode ser interpretado por um quadro da Moraliza, cujo fundo apresenta um cofre enorme, cercado por um exército de milhões de soldados. Uma imagem que demonstra equilíbrio e acúmulo, após séculos de conflitos e mudanças a na cultura chinesa, que levaram o país ao status de segunda maior potência bélica e econômica do mundo, em frança ascensão até o topo.

O livro foi escrito como um manual prático de estratégias, com foco em vencer conflitos com o mínimo de desgaste. Inclusive, diversos textos acadêmicos descrevem a relação entre a postura de Xi Jinpim e o contexto no qual se insere a obra de Sun Tzu. A Arte da Guerra não trata diretamente de economia ou nacionalismo como conceito político moderno, mas oferece reflexões profundas sobre a figura do "inimigo" e sua função estratégica, reflexões essas que podem ser interpretadas em contextos de construção de vínculos e parcerias, como é o caso dos BRICS. 

BRICS, uma semente plantada por Lula

A chamada Guerra Tarifária imposta por Trump ao Brasil não é nem de longe uma estratégia econômica gratuita ou aleatória dos EUA. É possível inclusive dizer que esse novo modelo de guerra entre estruturas de poder é uma forma com a qual o capitalismo, sobretudo entre os estadunidenses, se impõe sobre a política internacional, dominando-a e canibalizando suas estruturas do mercado internacional. Exatamente por isso, Lula se torna um dos principais articuladores em 2006, durante seu primeiro mandato, de um clube de países tidos como “emergentes” economicamente. Naquele momento, Brasil, Russia, India e África do Sul posteriormente, criaram uma aliança voltada à circulação de mercadorias, de forma amistosa e parceira.     

Composto por países que representam 40% da população mundial e 1/3 da economia global, os BRICS entram em uma guerra (tarifária) munidos uma importante capacidade diplomática por Brasil e Africa do Sul e um poderio militar incontestável, por intermédio de Russia e China. Obviamente esse é o principal diferencial entre esse clube de emergentes e a União Europeia, onde seus 27 países membros padecem de uma histórica dependência econômica sob os EUA.

Seria possível então entender que está em curso exatamente agora uma reinterpretação do clássico de Su Tzu? Cada estado-membro dos BRICS aparenta cumprir uma função específica no tabuleiro político e econômico internacional, sobretudo nesse segundo governo Donald Trump. A China é um dos principais financiadores do Conselho de Segurança da ONU, contribuindo inclusive com formação estratégica na área de desenvolvimento de tecnologias, enquanto a Russia enfrenta sanções por conta do conflito com a Ucrânia. No entanto, sua posição de membro permanente do Conselho de segurança lhe outorga poder de veto na ONU, amenizando de alguma forma as ofensivas ocidentais. Quanto a Brasil e Africa do Sul, o trunfo é o potencial diplomático de ambos, por conta inclusive da posição privilegiada em seus respectivos continentes, no que se refere a credibilidade e capacidade de diálogo com líderes nacionais. A India, por sua vez, é o país que mais contribui com tropas junto a ONU, além de compor o G4 (Brasil, Alemanha, India e Japão), cujo pleito mais relevante no equilíbrio internacional de forças é a defesa de uma reformulação no Conselho de Segurança.

O atual presidente dos Estado Unidos é então a grande mola que impulsiona o enfrentamento à hegemonia ianque atualmente, fortalecendo o nacionalismo entre países sob sanções econômicas ou tarifas elevadas. Quanto ao Brasil, emerge na população um sentimento de “meta-se com sua vida”, em uma reação típica de quem prefere proteger a família de intrujões e fofoqueiros. É claro que Bolsonaro mantém fieis seus 19% de “malucos”, como ele mesmo intitulou diante do Ministro Alexandre de Moraes. Porém, parece que as articulações internacionais de Lula dentro e fora da América Latina, vem garantindo a musculatura necessária para segurar as pontas de sua imagem como líder global, mesmo em meio à atual guerra tarifária.

Nesse momento, no qual o capitalismo 5.0 está voltado à acumulação de riquezas nas mãos de pouquíssimos, o que se acentua e se afunila a cada anos, nada melhor que desenvolver estratégias e coalizões eficazes, nessa nova e tecnológica Arte da Guerra.

sábado, 7 de junho de 2025

Barraco, Trump, Musk e o mundo, vendido no varejo

Trump e Musk: "barraco", entre aliados que viraram desafetos
(foto montagem: Diário do Amanhã)

 

Por Ivan Machado*

Acho importante contextualizar os entreveros de Trump e Musk, fazendo analogia com um modo estereotipado e peculiar para o povo brasileiro de resolver conflitos entre parte, sobretudo entre pessoas tidas como pobres, apenas ressalvando que, no caso dos dois, os objetivos são outros. 


Algumas pessoas não se constrangem em verbalizar publicamente questões de relacionamento. Em alguns casos, para constranger a outra parte ou mesmo para reafirmar a própria razão. O fato é que as antigas normas de etiqueta e bons modos não são hoje virtudes a zelar, nem mesmos entre pessoas financeiramente privilegiadas, sobretudo nesses novos tempos de ressignificação das relações globais.


Agora, com redes sociais diversas à nossa disposição, fica fácil tomar conhecimento desse ou daquele papo torto, ou de alguma indireta, lançados ao mundo no bom e velho padrão “malhação do Judas”. Nesses tempos de avanços tecnológicos, falar da vida alheia não é mais algo restrito àquela escuta feita por meio de um ouvido colado na parede ou fofoca de quem toma conhecimento do alheio na fila da padaria. Agora, capturas de tela e reposts escracham supostas verdades e isso não se restringe mais ao estereótipo da vizinha aos brados, debruçada em sua janela, discorrendo sobre a traição do marido. Quem diria então que veríamos lavação de roupa suja nos bem guardados gabinetes da Whith House. E nesse cado em particular, a fofoca se dá porque as estruturas públicas foram colocadas nas vitrines do varejo global.


Quando a gente vê ali, no nosso bairro, que um vereador recém eleito está mandando no posto de saúde ou naquela vaga de creche, fica difícil não se indignar, pois estamos falando de estruturas públicas que interferem diretamente na camada mais carente da sociedade. Com as eleições de 2018 a coisa pública virou definitivamente um produto. O Brasil aprendeu então que não há nada na estrutura republicana que não possa ser fatiado e vendido no varejo ao aliado político mais próximo de quem ascende ao poder. Ocorre que esse fatiamento da estrutura estatal, muitas vezes gera celeumas entre os envolvidos, de uma forma muito diferente do que víamos, desde o coronelismo até a chegada do neoliberalismo em nosso país.


Hoje, quem define a política nacional não são mais donos de engenho escravizadas ou  intelectuais acadêmicos, economistas keynesianos ou mesmo detentores de grandes acervos literários. O estado brasileiro vive hoje uma infestação de parasitas, completamente dependentes de cargos públicos ou licitações bem articuladas, compondo uma casta de novos ricos ocupando uma camada social que aprendemos a chamar de emergentes. A maioria desses estaria, no entanto, disputando mercado com seus antigos amigos no Uber ou iFood, não fossem as compras de voto ou os lobs feitos com prefeitos, ou empreiteiros. E o que falar dos militares, na maioria oriundos das periferias, que se aposentam aos 50 anos e enxergam na política uma forma de ocupar o tempo, criando uma nova função social para aquela arma de estimação.


Não é de hoje que liberais que se autointitulam Outsiders, vêm tentando transformar o Estado em empresa, sob o argumento furado de dar-lhe mais agilidade e eficiência. O Mercado, por sua vez, sente pavor da palavra “regulamentação“. Além disso, há também a possibilidade de ampliar riqueza com o domínio das estruturas burocráticas, organizando processos a partir da eleição de aliados nos parlamentos, vide as extra-oficiais bancadas ruralistas, do agro ou da bala. Quando a mídia lança a público alguma notícia que expõe as espúrias relações, não é raro ver manifestações em plenário, expondo a parte podre de vínculos antes lucrativos e amistosos entre parlamentares de direita.


Na relação entre Musk e Trump essas questões são levadas aos mais altos níveis de loucura, haja vista que ambos entram para a política já detentores de fortunas que superam o raciocínio matemático de pessoas comuns. O resultado não poderia ser pior. Em um país onde NASA, empresa pública estadunidense extremamente estratégica, privatiza a chamada “corrida espacial”, não fica difícil compreender a frustração daquele que ansiava em ser o primeiro trilionário do planeta, às custas da Terra das Oportunidades, como era vendida a imagem dos EUA aos imigrantes, no início do século passado.


Já Trump, figura que sempre fez espetáculo com seus negócios, transfere essa espetacularização midiática para a gestão pública, nesse seu segundo mandato presidencial. Nós brasileiros conhecemos bem esse perfil de empreendedor governamental, através das figuras de João Dória em São Paulo e Romeu Zema em Minas Gerais, ambos buscando implementar a ideia de estado Mínimo onde há carência de atenção máxima do Estado. O resultado é o desmonte de estruturas que garantam suporte aos menos favorecidos, haja vista que a Saúde, como exemplo, detém uma fatia muito lucrativa do orçamento, aos olhos de empresários do setor privado, antes de ser um direito fundamental de cada cidadão ou cidadã.  


O barraco, que superou o estereótipo de moradia precária, virou verbete relacionado a confusão, tendo como referência os difíceis, prolongados e insolúveis problemas discutidos aos brados, entre pessoas pobres, em uma casa tão precária que a gritaria decorrente do conflito transpassa as frágeis paredes. Agora, essa ideia é transferida a todo e qualquer desentendimento discutido publicamente, sem o menor desejo entre as partem em sanar pacificamente alguma questão. Entre Trump e Musk, a publicidade desse desentendimento deixa claro que o mundo capitalista vê o Estado em fatias, onde o nível de influência e poder econômico são fundamentais para garantir a maior garfada nesse mercado. Viemos uma conjuntura política e econômica, na qual cada nova geração de políticos amplia-se a consciência de que a gestão do bem público é um grande CEASA, onde as melhores mercadorias devem ser disputadas no grito.


"União estável é mais barato"

Essa é uma afirmação comum a quem já passou por perdas com divórcios ou litígios conjugais, o que parece compreensível na turbulenta relação entre Trump e Musk. Em matéria publicada no site da CNN no dia 06 de junho, é possível perceber que as perdas financeira e de credibilidade entre as partes supera as vaidades.

Musk acusou Trump de envolvimento no escândalo sexual que teve como protagonista o empresário Jeffrey Epstein, que se suicidou ao suicídio em 2019. Jeffrey foi condenado a prisão por tráfico sexual de adolescentes, ao que Musk acusa o presidente dos EUA de envolvimento direto nas ações do amigo falecido. Por outro lado, Trump ameaça romper contratos milionários entre os governo estadunidense e as empresas de Musk, o que fez as ações da Tesla cair 14%, causando perdas de parcos 15 Bi de Dólares.

Com tanto a perder de parte a parte, ambos entenderam que reatar a rentável relação seria a atitude mais prudente a ser tomada, pois alguns dos fieis e bem pagos correligionários republicanos já esboçavam reações contrárias à hegemonia trampista, ao passo que a simples bandeira da paz já fez as ações da Tesla subir 5%. 

Para os verdadeiramente ricos, aquelas famosas cenas de estapeamento em dia de promoção de supermercado, é incabível. Em tempos de extrema concentração de renda, na qual se vê o surgimento dos chamados "super ricos", o distanciamento entre a camada estratosfericamente bem resolvida financeira mente e o fundo do poço financeiro, está cada vez maior. Então, a única conclusão possível é que o capitalismo chegou a um nível tão feroz, a ponto de me trazer à mente a antológica frase Hilander, referindo-se ao imortal e poderoso guerreiro: "Só pode existir um".   

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/mundo/o-que-se-sabe-sobre-a-bomba-envolvendo-escandalo-sexual-que-musk-teria-contra-trump/   

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*Ivan Machado é professor de História, Mestre em Educação, especialista em Arte-Educação e presidente do Centro de cultura Popular da Baixada Fluminense.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

"PARTIDO PELA BASE". A CHEGADA DE UMA CORRENTE POPULAR E DEMOCRÁTICA

Uma corrente partidária que respeita as bases sociais

Nós, militantes e dirigentes do PT fluminense, nos dirigimos à toda militância e simpatizantes de nosso partido, para anunciar a nossa decisão de criar uma corrente própria no Rio de Janeiro. Entendemos que é preciso renovar o partido, não só pelo ingresso de mais jovens em nossos quadros, mas, de práticas que atualizem o ideário de um partido militante, democrático e de base popular com vistas à construção do socialismo, como preconiza o Manifesto de Criação do PT. 

É crescente o processo de burocratização, centralização de decisões e de concentração de prioridade nas capitais e áreas de influência de parlamentares, retirando a capacidade das áreas periféricas das metrópoles e do interior de produzirem política e fortalecerem o campo popular. A política de alianças, indispensável para a garantia de governabilidade do governo Lula e a qual defendemos, não pode tirar do PT a sua capacidade de se colocar como alternativa política local e disputar a sociedade.       

As últimas eleições no Rio de Janeiro apontaram um quadro bastante difícil para o PT e as forças democráticas no estado. A extrema-direita ampliou o seu espaço institucional e político. Grande parcela da população, seja pelo controle territorial, medo, manipulação pela religião, clientelismo ou mesmo, identificação com as ideias de “moral” e combate à esquerda, elegeu um contingente de parlamentares e prefeitos que se constituem numa base forte para as eleições nacionais em 2026.

É preciso reencarnar o PT, fortalecer uma base orgânica e ideológica, atuar junto aos movimentos sociais e populares e ampliar a nossa relação com setores médios da população e os evangélicos para que se engajem na luta por democracia e direitos sociais. A direção nacional e a estadual do Rio de Janeiro devem estar sintonizadas com essa estratégia, mapear a presença de nossas organizações sociais e militantes e contribuir para o crescimento de diversas experiências políticas pulverizadas no território fluminense e sem apoio.

Em Maricá, se experimenta o modo petista de governar com inversão de prioridades, participação e experimento de iniciativas que fortalecem a economia popular e solidária, cultivam-se ideais de solidariedade e de enfrentamento às desigualdades sociais. Maricá pode ser uma referência na combinação de crescimento com igualdade social e é preciso dar mais visibilidade, bem como as demais cidades administradas pelo PT no estado, que devem ser apoiadas para que se tornem referência e nos coloquem no debate das políticas públicas.

É também importante o PT entrar no debate das políticas estaduais com foco no combate às desigualdades sociais. É histórico o quadro de concentração de renda e de políticas na capital e exclusão das áreas de periferia da metrópole carioca e interior. A experiência de Maricá e a ampliação de nossa influência no Leste Fluminense é a demonstração de que devemos ser mais proativos na luta e proposição de políticas estaduais.

A criação da nossa corrente no Rio de Janeiro visa: 

- estreitar as relações entre os diretórios nacional e estadual do Rio de Janeiro com as direções municipais; 

- contribuir para a dinamização das instâncias partidárias em todos os níveis, superando a burocratização e centralização; 

- ampliar o debate e a formulação de políticas públicas; 

- fortalecer os movimentos sociais, populares e sindicais; 

- estreitar nosso relacionamento com o meio evangélico;

- priorizar a Baixada Fluminense, zona oeste da capital e interior fluminense e; 

- ampliar a base de apoio ao governo Lula e à sua reeleição. 

Reafirmamos nosso compromisso com um PT plural, democrático, popular e de massas e nossa prioridade em 2025 é fortalecer a nossa presença e influência no diretório estadual do Rio de Janeiro e nas direções municipais, a partir dos pressupostos acima. As articulações no plano nacional estarão subordinadas a esses objetivos, não estando condicionadas a nenhuma corrente nacional.

ASSINAM ESSE MANIFESTO

Militantes do PT/RJ:

Jorge Florêncio – Diretório Nacional / ex-presidente estadual RJ

Leticia Florêncio – Executiva Estadual 

Carlos Ferreira – Ex-vereador e vice-prefeito Nova Iguaçu

Dema – Secretário de Organização PT Capital

Pedro Lucas - Secretário Estadual de Organização JPT

Milton Mano - Coordenador Estadual Setorial Interreligioso

Ivan Machado – Presidente do CCPBAIXADA / Secretário de Cultura DM/Mesquita

Zelder Reis – Coordenador de Cultura Região dos Lagos / Diretório Municipal Cabo Frio

Claudio Moradia – União de Moradia Popular / Coordenador Setorial de Moradia e Direito à Cidade 

Weslei Anacleto - Diretor Movimento Nacional Quilombo Novembro Negro (MONAQNNE)

Paulo Tomé - Diretor Movimento Nacional Quilombo Novembro Negro (MONAQNNE)

Davi da Silva – Ex-diretor Sindicato Ferroviários Central do Brasil /Coordenação Setorial de Moradia e Direito à Cidade 

Ademir – Sindicato dos Correios

Ricardo Cardoso – Associação Trabalhadores NUCLEP

Júlio Fava - Diretoria do SINTUR/Sindicato dos Trabalhadores Técnicos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Ismael Lopes - Militante do Movimento dos Evangélicos pela Democracia

Maria Ferreira - Sindicato das Domésticas da Baixada

Jô Xuxa - Movimento LGBTQIPNA+ da Baixada Fluminense

Flávio Médici - Coordenação do Comitê de Lutas Sindical e Popular da Baixada Fluminense 

Luzinete Atanazio - Coordenação Movimento de Mulheres Dandaras dos Palmares

Cileide Jardim - Coordenação Associação de Mulheres Evangélicas com Cristo e Pela Vida (AMEVIDA) 

Missionária Taís - Coordenação Associação de Mulheres Evangélicas com Cristo e Pela Vida (AMEVIDA)

Evangelista Valdete - Coordenação da Associação de Mulheres Evangélicas com Cristo e Pela Vida (AMEVIDA)

Antônio Carlos - Militante do Meio Ambiente Pedra de Guaratiba

Ana Cristina - Mãe Ana da Umbanda Sepetiba

Pastor Carlinhos - Assembleia de Deus Campo Grande 

João Firmino - Coordenador Associação de Moradia Popular da Zona Oeste 

Mario Sérgio - Militante do PT Santa Cruz

Luis Carlos Cardoso - Presidente 6ª Zonal PT Capital

Zeca Carvalho – Presidente Diretório Nilópolis

Toinho- Secretário de Organização – Nilópolis

Margareth Felipe – Executiva S J Meriti 

Pedro Rodrigues – Secretário de Comunicação S J Meriti

Leila Regina – Executiva S J Meriti / ex-secretária municipal igualdade racial S J Meriti

Diestefano Sant´ana – Secretário Organização S J Meriti / ex-secretário assistência social S J Meriti

Delmar Cavalcante – Diretório Municipal S J Meriti / ex-secretário municipal de cultura Mesquita

Vitor Soares – Diretório Municipal S J Meriti 

Vinicius Ribeiro - Diretório Municipal S J Meriti

Marcos Paulo – Presidente Conselho Cultura S J Meriti

Ronaldo Monteiro – Secretário de Organização Nova Iguaçu 

Guilherme Monteiro - Diretório Municipal Nova Iguaçu 

Laiza Verena - Diretório Municipal Nova Iguaçu 

Tia Rose - Coordenação do Projeto Ginástica Nos Bairros PMV Nova Iguaçu

Edivanildo - Diretor do MAB - Federação das Associações de Moradores de Nova Iguaçu

Graça Machado - Diretora da LUBESNI - Liga União de Blocos e Escolas de Samba de Nova Iguaçu

Pastor Claudio Márcio - Assembleia de Deus Ministério Uma Grande Nação Nova Iguaçu

Pastora Ruth Garcia - Assembleia de Deus Ministério Pronto Socorro Espiritual Nova Iguaçu

Ailton dos Quartetos - Igreja Batista Nova Iguaçu / ex-candidato a vereador

Telmo de Oliveira - Diretoria/Sindicato dos Comerciários de Nova Iguaçu e Região

Marcelo Baena - Diretoria do Sindicato dos Comerciários de Nova Iguaçu e Região

Sérgio Bruno - Presidente do Sindicato dos Vigilantes de Nova Iguaçu

Sandoval Marques - Presidente do Sindicato dos Químicos de Nova Iguaçu e Região

Maria Eduarda - Estudante de Nanotecnologia da UFRJ

Elisa Campos - Diretora do Sindicato dos Comerciários, ex-candidata a vereadora em Mesquita.

Rose Torquato – APN RJ / Diretório Municipal Mesquita 

Geilson – Diretório Municipal Mesquita

Laurinda – Diretório Municipal Mesquita

Alcebíades – Diretório Municipal Mesquita 

Carminha – Diretório Municipal Belford Roxo

Sebastião – Diretório Municipal Belford Roxo

Valdo – Diretório Municipal Belford Roxo

Claudia – Executiva Municipal Belford Roxo

Pastor Silas Gonçalves - Assembleia de Deus em Nova Aurora - Belford Roxo 

Ana Cristina – Creches comunitárias Belford Roxo

Pastor Getúlio – Ex-presidente PT Queimados

Ismael Lopes – Ex-vereador e atual primeiro suplente Queimados

Maurício – Diretório Municipal Queimados

Sérgio Maurício de Lorena - Diretório Queimados

Rosemery Lourenço - Diretório Queimados

Lauricy – Diretório Municipal Duque de Caxias

Dionísio – Coordenador ong PROFEC Duque de Caxias

Isaías – Líder comunitário Duque de Caxias

Lili Moraes – Ex-candidata vereadora Mangaratiba

Jurandir – Advogado PT Itaguaí

Marcos Vinicius – Ex-presidente Mangaratiba

Ana Cruz – Militante movimento mulheres Niterói

Antônia Pedrosa - Militante Setorial Moradia e Direito a Cidade São Gonçalo

Prof. Luizinho - Presidente Rio das Ostras

Profa. Maria Augusta – Presidenta Municipal Armação dos Búzios

Dandara Melo – Executiva Municipal Arraial do Cabo

Zé Dias – Diretório Municipal Arraial do Cabo

Marilda de Jesus – Secretária de Organização Armação dos Búzios

Venilci Anne – Secretaria Mulheres Araruama

Prof. Serjão - Executiva Municipal São Pedro de Aldeia

Luciano Silveira – Vice-presidente Cabo Frio

Carminha – Setorial Direito Animal Cabo Frio

Magno Alves – ex-candidato vereador 2024 Saquarema

Araquem Avenia – Setorial de Saúde Quissamã

Juliano da Construção – ex-candidato vereador 2024 Casemiro de Abreu

Izaias Queiroz - ex-vereador Cordeiro

Valteir Pereira da Costa - Diretório Macuco

Gabriel Gouvêa – Secretário de organização Santo Antônio de Pádua

quarta-feira, 30 de abril de 2025

30 de abril: a Baixada Fluminense e o progresso que exclui do pobre o chão e o verde

Nilo Peçanha, o único Presidente negro brasileiro: fez a BF avançar?

Em mais um 30 de abril, dia da Baixada Fluminense, devemos parar para refletir.  De onde vem esse nosso desapego pelo verde, se vivemos ao redor da maior floresta urbana do mundo? O adensamento populacional nos territórios mais pobres, que antes eram terras férteis e produtivas, reflete o décfit habitacional brasileiro e a constante luta por direito a terra,  ao passo que famílias buscam afinidades e pertencimento em seus territórios, ignorando fatores ambientais fundamentais para qualidade de vida. E como preservar sem conhecer? A urgência com a qual pessoas de baixa renda ocupam os territórios leva as populações a ignorar, em primeiro lugar, a história de cada lugar. 

A ideia de Baixada Fluminense, enquanto fenômeno geográfico, se define pela quantidade de cursos d´água (flumens) que escorrem das montanhas verdejantes para as planícies (baixada) tendo o mar como destino. Essa descrição quase poética é bela, porém contrastante com a realidade que vivemos, em relação como ocupamos a periferia metropolitana. É uma realidade que confronta a rápida e intensa ocupação urbana para a região, amplificada após a Segunda Grande Guerra. 

Com terras abundantes e baratas, sobretudo com o fim do ciclo da laranja em Nova Iguaçu (tida como a mãe da Baixada), tem início um novo ciclo de enriquecimento para poucos, com os loteamentos e a vinda de imigrantes europeus e retirantes nordestinos. A maioria desses, de baixa renda, vem em busca de uma nova vida, aproveitando a utilidade de cada pedaço de chão para si e seus familiares. Muitos desses se mantém próximos, tendo em vista a realidade social e econômica que também se reproduz nas gerações futuras.


Será então que essas pessoas trouxeram consigo algo além da necessidade de sobrevida? E nessa bagagem, veio por ventura alguma consciência quanto ao convívio junto às riquezas naturais locais ou até exploração saudável dessas riquezas? Com baixa ou nenhuma escolaridade em sua maioria, esses novos habitantes sonhavam com a chegada do progresso, capaz de combater a malária, entre outras dificuldades, como a precária mobilidade por estradas em péssimas condições. 


O ”Nilismo” e a eterna carência de um mito político

É sabido que existiram esforços do governo federal via onerosas campanhas de saneamento desde 1910 até a década de 40, no sentido de ampliar as margens dos rios, buscando assim diminuir os impactos dos constantes alagamentos na Baixada Fluminense. Com a ascensão de Nilo Peçanha à Presidência do após a morte de Afonso Pena, duas importantes decisões foram tomadas, no sentido de propor avanços focados em nossa Região. A primeira foi a mudança da Capital brasileira de Petrópoolis para Niteroi. A segunda medida foi a criação da omissão de Saneamento da Baixada Fluminense, que na ocasião se estendia até Campos do Goitacases. Tais movimentações integrava um movimento político conhecida à época como Nilismo, no qual seus apoiadores entendiam que a vocação a Baixada deveria ser elevada à condição de celeiro da Capital. 


Porém, não tenho notícia de ações educativas eficientes voltadas aos que aqui viviam, no sentido de desenvolver uma autogestão e um convívio saudável com a natureza, que se mostrava extremamente hostil em alguns momentos.

A década de 40, já no espéctro da Era Vargas, marca o início da fragmentação da região da Baixada Fluminense, período no qual Duque de Caxias, São João de Meriti e Nilópolis tiveram decretas suas respectivas autonomias político-administrativas.  Após uma lacuna de cinco décadas foi a vez de Queimados (1990), Japeri (1991) e Mesquita (1999) se emanciparem de Nova Iguaçu, todos esses superando de longe o número de 100 mil habitantes em 2016, segundo números do IBGE. Vale lembrar que cerca de 88% dos municípios brasileiros têm menos de 50 mil habitantes, colocando a Baixada Fluminense entre as regiões mais densamente povoadas do Brasil.


Ocorre que, diferente de Mesquita, que contou com um longo processo plebiscitário, mobilizando moradores a um processo de emancipação que se inicia nos anos 50, os processos de separação administrativos dos demais municípios têm motivação estritamente política, emancipados via decreto do governo do estado, por intermédio de figuras públicas sob risco de apagamento político, que buscavam a criação de um novo nicho eleitoral com condições mais favoráveis. 

É importante fechar o recorte temporal e político da região da Baixada Fluminense no texto das emancipações, citando a matéria publicada na Agência Folha, publicada no dia 12 de setembro de 1997:

O governador do Rio, Marcello Alencar (PSDB), promete investir cerca de R$ 400 milhões em obras de infra-estrutura na Baixada Fluminense até o fim de 1998. A maior parte do dinheiro vai para um conjunto de obras de saneamento e urbanização. A região é uma das mais pobres do Estado, marcada por altos índices de mortalidade infantil e criminalidade.  


É no mínimo interessante notar que o vanguardismo político do século XX desenvolveu “um museu de grandes novidades” para as periferias urbanas, mascarando com obras públicas o estado Mínimo Tucano. Na mesma matéria, a Folha coloca tais obras como contrapartida do Programa Estadual de Desestatização, através do qual são passadas para a iniciativa privada, empresas públicas como o Banco do Estado do Rio de Janeiro (BANERJ), as empresas de iluminação CERJ e a Companhia Estadual de Gás CEG, perfazendo um montante previsto em 1.6 Bi a mais para o superavit do estado. Obviamente os prefeitos e vereadores da região, sobretudo os de prefeituras mais pobres, compreenderam a relevância desse montante financeiro circulando pela região, enquanto o slogan do governo do estado veiculado na mídia era: “Eu nem posso acreditar. Nem parece que é Brasil!’’. Era o discurso recorrente de um governo que alardeava a virtude de levar água, luz, esgoto e asfalto aos mais pobres.


O ano era 2002 e acontecia no bairro da Chatuba em Mesquita, a segunda e última etapa do programa Nova Baixada, em um território entre os que apresentam até hoje um dos mais baixos indicadores sociais e econômicos de nosso estado fluminense. Era um programa que destinava 350 milhões de dólares para obras de saneamento, infraestrutura urbana e educação ambiental, com vistas à despoluição da Baia de Guanabara. Cabe lembrar que o programa recebe esse nome em março de 2001, através do decreto Nº27.882 do então governador Antony Garotinho, sucessor de Leonel Brizola, que denominou de Baixada Viva aquele conjunto de intervenções urbanísticas em sua primeira edição.


Os avanços desenvolvidos não vieram acompanhados de diálogo com os territórios, onde as populações encontraram seu jeito de lidar com as diversas dificuldades urbanísticas. Diferente da ocupação desordenada em diversos bairros da Capital, a Baixada Fluminense é ocupada a partir de ruas e lotes devidamente registrados em cartórios, contado com iluminação pública e algo próximo do aceitável em relação a saneamento básico. Porém, são áreas geridas por prefeituras carentes de figuras pirolíticas com algum nível de capacitação para a gestão pública e desenvolvimento humano. 


Antes favela que roça?

Alguns avanços tecnológicos marcam a história da humanidade, dando sentido concreto ao que chamamos de progresso. Construir ferrovias é sem dúvida um desses marcos histórico, sobretudo em se tratando de uma região com perspectivas de desenvolvimento como a Baixada Fluminense. Com a construção da primeira ferrovia do Brasil nodia 30 de abril de 1954, é possível imaginar que era essa a região que abraçaria com riqueza e desenvolvimento a chegada do século XX. No entanto, não foi esse o caminho literalmente trilhado. A ferocidade da natureza local, comparável à grandiosidade biológica e hídrica da Amazônia, fez naufragar as primeiras iniciativas de ocupação e desenvolvimento local.


Nossa região refuta o ditado popular que afirma que “o tempo resolve tudo”. Muitas décadas após, percebemos que, no que se refere à população, os problemas somente mudaram de caraterística. 


“No tempo em que tudo aqui era mato”, é uma das falas iniciais de qualquer história contada por moradores antigos, que tenham construído suas memórias na Baixada Fluminense, sobretudo entre meados dos anos 70 e a primeira década dos anos 2000. Quem viveu em bairros como Jardim Tropical em Nova Iguaçu, Areia Branca em Belford Roxo ou Jacutinga em Mesquita, festejou a chegada da pavimentação asfáltica e a iluminação pública, sinal concreto de desenvolvimento local. Antes disso, os imensos terrenos baldios eram ocupados por criações de porcos, hortas comunitárias ou mesmo campos de futebol, oportunizando saídas para a fome e ao lazer, desenvolvidos coletivamente e é nesse período que as associações de moradores cumpriam papel fundamental na organização social e política de diversos bairros.


No entanto, o anseio de gerações anteriores por progresso em seu lugar leva os novos habitantes a ver os avanços nas questões urbanísticas como um tipo de levante anti-ambientalista. Nem mesmo a Eco 92, com suas alarmantes projeções quanto aos impactos ambientais, fez algum sentido na mente de urbanistas e gestores públicos,  em relação a perspectivas de longo prazo sobre o que vemos hoje quanto às mudanças climáticas, provocadas por mãos humanas. Não cabia o desenvolvimento de estratégias de controle ambiental à população ansiosa por um bom e barato lugar para viver. O resultado é a importação de um modelo de gradativa favelização de áreas que deveriam ter suas estruturas aprimoradas, sobretudo com a criação do Fundo de Participação dos Municípios, proposto pela Constituição promulgada em 1988.


A imagem da Baixada Fluminense chega ao Século XXI carregando consigo o estigma de “lugar perigoso”, construído nos tempos do Mão Branca, período mais violento da ditadura civil-militar.  Chegamos a ¼ de século com ampliação do conceito de favela por todas as regiões fluminense, muito em função de questões ligadas à segurança pública, ou a falta dela. Nesse 30 de abril, com um número considerável de universidades públicas e uma renda Per capita muito maior que a maioria das demais regiões periféricas brasileiras, vale pensar na “Cidade Estilhaçada” do professor Ricardo Simões, no sentido se avaliar se nossa independência politica depende de heróis e mitos ou de mãos que constroem o futuro e a riqueza desse verdadeiro resumo do Brasil, qual é a nossa Baixada Fluminense.

sábado, 25 de janeiro de 2025

O CINEMA COMERCIAL E O TRUMPISMO 2.0: OLHARES DISTINTOS SOBRE A SOCIEDADE

  

Trump: tentou impedir o lançamento da própria cinebiografia

*Por Ivan Machado

Ao saber que o presidente recém-eleito Donald Trump, destinou cerca de 500 bilhões para o desenvolvimento de IA, sendo 100 Bilhões logo nesse primeiro ano de mandato, tive a curiosidade de buscar informações sobre o montante de recurso financeiros federais voltados à cultura. Sem surpresa alguma, zero é o número que define a previsão orçamentária para o setor. Considerando então a ideia de que revolução é um processo, a indústria do cinema faz algo que tem paralelo com o Carnaval do Rio, que nos últimos anos fincou pé na abordagem de nossas raízes ancestrais na elaboração dos enredos. A surpreendente entrega do Oscar 2024 para o filme coreano “Parasita” é sem dúvida uma quebra de paradigma. O Oscar de Melhor Filme no ano passado dá o tom do novo modelo de gestão da maior Academia de Cinema dos EUA, que possibilita, inclusive, que o filme “Ainda Estou Aqui” chegue a indicação de três estatuetas em 2025.  

Vale lembrar que gerações de brasileiros foram levadas a adotar a cultura estadunidense como modo de vida, a partir de filmes, séries e animações, ao longo dos últimos 60 anos. Agora, o “não” às expressões artísticas, temperado pelo negacionismo estratégico e modelo neoliberal de Trump, pode ser o empurrão que faltava para a indústria do cinema consolidar o papel de chacoalhador de mentes, a partir da diversidade de ideias e abordagens que a telona possibilita.


Segundo publicação do Instituto da Cultura Árabe no Brasil, data de 1985 o início de investimento estatal no cinema iraniano, que vem crescendo e ampliando sua visibilidade desde então. O que inicialmente surge como iniciativa de poucos e pequenos produtores audiovisuais, gradativamente cria adesão junto a sociedade, convencendo o próprio governo que o investimento em cinema poderia ser transformar em um valioso capital cultural a ser exportado, como cita o próprio site:


Com um investimento anual superior a U$ 1,5 bilhões, o Irã lança cerca de 100 longas de ficção e mais de 2 mil curtas-metragens, o que coloca o país entre os dez maiores produtores mundiais. As escolas de cinema estão presentes em 52 cidades, mas há deficiências a serem corrigidas: “Além de ter apenas 400 salas de projeção para uma população de 70 milhões de habitantes, há falta de equilíbrio entre a quantidade de filmes de arte e comerciais”, afirma Massoud Bakhshi, ex-diretor do Documentary na Experimental Fim Center, que organiza o Festival Cinema Verdade e encarrega-se da distribuição e promoção dos filmes experimentais e pequenos documentários


No Brasil, a ANCINE cumpre um papel de mediação junto a cadeia produtiva do cinema e a iniciativa privada, de modo que seja possível uma melhor fruição da produção cinematográfica brasileira, dentro e fora do território nacional. Segundo Daniel Rezende, produtor do filme Chico Bento, que também é um dos avaliadores do Oscar, a Academia estadunidense conta hoje com um grande número de avaliadores oriundos de diversos países, conferindo a diversidade necessária para que as surpresas que temos hoje sejam possíveis. No Brasil, no entanto, a surpresa de ter a pioneira Ruth de Souza indicada a Melhor Atriz no Festival de Veneza em 1954 e Fernanda Torres ao Oscar 2025, é a prova de que a consolidação do cinema nacional é um longo e teimoso processo, mesmo no Brasil de hoje.

Hollywood modelo Tramp

No que se refere a dar apoio à cultura enquanto política pública, Trump deixou claro que aquele velho cinema estadunidense, no melhor modelo “tiro, porrada e bomba”,  precisa voltar a ser dominante a nivel global. Dias antes de sua posse, em 16 de janeiro, ele publicou no   X (antigo Tweeter), sua decisão de indicar os atores Jon Voight, Mel Gibson e Sylvester Stallone, como Embaixadores de Hollywood. Voight, pai de Angelina Jolie, atuou em filmes super conhecidos no Brasil, como Inimigo do Estado, Missão Impossível e Transformers. Mel Gibson que, para surpresa de muitos, é inclusive misógino, fez fala preconceituosa em relação à candidata Democrata, como vemos na matéria do site O Antagonista, no dia 23/01:  


Gibson já insinuou algumas vezes que Kamala Harris tinha pouca inteligência: “Histórico miserável. Não há diretrizes para falar. Ela tem o QI de um poste de cerca.”, disse o ator e diretor sobre a candidata democrata. 


Já Stallone considera Trump o “segundo George Washington”, o que foi motivo de críticas por parte de seus seguidores nas redes sociais. 


O que vemos no cenário do cinema aqui e no restante do mundo, é o sentimento que leva esse segmento a um necessário enfrentamento ao totalitarismo, sem falar da vergonha à qual é submetido quem vai na direção contrária desse expressão artística que, por parte de pessoas acolhe a diversidade como marco civilizatório. 

Ainda Estou Aqui: reflexo da repressão pelo mundo

Nesse momento que precede  a mais uma entrega do Oscar, o perfil dos indicados já dá conta de que conflitos entre a indústria do cinema e o Trumpismo é inevitável. Se levarmos em conta ao menos duas indicações a Melhor Atriz para esse ano, será possível sentir a temperatura das próximas edições. A atriz Fernanda Torres retrata como a esposa do Engenheiro Rubens Paiva lutou pelo reconhecimento legal do assassinato de seu marido, por parte do regime militar. O filme Ainda Estou Aqui já disse ao que veio, deixando claro que a perseguição política abordada pelo filme de Walter Sales, reflete uma realidade que nunca esteve distante de nós. A coerção estatal, aliada ao uso de força militar, é algo que o restante do mundo conhece bem, fazendo com que o filme serva não apenas como marco histórico, mas também como um alerta contra o totalitarismo, que hoje brota  em todos os continentes. 


O filme Emilia Perez, estrelado por Karla Sofía Gascón tem, por sua vez, 13 indicações, incluindo Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante e Música Original. Segundo Emma Jones da BBC Brasil. “O filme mescla vários gêneros para contar a história de um senhor das drogas mexicano. Ele faz a transição para se tornar mulher e busca restaurar a justiça pelos "desaparecidos” do país — pessoas mortas e ausentes, vítimas da violência relacionada aos crimes e às drogas.” A protagonista não se ilude, entendendo que a possível premiação e o atual reconhecimento não refletem a realidade social, sobretudo no que se refere a uma pessoa trans. Em matéria publicada no site do UOL no dia 24 de janeiro, a atriz espanhola diz o seguinte: “Não sou uma atriz melhor agora, nem era pior antes. Não sou uma pessoa melhor, nem sou nada, sou a mesma pessoa, simplesmente, colocada em outro lugar”.

Filme Emilia Perez: sofre críticas pela abordagem
O lugar do cinema, pelo que vemos, continua em disputa, tanto por quem o faz quanto por quem o desafia, propondo uma relação utilitária entre poder, dinheiro e dominação ideológica. O cinema comercial é, sim, reflexo de nossa sociedade capitalista. Porém, vale lembrar que, se o cinema é um produto a ser consumido, a face de quem o consome também deve ser refletida nele, horizontalmente.


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*Ivan Machado é professor de História, Mestre em Educação, especialista em Arte-Educação e presidente do Centro de cultura Popular da Baixada Fluminense.


Veja mais em:

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2025/01/24/indicada-ao-oscar-atriz-de-emilia-perez-quer-se-manter-na-realidade.htm?cmpid=copiaecola


https://www.icarabe.org.br/artigos/projecao-internacional-apesar-da-censura?form=MG0AV3