terça-feira, 19 de julho de 2016

A ordem no caos de Bispo do Rosário

A ORDEM NO CAOS DE BISPO DO ROSÁRIO

Por Ivan Machado

“A obra de arte  está irremediavelmente atada à vida”
Frederico Moraes

Sergipano, nascido em 06 de janeiro de 1909, Manoel Bispo do Rosário viveu
durante cinquenta anos na colônia Juliano Moreira, para onde foi transferido em 1939. Com diagnóstico de esquizofrenia de paranoia, Bispo do Rosário passou sete anos trancado voluntariamente em sua cela, onde afirmava ter recebido uma mensagem divina na qual dizia que deveria se preparar para o fim do mundo. Nesse período, uma extraordinária quantidade de peças artísticas foram produzidas, despertando o interesse de um grande número de críticos de arte contemporânea, embevecidos por seu magnífico trabalho cheio de detalhes. Em 1980, durante uma matéria do fantástico abordando a questão das péssimas condições de vida nos manicômios, Bispo do Rosário foi descoberto, trazendo ao restante do mundo a grandiosidade de um artista em seu mundo de caos (veja a matéria no link).

A grande maioria de suas obras são seriadas, suscitando questionamentos quanto às motivações dessa prática. Se por um lado se atribui que o transtorno obsessivo compulsivo pode ter gerado ideias repetitivas, por outro lado, cabe lembrar que Bispo foi marinheiro, com uma rotina repetitiva, como de praxe da profissão. Também por esse motivo ultimo, é possível entender seu nível de conhecimento geral, tendo em vista as constantes viagens que fazia pela Marinha do Brasil, o que se reflete nos fardões por ele confeccionados, sem uso de matéria prima especificamente adquirida para esse fim, dando lugar a fios retirados dos uniformes dos internos, daí o constante tom de azul em muitas de suas obras, sobretudo as de tapeçaria.

Não somente os bordados, mas um grande número de esculturas e instalações foram produzidos por Bispo, que teve sua sela transformada em um verdadeiro espaço de exposição, haja visto que foram produzidas ali praticamente todas as suas obras. Nesse sentido, Bispo do Rosário era diferenciado, no sentido de impor seu lugar e expressar sua arte em meio às adversidades, o que lhe serviu como uma forma muito particular de emancipação.  Segundo Flávia Corpas, a arte possibilita repensar a relação entre sujeito e objeto, no sentido que a arte o fez re-significar seu lugar, dando-lhe novo sentido, de tal modo que Bispo tinha a chave de sua sela.

Falecido em 05 de julho de 1989, Artur Bispo do Rosário não teve sua obra ligada à loucura, mas como expressão da re-significação do objeto no espaço. Psiquiatras que lidam com a arte descreveram seu trabalho como a obra de um homem, acometido de diversidades como qualquer outros, seja ele desempregado, deficiente físico ou cego. O fato é que Bispo do Rosário encontrou na arte o caminho de sua libertação interior, de tal modo que o Museu bispo do Rosário é o único no mundo instalado em uma instituição para doentes mentais, aberta à admiração publica.


A Roda da Fortuna de Bispo
A forma como Bispo do Rosário se expressava era a mais pura forma de composição artística. Não é incomum que sejam feitas comparações com outros conceituados nomes da arte contemporânea, como o que ocorre com a obra acima. Ainda que existam similaridades com a obra modernista de 1913 de Marcel Duchamp, cabe lembrar que a obras de Bispo foram elaboradas com a utilização de materiais reaproveitados do interior do espaço de seu internato. A genialidade que emerge de seu subconsciente intriga e encanta acadêmicos que se deparam com seu fazer artístico, como vemos no relato de Alfred Braga:

É claro que a simples justaposição das fotografias da Roda da Fortuna, de Bispo do Rosário, e da Roda de Bicicleta, de Marcel Duchamp, não autoriza ninguém a teorizar sobre semelhanças, nem sobre coincidências significativas, ou arquétipos, ou inconsciente coletivo. Mas, talvez nas enormes distâncias entre esses dois artistas é que repouse uma esquisita proximidade que vai provocar, naqueles eruditos, o susto, e disparar o paralisante pudor acadêmico[2]

Roda de bicicleta de Marcel Duchamp

Ainda que imerso na loucura, nota-se claramente seu senso estético e sua noção de equilíbrio, de modo que os elementos constitutivos da obra expressam coerência e dão sentido à percepção dos olhares mais atentos. Na comparação das duas obras vemos duas intenções bem distintas. Enquanto Duchamp se propõe a transformar um objeto em carte, de forma estética e representativa, Vemos que Bispo faz com que a expressão de seu subconsciente se materialize artisticamente, cabendo aos olhares treinados enquadrá-los na categoria de artista contemporâneo.                                                            




[1] Referências:
- CORPAS, Flavia, “Artur Bispo do Rosário: A arte além da  loucura”, Nau Editora, Rio de Janeiro, 2013
- Fotos: João Liberto e Rodrigo Lopes in Catálogo da exposição “Artur Bispo do Rosário Século XX”
[2] BRAGA, Alfredo, extraído de: http://www.alfredo-braga.pro.br/ensaios/reinvencao.html



segunda-feira, 13 de julho de 2015

OS NOVOS DA FOLIA


Crianças acompanham a Folia Sete estrela do Rosário de Maria-Mesquita,RJ 

D. Preta e Mestre Juninho: 
gerações extremas de mestres de Folia
Os jovens são a garantia de futuro das Folias de Reis. No entanto hoje os critérios de adesão são diferentes de como eram há décadas, quando as crianças participavam durante determinado tempo em cumprimento de alguma promessa feita por seus pais ou até mesmo tradição familiar. Entre os palhaços das folias, a crença era que deveriam participar durante sete anos no mínimo, o que naturalmente mudou, sobretudo a partir da ausência dos mais antigos e as práticas aplicadas pelos novo mestres do reisado, como Mestre Juninho, da Jornada "A Brilhante Estrela Dalva". Ele que é também artesão fazedor de máscaras, morador da Baixada Fluminense, agora está à frente de sua bandeira, que parte do bairro da Penha-RJ

A figura do palhaço é a que exerce maior atração sobre os meninos. Sobretudo hoje quando não se leva tanto em consideração a crença de que, quem não veste o palhaço durante sete anos seguido, pode ser acometido de algo fatal, vemos que há uma maior permissividade por parte dos pais em relação à participação dos pequenos entre esses foliões. Sobretudo no que se refere à crença formação familiar, notamos que, entre os palhaços é comum ver jovens que demonstram sua fé através de religiões de matriz africana. Sobretudo esse aspecto da quebra da hegemonia religiosa cristã pode, inclusive, ser entendido como maior avanço. em se tratando das tradições familiares dos foliões que, historicamente, professaram a fé cristã.
Palhaço descansando: Menino com guia de Obaluaê 

Em relação às meninas, quando muito pequenas, em sua maioria integram um pequeno grupo de anjos, que é postada diante do cortejo, enquanto na bateria, meninas maiores iniciantes tocam os instrumentos mais leves como caixa, chocalho e cavaquinho, o que não impede que as mais resistentes toquem instrumentos mais pesados, como bumbo. Hoje é possível ver, sobretudo na região Metropolitana do Rio, algumas meninas na função de "produtoras" das folias, responsáveis por administrar páginas e contatos via Watssap. 


No que se refere aos adolescentes à distribuição é um pouco mais homogênea. No entanto, vemos que na Região da Baixada Fluminense as performances dos palhaços são calcadas em acrobacias e danças que em muito lembram o chamado “Passinho”, dança ligada à cultura funk. Quanto estética pessoal, a vaidade é algo muito comum. Integrando a bateria ou conduzindo a bandeira de cada Folia e até mesmo entre os rapazes, vemos uma grande preocupação da imagem pessoal nos cortejos. 
Vaidade à mostra: Brinco, sobrancelha feita e o famoso corte Talibã

Uma virtude fundamental nesse contexto é a existência de um bom número de jovens artesãos que confeccionam as mascaras e paramentos dos palhaços. Com um altíssimo potencial criativo, materiais diversos são utilizados na feitura das máscaras, haja visto que em sua grande maioria os meninos são oriundos de famílias de baixa renda, o que em nada limita a criatividade dos mesmo. Nesse caso, a limitação quanto ao acesso à matéria prima acentua o nível de qualidade, em relação aos recursos. como no exemplo de Luciano, que faz máscaras desde seus 14 anos.


domingo, 26 de abril de 2015

GRUPO TRIOLO




Qual é a cara da música urbana, festeira e efetivamente mestiça do Rio de Janeiro? Essa é a pergunta que está contida na formação do grupo TRIOLO.
Formado por Ivan Machado na voz, contrabaixo e violão, Pê Jota na flauta e no violão e Guilherme Rocha em sua dinâmica percussão, o grupo passeia com seu repertório por um leque de estilos musicais que estão pulsando no coração do povo, mas sempre com uma linguagem própria em suas composições.

O TRIOLO é uma novidade em sua formação, porém com músicos consolidados na noite do Rio de Janeiro. Surgido em 2015, esses músicos têm a possibilidade de escoar uma produção de composições próprias e em parcerias com outros grandes compositores. Inclusive, parceria é a tônica do trabalho do grupo TRIOLO, daí a constante participação de intérpretes, poetas e instrumentistas em todas as vezes que sobem ao palco, produzindo uma diversidade ainda maior no som que esses músicos produzem.

Contatos:
(21)99911-7995
(21)97609-5092

https://www.facebook.com/triolotrio

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Meu tipo de Samba
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Dandara de Hoje
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Laranjais de Mutambó
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Paraíso:
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Primavera em Flor:
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DISCURSO, DISTINÇÃO E EXERCÍCIO DE PODER: a mudança de linguagem de quem ascende social ou economicamente


Status: não só o lugar, mas também a postura e o discurso



 Hoje, diferente de décadas passadas, quando iniciei minha militância política no campo da cultura, tenho condições de entender o motivo pelo qual algumas pessoas de origem igual à minha ascender social e juntamente com ascensão adotam uma mentalidade conservadora. Tive acesso há alguns anos a uma fonte documental do início do Século XIX em Campos do Goytacazes, que relata a queixa de uma mulher junto a justiça, no qual essa acusa um escravo seu, de roubo. Olhando mais a fundo, percebi que essa mulher era uma ex-escrava, que recebeu terras e tantos outros bens como herança e entre esses bens, escravos.
O que historiadores desse campo de pesquisa defendem é que um ex-escravo que pretende ocupar seu lugar na casta social dos grandes proprietários e notórios produtores e donos de engenho, é que um conjunto de práticas e convicções deve ser acompanhado de seu respectivo discurso. 

Ou seja, a partir da mudança de status social, a quem vive tal condição de ascensão não só é possível mudar o discurso, como também entende ser necessário pensar como “senhor”. Postura essa tomada com tamanha convicção que sua fala se transforma em verdade pessoal. Aquela ex-escrava portanto, não era, a época, considerada má ou, como no uso do discurso marxista, “o oprimido virou opressor” mas, portadora e usufrutuária de direitos socialmente culturalmente. O fato é que agora, as motivações, ideias e necessidades eram outras. Os republicanos que faziam enfrentamento à monarquia não eram necessariamente abolicionistas. Em grande parte, apenas pleiteavam o alternância de poder, fato comum na América do Norte e Europa e tão em voga no Brasil de hoje.

O exemplo de Monteiro Lopes

Antes de efetivamente falar sobre aquele que foi o primeiro deputado assumidamente "preto" a ocupar (a duras penas, por conta das resistências à época) uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1909, quero, como analogia, comentar um fato paralelo, ocorrido exatamente 110 anos após, no plenário da Câmara dos Deputados em Brasilia. Cabe ressaltar que a figura a seguir tem, em relação à Montero Lopes, três fatores inescusáveis.  Um mandato parlamentar, a adequação de seu discurso à ética de seu meio e sua irrefutável negritude.

Na charge de Rocha, Monteiro Lopes é comparado a um papagaio preto
por seu apoio ao discurso de Rui Barbosa - dura crítica de O MALHO


O autodenominado Deputado Helio Bolsonaro fez, em seu primeiro discurso no parlamento, uma declaração emblemática, referindo-se ao presidente eleito: "Eu sei que ele é branco, sim, eu sou preto. Sou daltônico. Não exergo diferenças. A minha cor é o Brasil". Essa declaração reflete a importância do lugar a ser ocupado, em detrimento de fatores sociais, hierárquicos, étnicos ou econômico que o postulante traga em sua jornada pessoal. Quero assim utilizar figuras públicas negras com o objetivo ilustrar minha linha de raciocínio, haja vista haja vista que, buscando desconstruir  tanto o senso comum de que "o negro é mais preconceituoso que o branco", quanto mostrar que, na sociedade, a ocupação dos espaços de poder se em paralelo à adoção de um discurso inerente ao grupo. Essa é então uma postura que se alinha ao desejo de aceitação diante da sociedade, ou mesmo diante de uma conjuntora que emerge, cabendo ao postulante à essa ou aquela atribuição, adequar-se, caso queira ser visto como alguém digno do meio.


Storni retrata o resultado da corrida eleitora: Monteiro Lopes, o
4º mais votado à Câmara Federal

Voltado então ao início desse ponto, vemos através de muitas fontes que Manoel da Motta Monteiro Lopes, além deputado federal eleito em 1909, também foi intelectual, advogado, militante da liberdade plena dos negros e membro de irmandades abolicionistas. Juntamente com Lopes Trovão e Silva Jardim, jovens intelectuais brancos da então Capital da República, esses republicanos traziam à República o discurso pioneiro em favor do "povo". Devemos, no entanto, considerar que à época, os meros vinte e um anos de abolição não foram capazes de romper com um conjunto de figuras de linguagens que atreladas à negritude como algo pejorativo. Vemos que lhe é atribuido um discurso, por ocasião das comemorações do 13 de maio, no qual o então parlamentar faz uso de uma linguagem que, nos dias de hoje, estaria politicamente incorreta:


"Hontem eramos sim: um borrão preto manchava o auri-verde pendão! chegamos a ficar quasi assim: a ver amortalhadas as nossas liberdades políticas na eternidade das instituições monarchistas! Hoje estamos assim, graças à república: tudo dansa o maxixe da confraternização, à sombra da nova bandeira em que a branca aurora do presente destacando-se da sombra negra do passado, mostra a orientação democrática do futuro! Senhores! A minha voz é a corporificação d’essa democracia!" (O MALHO, 1909, edição 248) 
Texto que a revista atribuiu ao parlamentar à época




Há, de antemão, a necessidade de evitar anacronismos, no sentido que à época sua postura foi vista como correta diante dos demais negros de seu tempo, fossem eles  intelectuais ou não, de modo que os enfrentamentos decorrentes de sua visibilidade não eram a ele atribuídos. Ainda assim, sua aceitação diante da sociedade estava também diretamente ligada a uma postura e discursos condizentes com a cultura de seu momento histórico, postura essa ditada pela camada dominante da época, à qual ele também agora pertencia. Vejamos que esse "lider dos pretos", como chegou a ser identificado por jornais da época de sua eleição, atribuía o 13 de maio à atuação ostensiva das irmandades negras, do investimento financeiro e intelectual dos republicanos abolicionistas e da atuação resistente de negros escravizados. Na condição de liberto o negro buscava então legitimação de sua condição na sociedade, o que também passa necessariamente pela adoção de uma estética urbana e classista, vide a imagem e o discurso ilustrado a baixo: 



Arte do chargista Raul, retratando diálogo de dois negros,
abordando a postura da sociedade em relação a Monteiro Lopes

Mesmo vindo de Recife na virada do século com um currículo  bastante expressivo e tendo ocupando cargos públicos já em 1903, o que vemos à época é uma postura discriminatória por parte da camada abastada da sociedade, que exerceu pressão sobre o parlamento, de modo a barrar a assunção do mandato do deputado eleito. O termo "preto retinto", comumente utilizado pelos jornais e revistas à época, demonstra que o fator de discriminação estava voltado à acentuada negritude, tendo em vista que, segundo o próprio Monteiro Lopes, já existia caso de parlamentar "preto" que vivia privilégios de brancos, como no caso do deputado Eloi Castriciano de Souza, do Rio Grande do Norte, citado na charge de Léo, no Jornal O Malho de setembro de 2010.


O então parlamentar é acusado de fazer uso do mandato para fins de "recreio", ao
que Monteiro Lopes refuta, citando exemplo de outro "preto" não citado nas críticas

Em contrapartida vemos uma postura protecionista por parte dos políticos à época, no sentido de tirar de seus ombros qualquer vestígio de uma postura anti-republicana e anti-democrática, além de buscar evitar que a pessoa da Princesa Isabel tenha nessa questão algum lampejo de exaltação à sua pessoa. Logo, defender o mandato de Monteiro Lopes teria um caráter político e não social e democrático, ditante do parlamento e da intelectualidade republicana.
Rocha retrata Monteiro Lopes, argumentando com
Rui Barbosa quanto a legitimidade e defesa de seu mandato.
Ao fundo, Rio Branco, perseguidor contumaz de Monteiro Lopes

Ao assumir seu mandato, após equacionadas as questões políticas, o deputado assume não apenas sua cadeira, mas também uma postura que acaba por interferir em outros atores sociais, através de um discurso inegavelmente estético. Está dado então o fato de que, a partir de então, a figura do negro ultrapassa a barreira da capacidade intelectual, interferindo também na política mas, nos moldes do discurso e da imagem devida à intelectualidade hegemônica daquele momento.


Leonidas descreve a dubiedade: atitudes afirmativas, com
discurso estético tradicionalmente da elite
  
Poderia citar aqui uma série de outros exemplos históricos e contemporâneos, de modo a corroborar meu raciocínio quanto a quem fala o quê, a partir do lugar onde está. No entanto, não vejo o mesmo discurso na fala de alguns figuras próximas a mim ou demais brasileiros de afirmações idênticas aos que citei. Noto sim uma verdade social absorvida, seguida de um conjunto de justificativas, necessária à ocupação do justo lugar onde essas figuras estão. Ou seja, a falta de confrontação com a realidade que se vive, diz respeito a  acomodação ou não de cada, em relação à zona de conforto na qual está alocado. Isso, se considerarmos que muitos que superam barreiras culturais, étnicas ou econômicas, ascendendo socialmente, geralmente o fazem à duras penas, através de anos de estudo e esforço concentrado, o que para muitos é justificativa plausível para  adoção de um discurso ou postura condizente à esse lugar. É claro que tais conquistas são fruto dos avanços e possibilidades conquistados ao longo de década de luta e suor de muitos, que adquiriram consciência de sua importância para as gerações futuras.

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Leia pra ilustrar esse raciocínio: 


CORREIA & GRINDBERG. Chica da Silva e o contratador de diamantes: o outro lado do mito ,  Jorge Zahar, 2005;


Deputado Helio Bolsonaro: primeiro discurso no parlatório da Câmara dos Deputados em Brasilia. Vide Youtube;

MANOEL, Carolina Vianna Dantas. Manoel da Motta Monteiro Lopes, um deputado negro na I RepúblicaPrograma Nacional de Apoio à Pesquisa, Fundação Biblioteca Nacional - MinC, 2008;

Revista O Malho, ilustrações extraídas de edições dos anos 1909 à 1910 (acervo: Fundação Casa de Rui Barbosa) 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

De Recôncavo à Baixada - Economia, fé e política Fluminense na periferia da Metrópole


*Por Ivan Machado


A Baixada Fluminense é ainda nos dias de hoje uma Região que reflete as grandes mudanças ocorridas no Brasil contemporâneo. Desde a chegada dos primeiros ocupantes não nativos, denomina-se essa gigantesca área de Recôncavo da Guanabara ou do Rio de Janeiro subordinando-a geograficamente à Baia onde está a côrte e posteriormente a Capital, refletindo a hierarquia nacional que se dá em todos os sentidos. Assim, partindo do município-mãe, pólo gerador de todos os outros gradativamente emancipados - Nova Iguaçu – nem mesmo toda riqueza circulante por seus portos e caminhos não foram suficientes para avançar a partir do status de recôncavo até a virada do Século XX, quando o conceito de nação rural perde espaça para valores positivistas de progresso e evolução.

Já no Século XVII é possível perceber o potencial agrícola do Recôncavo, com dedicação prioritária para a produção de cana de açúcar e seus derivados. Nas fazendas que se multiplicaram na Região, vemos uma característica comum que é a proximidade com os rios, o que garantia uma série de vantagens, tais como navegação e abastecimento de água, fundamentais para o escoamento da produção e a sobrevida dos povoados. O que era anteriormente uma área dividida entre sesmarias com seus primeiros registros que datam do ano de 1558, é possível ver os limites que esboçam a Região, entrecortada por rios e canais que, no período das cheias e na subida das marés criam grandes alagadiços e onde proliferam doenças típicas de grandes áreas florestais. (MATOSO, Lamego, 1964, p.195 )

Não se exclui, é claro, a existência de uma lavoura de subsistência, dando conta de uma produção de curta escala de gêneros como arroz, feijão e milho, possibilitando a permanência de uma população local nessas terras, garantindo a monocultura como sendo, sem dúvidas, o grande gerador de riquezas. Para tanto, era necessário o uso de mão de obra em larga escala, o que era garantido pela chegada de um número significativo de negros escravizados, à Região, dinamizando o uso daquelas terras. Inclusive, Nielson Bezerra se utiliza do termo Recôncavo especificamente no que se refere a utilização da mão de obra escrava negra na Baixada Fluminense (BEZERRA, Nielson, 2011, p.17). Inclusive, no que se refere ao tema proposto pelo citado autor com sua obra Escravidão, Farinha e Comércio no Recôncavo do Rio de Janeiro, a farinha passou a ser o foco da exploração econômica já no Século XIX, por conta do declínio na produção de cana de açúcar.

Com o crescimento demográfico e o eventual distanciamento da Côrte em relação a essas terras que eram de fato, utilizada meramente como rota de passagem para a nobreza, a grande referência de poder na região era a igreja que adotava o critério de freguesias para delimitar suas áreas de atuação. Essas freguesias davam às matrizes nomes que aproximavam a igreja do povo – os “fregueses”- adotando nomes ligados aos rios próximos, tais como São João do (rio) Meriti, N. S. da Piedade do (rio) Pilar, entre outros. Gênesis Torres, em seu artigo Baixada Fluminense, o processo de ocupação pela fé, esclarece quanto essa relação próxima entre o Rei e a Igreja:

A presença das capelas e igrejas numa determinada região demonstrava a importância que aquele território representava perante o poder secular (do Rei) e o poder eclesiástico (do Papa), também chamado de universal.

Exatamente pela proximidade com o principal centro urbano do século XVII, surge então a primeira freguesia que é a de N. S. do Pilar (hoje, Duque de Caxias) e outras três em Caxias e Magé, com a de N. S. da Piedade de Iguaçu inaugurada pouco mais de cem anos depois em 1719. Assim, o sistema de Freguesias é um critério adotado durante todo o período imperial brasileiro. 

Já o termo Baixada Fluminense é controvertido entre pesquisadores nos diversos campos de atuação. Nesse caso, com a brevidade deste trabalho não será possível aprofundar-se no conceito. No entanto, cabem algumas observações como a que se refere Manoel Simões:

Não existe um consenso geral do que seja a Baixada Fluminense, quais os  seus limites e os municípios que a compõe. A cada trabalho sobre essa região reabre-se o debate, pois cada autor se coloca de maneira diferenciada com relação a área a ser delimitada. Contudo, existem alguns consensos que devem ser ressaltados. Os municípios de Nova Iguaçu e Duque de
Caxias são apontados, com unanimidade, como núcleos desta região, assim como não há questionamento sobre a inclusão de seus “satélites” imediatos, como Belford Roxo, São João de Meriti, Nilópolis, Mesquita, Queimados e Japeri, que são incluídos como parte da Baixada Fluminense por todos os autores, mas nem sempre analisados com a mesma profundidade
que o “núcleo duro”. Os problemas se encontram nos limites leste, oeste e norte. Dependendo dos autores, Magé e Guapimirim podem ser ou não inseridos na Baixada Fluminense, o mesmo ocorrendo com Itaguaí, Seropédica e Paracambi. (SIMÕES, Manoel, 2006, p.02)

Com a virada do Século XX o Brasil apresenta uma série de contradições que acompanham a busca por um equilíbrio republicano e uma identidade nacionalista. Nesse momento se estabelece uma crise econômica no Recôncavo do Rio de Janeiro, gerada tanto pelo impacto causado com o fim do regime escravista como pela mudança na vocação econômica do país que, mesmo sendo ainda fundamentalmente agrário, desvia para outras regiões do país as atenções e investimentos, inclusive apoiando-se no novo eixo de forças políticas que se direciona gradativamente para São Paulo e Minas Gerais. Já na década de 30 podemos perceber na sociedade o quanto são profundas essas mudanças, voltadas à polarização do poder político, como vemos em um trecho da letra da música Feitiço da Vila de Noel Rosa:

“São Paulo dá café

Minas dá leite

e a Vila Isabel dá samba!”

Vê-se aí um Brasil em que, culturalmente, o rural domina e o urbano governa. Nesse momento, ser parecido ao Norte Americano torna-se exemplo de vanguarda para os que buscam uma economia sólida, ao passo que ser europeu é sinônimo de classe e tradição para as oligarquias persistentes. Houve sim uma tentativa de manutenção de um Brasil de caráter agrário em suas Regiões periféricas, como assim almejou Nilo Peçanha, cuja atuação teve reconhecimento na Baixada com a denominação do Distrito de Engenheiro Neiva para Nilópolis, o que na prática não produziu a resultado almejado. No meio do caminho estão os novos proprietários de terra, que vêm na laranja uma nova vocação econômica para a Baixada Fluminense. O Jornal O Correio da Lavoura em sua edição de março de 1932 publica que o Secretário de Fomento Agrário do Estado informa ao Ministro da Agricultura que no período de janeiro a outubro daquele ano, Nova Iguaçu exportara nada menos que quarenta e oito mil caixas de laranja pêra, sendo Inglaterra e E.U.A os destinos prioritários. Já em 28 de março 1943, no auge da II Guerra Mundial, o mesmo periódico publica a seguinte manchete: “O parque citrícola brasileiro corre sério risco de perecer”, referindo-se aos impactos do conflito na nova monocultura da Região. Nem mesmo a compra de um navio frigorífico por parte do governo, de modo a aumentar a sobrevida das frutas no transporte, foi suficiente para enfrentar a decadência do chamado “ciclo da laranja”.

Em sentido oposto ao da laranja está o crescimento industrial na Baixada Fluminense no mesmo período, de tal modo que em 1902 é publicado no Diário Oficial da União a criação da olaria Ludolf & Ludolf estabelecida exatamente nas terras da Fazenda Cachoeira, propriedade de Jerônimo Mesquita. Ali se estabeleceu a Companhia Materiaes de construcção que, com a fabricação de manilhas, tijolos e seu carro chefe as telhas francesas, fazem dessa a maior olaria da América Latina, refletindo o crescimento urbano da Região que agora, passa a ter uma característica fundamentalmente urbana. As diversas olarias que proliferam às margens das grandes vias de acesso, como a Estrada Rio-São Paulo (hoje, Via Dutra) inaugurada pelo presidente paulista Washington Luis, mostram uma nítida mudança na vocação econômica e social da Baixada Fluminense. Diversos loteamentos, em decorrência do fim do último ciclo rural da Baixada, surgem criando uma nova fase que mudaria definitivamente a face da região que é o período das Emancipações que se inicia em 1943 com Duque de Caxias e termina com Mesquita em 1999.

A questão da violência urbana torna-se um discurso social dos nossos dias que não se vincula ao contexto histórico das grandes metrópoles, pelo fato de que a exploração econômica que se deu em absolutamente todo o território nacional não se mistura com a permanência das famílias dos grandes senhores de terra em seus locais de domínio, neste caso específico a Baixada Fluminense. Esse fenômeno cria nos habitantes locais de igual modo um sentimento de desapego e desprestígio, obscurecendo a rica história que lhe pertence. Com a elaboração cada vez maior de trabalhos acadêmicos é possível dar à Região o devido valor, fazendo-lhe justiça.

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Referências:
- LAMEGO, Alberto Ribeiro. O homem e a Guanabara. 2. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1964

- BEZERRA, Nielson Torres. Escravidão, Farinha e Comércio no Recôncavo do Rio de
Janeiro – Século XIX. Rio de Janeiro: APPH-CLIO, 2011

- TORRES, gênesis. Baixada Fluminense: A Construção de Uma História. 2. Ed. Ver.
Ampliada. Rio de Janeiro. INEPAC, 2008

- SIMÕES, Manoel. A cidade estilhaçada: reestruturação econômica e emancipações
municipais na Baixada Fluminense. (Acadêmico) em

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?
select_action=&co_obra=59980 (23 de abril de 2013)

- Jornal O Correio da Lavoura – Acervo (1917-1945)

- Música Feitiço da Vila – 1934. Noel Rosa

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* Ivan Machado
Graduando em História pela UNIABEU/Nilópolis e Coordenador do Departamento de Folclore da Secretaria Municipal de Cultura de S. J. de Meriti.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aulas de Violão para principiantes

Estou voltando a dar aulas de violão. Pelo fato de ter um método próprio, vou aos poucos colocando aqui minhas idéias e propostas de exercícios. De forma prática, vamos então entendendo como dominar o instrumento mais popular do Brasil, na minha opinião.

Exercício para mão esquerda


Mesmo para aqueles que são canhotos o dedilhado é um grande problema para muitos, pois os movimentos feitos ao vilão não são muito usuais no cotidiano. Logo, esses exercícios ajudarão muito nesse primeiro contato com o instrumento.

As fotos mostram que o exercício abaixo consiste em mostrar como devem estar postados os dedos, observando que os demais não devem se afastar do braço do violão, e que cada dedo deve estar postado ligeiramente acima do traste à frente da casa correspondente.
dedo 1
dedo 2
dedo 3
dedo 4
 Abaixo segue o vídeo correspondente ao exercício para que você entenda melhor.


Exercícios para a mão direita



Aqui temos o uso da mão direita, inicialmente dedilhando as cordas, como forma de criar a devida afinidade e independência de movimentos em relação as cordas.

As fotos abaixo são um panorama do formato da mão em relação ao encordoamento.
indicador , médio e anelar, sempre juntos

polegar em forma de "positivo"

dedo mínimo relaxado

os dedos que não tocam, não se afastam  muito das cordas
Abaixo segue vídeo descrevendo os exercícios correspondente.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Zuma deluxe - um pouco de lazer e História


Zuma - Jogo baseado na mitologia azteca
Link do jogo: 
http://www.zumaonline.biz/

Nesse período em que as profecias Maia estão em alta, vai aí um joguinho para diversão nessas  férias, baseado na civilização da América Antiga. A civilização da Meso América - em especial a que gerou o que conhecemos hoje como México - é rica em sua História. Nesse caso, cita-se o Império Azteca que teve o grande imperador Montezuma como líder maior, em um momento histórico que inaugura oficialmente a chegada dos espanhóis ao continente americano.