terça-feira, 19 de julho de 2016

A ORDEM NO CAOS DE BISPO DO ROSÁRIO

Por Ivan Machado
“A obra de arte  está irremediavelmente atada à vida”
Frederico Moraes

Sergipano, nascido em 06 de janeiro de 1909, Manoel Bispo do Rosário viveu
durante cinquenta anos na colônia Juliano Moreira, para onde foi transferido em 1939. Com diagnóstico de esquizofrenia de paranoia, Bispo do Rosário passou sete anos trancado voluntariamente em sua cela, onde afirmava ter recebido uma mensagem divina na qual dizia que deveria se preparar para o fim do mundo. Nesse período, uma extraordinária quantidade de peças artísticas foram produzidas, despertando o interesse de um grande número de críticos de arte contemporânea, embevecidos por seu magnífico trabalho cheio de detalhes. Em 1980, durante uma matéria do fantástico abordando a questão das péssimas condições de vida nos manicômios, Bispo do Rosário foi descoberto, trazendo ao restante do mundo a grandiosidade de um artista em seu mundo de caos.
A grande maioria de suas obras são seriadas, suscitando questionamentos quanto às motivações dessa prática. Se por um lado se atribui que o transtorno obsessivo compulsivo pode ter gerado ideias repetitivas, por outro lado, cabe lembrar que Bispo foi marinheiro, com uma rotina repetitiva, como de praxe da profissão. Também por esse motivo ultimo, é possível entender seu nível de conhecimento geral, tendo em vista as constantes viagens que fazia pela Marinha do Brasil, o que se reflete nos fardões por ele confeccionados, sem uso de matéria prima especificamente adquirida para esse fim, dando lugar a fios retirados dos uniformes dos internos, daí o constante tom de azul em muitas de suas obras, sobretudo as de tapeçaria.
Não somente os bordados, mas um grande número de esculturas e instalações foram produzidos por bispo, que teve sua sela transformada em um verdadeiro espaço de exposição, haja visto que foram produzidas ali praticamente todas as suas obras. Nesse sentido, Bispo do Rosário era diferenciado, no sentido de impor seu lugar e expressar sua arte em meio às adversidades, o que lhe serviu como uma forma muito particular de emancipação.  Segundo Flávia Corpas, a arte possibilita repensar a relação entre sujeito e objeto, no sentido que a arte o fez repensar seu lugar, dando-lhe novo significado. De tal modo que Bispo tinha a chave de sua sela.
Falecido em 05 de julho de 1989, Artur Bispo do Rosário não teve sua obra ligada à loucura, mas como expressão da ressignificação do objeto no espaço. Psiquiatras que lidam com a arte descreveram seu trabalho como a obra de um homem, acometido de diversidades como qualquer outros, seja ele desempregado, deficiente físico ou cego. O fato é que Bispo do Rosário encontrou na arte o caminho de sua libertação interior, de tal modo que o Museu bispo do Rosário é o único no mundo instalado em uma instituição para doentes mentais, aberta à admiração publica.


A Roda da Fortuna de Bispo
A forma como Bispo do Rosário se expressava era a mais pura forma de composição artística. Não é incomum que sejam feitas comparações com outros conceituados nomes da arte contemporânea, como o que ocorre com a obra acima. Ainda que existam similaridades com a obra modernista de 1913 de Marcel Duchamp, cabe lembrar que a obras de Bispo foram elaboradas com a utilização de materiais reaproveitados do interior do espaço de seu internato. A genialidade que emerge de seu subconsciente intriga e encanta acadêmicos que se deparam com seu fazer artístico, como vemos no relato de Alfred Braga:

É claro que a simples justaposição das fotografias da Roda da Fortuna, de Bispo do Rosário, e da Roda de Bicicleta, de Marcel Duchamp, não autoriza ninguém a teorizar sobre semelhanças, nem sobrecoincidências significativas, ou arquétipos, ou inconsciente coletivo. Mas, talvez nas enormes distâncias entre esses dois artistas é que repouse uma esquisita proximidade que vai provocar, naqueles eruditos, o susto, e disparar o paralisante pudor acadêmico[2]

Roda de bicicleta de Marcel Duchamp

Ainda que imerso na loucura, nota-se claramente seu senso estético e sua noção de equilíbrio, de modo que os elementos constitutivos da obra expressam coerência e dão sentido à percepção dos olhares mais atentos. Na comparação das duas obras vemos duas intenções bem distintas. Enquanto Duchamp se propõe a transformar um objeto em carte, de forma estética e representativa, Vemos que Bispo faz com que a expressão de seu subconsciente se materialize artisticamente, cabendo aos olhares treinados enquadrá-los na categoria de artista contemporâneo.                                                            


[1] Referências:
- CORPAS, Flavia, “Artur Bispo do Rosário: A arte além da  loucura”, Nau Editora, Rio de Janeiro, 2013
- Fotos: João Liberto e Rodrigo Lopes in Catálogo da exposição “Artur Bispo do Rosário Século XX”
[2] BRAGA, Alfredo, extraído de: http://www.alfredo-braga.pro.br/ensaios/reinvencao.html



segunda-feira, 13 de julho de 2015

OS NOVOS DA FOLIA


Crianças acompanham a Folia Sete estrela do Rosário de Maria-Mesquita,RJ 

Os jovens são a garantia de futuro das Folias de Reis. No entanto hoje os critérios de adesão são diferentes de como era há décadas, quando as crianças participavam durante determinado tempo em cumprimento de alguma promessa feita por seus pais ou até mesmo pela tradição entre os palhaços das folias, que deveriam participar durante sete anos no mínimo.  
Notadamente, a figura do palhaço exerce maior atração sobre os meninos. Sobretudo hoje quando não se leva tanto em consideração a lenda de que, quem não veste o palhaço durante sete anos seguido, fatalmente vai morrer, vemos uma maior permissividade por parte dos pais em relação à participação dos pequenos nesse grupo. Em relação às meninas, em sua maioria uma ala de anjos  é postada diante do cortejo, enquanto na bateria, alguns meninos iniciantes tocam os instrumentos mais leves como caixa, chocalho e cavaquinho.
No que se refere aos adolescentes à distribuição é um pouco mais homogênea. No entanto, vemos que na Região da Baixada Fluminense as performances dos palhaços são calcadas em acrobacias e danças que em muito lembram o chamado “Passinho”, dança ligada à cultura funk. Quanto às meninas, á vaidade é algo muito comum. Integrando a bateria ou conduzindo a bandeira de cada Folia, vemos uma grande preocupação da imagem pessoal nos cortejos. Uma virtude fundamental nesse contexto é a existência de um bom número de jovens artesãos que confeccionam as mascaras e paramentos dos palhaços. Com um altíssimo potencial criativo, materiais diversos são utilizados na feitura das máscaras, haja visto que em sua grande maioria os meninos são oriundos de famílias de baixa renda.


domingo, 26 de abril de 2015

GRUPO TRIOLO




Qual é a cara da música urbana, festeira e efetivamente mestiça do Rio de Janeiro? Essa é a pergunta que está contida na formação do grupo TRIOLO.
Formado por Ivan Machado na voz, contrabaixo e violão, Pê Jota na flauta e no violão e Guilherme Rocha em sua dinâmica percussão, o grupo passeia com seu repertório por um leque de estilos musicais que estão pulsando no coração do povo, mas sempre com uma linguagem própria em suas composições.

O TRIOLO é uma novidade em sua formação, porém com músicos consolidados na noite do Rio de Janeiro. Surgido em 2015, esses músicos têm a possibilidade de escoar uma produção de composições próprias e em parcerias com outros grandes compositores. Inclusive, parceria é a tônica do trabalho do grupo TRIOLO, daí a constante participação de intérpretes, poetas e instrumentistas em todas as vezes que sobem ao palco, produzindo uma diversidade ainda maior no som que esses músicos produzem.

Contatos:
(21)99911-7995
(21)97609-5092

https://www.facebook.com/triolotrio

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Meu tipo de Samba
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Dandara de Hoje
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Laranjais de Mutambó
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Paraíso:
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Sei Não:
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DISCURSO, DISTINÇÃO E ALTERNÂNCIA DE PODER
por Ivan Machado*

"Chica da Silva" - iconografia, contribuição de Carlos Juliano

 Hoje, diferente de quase vinte anos antes quando iniciei minha militância política, tenho condições de entender o motivo pelo qual algumas pessoas de origem igual a minha ascender socialmente e juntamente com isso adotar uma mentalidade conservadora. Tive acesso há uns três anos a uma fonte de pesquisa do início do Século XIX em Campos do Goytacazes, que relata a queixa de uma mulher junto a justiça, no qual essa acusa um escravo seu de roubo. Olhando mais a fundo, percebemos que essa mulher era uma ex-escrava, que recebeu terras e tantos outros bens como herança e entre esses bens, escravos.
O que os historiadores desse campo de pesquisa apresentam é que um ex-escravo que pretende ocupar seu lugar na casta social dos grandes proprietários e notórios produtores e donos de engenho e que um conjunto de atitudes e posturas deve ser acompanhado de seu respectivo discurso. Ou seja, a partir da ocupação efetiva desse espaço social, não só é possível como também necessário pensar como “senhor” e com tamanha convicção que tal fala se transforma em verdade pessoal. O ex-escrava portanto, não é mau ou, como no uso do discurso marxista, “o oprimido virou opressor”. O fato é que agora, as motivações, ideias e necessidades são outros. Os republicanos que faziam enfrentamento à monarquia não eram necessariamente abolicionistas. Muito pelo contrário, em grande parte, apenas pleiteavam o alternância de poder, tão em voga nos dias de hoje.
Ao contrário do discurso e atitudes que vemos em Marina Silva, que refletia constantes contradições na busca de afirmação política, não vejo o mesmo na fala de meus amados amigos ou demais brasileiros de afirmações idênticas. Noto sim uma verdade absorvida, tão necessária na ocupação do justo lugar que ocupam, claro que fruto dos avanços e possibilidades oferecidos nesta década.

Leia pra ilustrar esse raciocínio: “Chica da Silva e o contratador de diamantes: o outro lado do mito” - Correia e Grinberg,  Jorge Zahar, 2005
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* Ivan Machado
Vice-presidente do Conselho de Cultura de Mesquita, produtor musical e professor de História (UNIABEU/Nilópolis)

#dilma13