sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

CULTURA GOSPEL: tendência na sociedade ou estratégia de poder?


 Em dezembro de 2025 o Brasil assumiu oficialmente o Gospel como “manifestação cultural brasileira”, possibilitando-lhes acesso aos mesmos direitos que nossas festas tradicionais populares ou ritos e crenças ancestrais, negras ou indígenas. Quero então dedicar aqui um tempo para discorrer brevemente sobre a história do Gospel no Brasil, até a chegada do Worship, enquanto tendência estética contemporânea neopentecostal que, a princípio, nada mais é que mais uma forma de americanização do que conhecemos como louvor ou adoração, entre cristãos evangélicos. Essa é uma tendência neopentecostal que ganhou força no Brasil nos último 10 anos, tendo como público prioritário a juventude evangélica, tendência essa que se coloca como uma nova forma de “avivamento Espiritual”. Amparados por forças políticas e midiáticas internas e externas, esse movimento, que tem a música como carro chefe, não difere de outras estratégias que pairam pelo Brasil desde os anos 60, e que tem seu ponto culminante nos anos 70, motivada pela Guerra Fria e o financiamento estadunidense à ditadura no Brasil. A ideia desde sempre é envolver corações e mentes em um modelo estadunidense de conduta moral e olhar sobre a política, tendo a fé e seus simbolismos como meio para criar empatia junto a população. Partindo desse princípio, vale questionar também porque não seria o momento ideal para acentuar a relevância do Pagode Gospel, que se fortaleceu a partir dos anos 2000, além de outras tentativas pontuais de colocar congas e tambores no altar, como tentaram o Pastor Claudio Claro e o grupo Jabacor. Essa ideia seria uma possibilidade, não fosse a necessidade dos supostos missionários norte-americanos de exercer influência sobre a cultura nacional horizontalmente, de forma centralizada e sob domínio de quem deseja comandar um rico mercado, como pensam os detentores dos direitos autorais do chamado Worship. 


“Um Maracanã lotado”. Essa sempre foi uma das principais frases para definir a ordem de grandeza de algum acontecimento que envolva multidões. O show gospel que aconteceu no Maracanã no dia 31 de dezembro de 2025, reunindo cerca de 30 mil pessoas, foi apenas mais um desses eventos promovidos para marcar posição  diante da sociedade. No momento em que o movimento gospel é assumido pelo estado brasileiro como patrimônio cultural, o movimento gospel consegue um forte mecanismo de reconhecimento de sua relevância. Avanço esse que vem sendo desenvolvido como estratégia midiática iniciada desde os anos 90, se estabeleceu, tomando como ponta de lança a produção musical desse segmento religioso. Como previsão de público inicial na faixa das 50 mil pessoas, o MaraViraRio não foi o maior evento midiático evangélico, naquele que já foi o maior estádio do mundo, em um histórico de ocupação de espaço político por parte do público evangélicos, no Rio de Janeiro. Vale também acrescentar que esse evento foi promovido pelo pastor Josué Valandro, dirigente Igreja Batista Atitude desde 2003, tendo como membro a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, que integra aquela comunidade evangélica desde 2018.


Já apresentei aqui no blog, texto que descreve com mais profundidade a relação entre música sacra e canções de enlevo espiritual ou, como era comum descrever, "Louvor e adoração". No texto "O gospel que o que é de Cesar", eu falo sobre os primeiros pastores que exerciam a música como prática missionária, dando seus testemunhos de mudança de vida e conversão, sempre muito ligados à doutrina de suas respectivas igrejas. Um segundo momento, extremamente relevante nesse processo, é a radicalização teológica proposta pela Igreja Universal do Reino de Deus que, juntamente com a Igreja da Graça, investem pesado nas mídias televisivas e radiofônicas, culminando em seu principal objetivo, que é a influência no campo político, não apenas indicando candidatos ligados à igreja, como sempre ocorreu. Mas, com a criação de partidos políticos, majoritariamente alinhados ao pensamento de seus líderes evangélicos.


Algumas igrejas evangélicas têm se dedicado a uma disputa de hegemonia cultural no Brasil, sob a justificativa de que estamos vivento uma verdadeira “batalha espiritual”. Ocorre que essa visão de disputa entre forças espirituais politicamente inspiradas, sempre ocorrem a partir de motivações extra fronteiras. O Pastor estadunidense Billy Graham esteve no Maracanã em 1974, em cinco dias de sua  Cruzada Evangélica pela América Latina. Foram 615 mil pessoas assistindo presencialmente às pregações daquele que foi o evento divisor de águas para os evangélicos no Brasil. Grande parte da produção daquele evento foi financiada pela Associação  Evangélica ligada ao pastor Graham, enquanto os governos justificaram apoios financeiros por se tratar de “um evento de forte apelo diplomático”. Em plena ditadura militar, a realização  desse evento foi interessante para ambas as partes, pois o governo dos EUA se utilizava do chamado “Soft Power” para levar os interesses daquele país à América Latina. Conhecido como o “o Pastor da Casa Branca”, Billy Graham pregava o que os EUA entendiam ser fundamental para o Brasil.

Um dos dias do Pr. Graham no Maracanã


50 anos depois, o Brasil se vê mais uma vez em uma teia midiática de espiritualidade tipo exportação. Em uma nova onde de suposta espiritualidade, pastores dos Estados Unidos vêm investindo em caravanas evangelísticas no Brasil, como o Voice of the Apostles (voz dos apóstolos) de Randy Clark, que chega com o discurso de promover avivamento espiritual, cura e libertação. O Global Awakening de Clark é apenas um entre outros mecanismos de influência na forma como o Brasil vê e pratica sua espiritualidade, enquanto lucra com o estabelecimento desse novo modelo, através da música gospel. Ocorre que esse modelo de mídia cristã, assim como os demais trazidos para o Brasil, desde sempre, não dialoga com a diversidade cultural brasileira. No entanto, diferente do que ocorria entres as igrejas evangélicas no século XX, hoje não são mais os pastores, muito menos as denominações protestantes e seus hinários, que determinam o repertório eclesiástico e sim, as rádios evangélicas, plataformas de streaming e, sobretudo, as produtoras estadunidenses hoje, com Worship. Sendo o Brasil um país de influência e relevância grandes entre os demais países do Atlântico Sul, estabelecer, consolidar e expandir o mercado gospel por aqui, redunda em ampliar a influência estadunidense entre países vizinhos que defendem mais fortemente sua cultura.

A maneira feroz como alguns líderes religiosos rechaçam a diversidade cultural brasileira, nada mais é que a necessidade de garantir a hegemonia do discurso, diante da sociedade. Para tanto, interferir em uma estrutura midiática já polarizada, como no Sertanejo, torna-se fundamental à superestrutura que, atualmente, mistura mídia e poder. o Worship é parte de um conjunto de estratégias de evangelização composto de parcerias educacionais, marketing visual e o estabelecimento de uma indústria fonográfica que aponta para o mercado gospel dos EUA, dando formação e especialização técnica para a cadeia produtiva do Gospel brasileiro, por igrejas e estúdios consolidados no mercado. Nessa formação são incluídas estratégias voltadas as mídias sociais e pesados investimentos em publicidade, como é possível perceber, sempre que ligamos nossas TVs em horário nobre, o que foi possível perceber na programação de canais abertos nesse fim de ano. A iniciativa de Estado que reconhece o gospel como manifestação popular, reflete bem o esforço de líderes evangélicos em ocupar espaços de poder, cientes que tal atitude garante a criação de políticas públicas que contemples seus interessem em particular. O esforço inicial da doutrina missionária estadunidense já deu seus primeiros resultados, no sentido de horizontalizar o cancioneiro cristão evangélico que, por mais de um século, possibilitava corroborar a doutrina de cada denominação evangélica através de seus cânticos. 

Os hinários cristãos eram usuais até o fim dos anos 90

Aquele cancioneiro evangélico, tido como patrimônio antes da virada do século XXI, agora dá lugar a uma melodia simples e de fácil assimilação, de linguagem genérica e de pouco aprofundamento na doutrina cristã do Novo Testamento. A música cristã do início dos anos 2000 ainda conserva os princípios básicos do pentecostalismo, como o discurso focado na chamada “batalha espiritual”. Porém, como o objetivo que se apresenta naquele momento é estabelecer uma igreja jovem e dinâmica, a figura do Diabo é gradativamente afastada na canção, apontada diretamente na sociedade, tendo as esquerdas como exemplo de impedimento ao cumprimento da vontade de Deus, no Brasil. É a proposta de uma visão globalizada da vontade de Deus, afastando definitivamente qualquer possibilidade de identificação comunitária da fé, o que não nos permite mais diferenciar um cântico metodista de um hino pentecostal ou “Corinho” batista. Refletir a mensagem bíblica não é hoje mais importante quanto a redundância de um refrão “chiclete”. É inclusive difícil classificar esse cancioneiro gospel como cristão ou evangélico, pois Cristo não está no centro do discurso, nem mesmo o evangelho, com seu texto neotestamentário, serve mais de referência poética ou doutrinária, me trazendo a menta a seguinte pergunta: a qual cultura o gospel no Brasil, se refere?

Um comentário:

  1. Parabéns pela reflexão necessária sobre fé e religião, mas também sobre Cultura Gospel. Os dois temas se entrelaçam e sua urgência é atual, mas sua transformação é conta gotas, paulatina e afetada pela hegemonia que um dia foi da Igreja (estado) Católica!
    Precisamos conversar mais sobre tema! Abs!

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