domingo, 19 de julho de 2020

TÊNIS CLUBE DE MESQUITA, O REFLEXO DE UMA SOCIEDADE MESQUITENSE

Periódico do TCM, com panorâmica do clube 1958

Mesquita tem história, como qualquer outro município na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Inclusive, a partir do final dos anos 70 surge uma disputa ideológica, no sentido de dar identidade à região periférica à Capital. Ainda na primeira metade do século XX geógrafos abandonaram o termo Baixada da Guanabara, passando a adotar o termo Baixada Fluminense, o que contribuiu minimamente para centrar foco em uma região que não era de fato a metrópole mas também não poderia geograficamente ser identificada como Interior, no contexto territorial do estado.

D. Dininha (Edna) Provençano, membro do TCM

Uma das características muito particulares da sociedade que habita a Baixada Fluminense que se percebe logo na virada do século XX, é a busca pela reprodução de um modo de vida metropolitano, ideário que era possível importar facilmente, considerando a distância de menos de uma hora entre Mesquita e o Centro da cidade do Rio de Janeiro, primeiramente através dos trens da Central do Brasil e, posteriormente, por intermédio da BR 116, conhecida popularmente como Via Dutra, trecho da rodovia federal inaugurado em 1951.

Área anterior a construção do TCM

Faço aqui uso do termo “sociedade”, considerando o seu sentido ainda corriqueiro de analogia com uma camada social avessa à cultura de massa, que forja um discurso que se consolida mais amplamente nos Brasil, a partir dos anos 60, mas que tem já seus reflexos em nossa Região já há pelo menos duas décadas antes.  Como exemplo temos no município de Mesquita o Tênis Clube de Mesquita-TCM, inaugurado em 1946 por iniciativa de industriais, comerciantes e profissionais liberais locais. Segundo relato de D. Dininha Provençano, uma das primeiras atletas de vôlei de nosso estado e moradora de Mesquita, o TCM surge como alternativa ao Esporte Clube Iguaçu, fundado em 1912, mas que tinha em seus quadros atletas negros, disputando o antigo Campeonato Estadual Fluminense já em 1944.

Ao olharmos para o passado do Esporte Clube Iguaçu veremos que consta como um dos primeiros dez sócios o nome de Silvano Azevedo, jornalista negro, fundador do jornal Correio da Lavoura, com sede no mesmo município. De igual modo o Mesquita Futebol Clube, inaugurado em 09 de maio de 1920, trazia em seus quadros um número expressivo de trabalhadores negros, tendo as competições esportivas como a marca do vínculo entre classe. No entanto, o surgimento do TCM passa a representar um traço claro de distinção social, haja vista que figuras de notada influência na sociedade local constam como membros da diretoria desse clube de membresia tão seleta. O clube era em sua concepção algo tão seleto, que sua diretoria era composta quase que exclusivamente por homens, segundo a publicação de janeiro de 1958.

Cabeçalho do periódico do TCM

Um fator motivador tanto da construção do TCM quanto para a seleção De seus sócios foi a construção da piscina. Segundo relatos de antigos integrantes, João Pilotto, diretor do clube e engenheiro da chamada “Fábrica Gigante”, como era conhecida a Cia. Materiais de Construção Ludof & Ludof, foi o idealizador desse desejado atrativo social, firmando também importantes parcerias, inclusive intermediando a aquisição de equipamentos junto ao Fluminense FC, que doou uma bomba para filtragem da água utilizada, que tinha como fonte a cachoeira que passava bem ali. Cachoeira essa que, devido a sua importância, identificava a rua que ladeava o clube.

Diretoria do TCM em 1958: nenhuma mulher no topo

quinta-feira, 16 de julho de 2020

FUNDO MUNICIPAL DE CULTURA, O “CUMPRA-SE” DA CIDADANIA CULTURAL


Não podemos acreditar que foi necessária uma pandemia para que pudéssemos retomar ponderações quanto a gestão local de políticas culturais, que remontam o uma época onde encontros como o Café Filosófico e o Cidade e Cultura, mobilizavam a classe artística, buscando atender demandas pulsantes no município de Mesquita. Retomar então o debate a partir do Movimento PróCultura Mesquita, criado em 2009 com o objetivo de manter aberto um espaço não governamental de debates, é buscar o retorno do diálogo entre sociedade civil e governo. No que se refere ao estabelecimento de marcos legais como o Sistema Municipal de Cultura e uma Lei de Fomento e Incentivo, o objetivo aqui é compreende a emergente e fundamental importância do estabelecimento do Fundo Municipal de Cultura. Para que tenhamos clareza de quão relevante é a questão, esboçamos aqui o contexto no qual a Lei Aldir Blanc deveria tranquilamente se enquadrar, nesse momento de emergência financeira dessa tão importante categoria de trabalhadores.

A Constituição Brasileira, que vigora desde 1988, é considerada por instituições e governos internacionais como uma das mais avançadas do mundo, no que se refere ao acesso a direitos por parte dos cidadãos, o que lhe atribuiu o título de “Constituição Cidadã”, dentro e fora do Brasil. Um dos aspectos que lhe trouxe esse rótulo foi a adoção dos mecanismos de controle social como modelo de gestão participativa, além da garantia de acesso e interferência no leque de prioridades dos governos, nas três esferas de poder. Outro fator relevante inserido em nossa Carta Magna é o princípio da descentralização dos recursos, cabendo ao governo federal a formulação das macro políticas, direcionando proporcionalmente recursos financeiros para estados e municípios. Tais recursos, porém, são geridos localmente através dos fundos setoriais, mecanismos que têm como premissa atender com agilidade e foco a demandas e prioridades da sociedade civil.

Em que contexto está o Fundo de Cultura?

Tomemos ainda como exemplo o que ocorre na esfera federal, onde o Fundo é parte integrante do que costumamos chamar de CPF da Cultura (Conselho, Plano e Fundo), no contexto do Sistema Nacional de Cultura-SNC. Em 2012 o SNC foi inserido na Constituição Brasileira através de Emenda Constitucional, no Art. 216-A. cabe observar que as discussões nessa direção já ocorriam em 2005, quando se deu a 1ª Conferência Nacional de Cultura, em Brasília. A proposta então é que esse mecanismo garanta respectivamente transparência e acompanhamento das políticas setoriais de cultura através do Conselho Nacional de Cultura-CNC, Definição das linhas de ações e metas através do Plano Nacional de Cultura-PNC e acesso a recursos voltados prioritariamente ao protagonismo de agentes culturais na sociedade civil, através do Fundo Nacional de Cultura-FNC. De igual modo, em 2015 foi sancionada no Estado do Rio de Janeiro a Lei 7035/15 que estabelece o Sistema estadual de Cultura-SEC. Nos mesmos moldes que a política nacional, ficou então garantido que nosso estado fluminense também definiria de forma clara e participativa um conjunto de propostas que possibilitem o protagonismo regional tanto da gestão pública municipal quanto de agentes culturais, artistas e produtores. Nesse sentido foi lançado em junho deste ano o primeiro edital regionalizado do Fundo Estadual de Cultura, atendendo a 1800 artistas nos 92 municípios do estado, tendo mais de 6.000 proponentes acessando o Edital “Cultura Presente nas Redes”. Na esfera municipal podemos tomar como referência os fundos municipais de Caxias criando em 2005 e Nova Iguaçu, esse último criado em janeiro de 2007, ambos com regulamentação e editais já lançados e executados. É possível então compreender que tais mecanismos são amplamente viáveis e eficientes. O que ocorre é que o Orçamento Municipal é apenas uma das possíveis fontes de recursos, financeiros. Devemos assim considerar que o aporte de recursos do fundo pode surgir do percentual sobre o uso de uso dos espaços públicos, doações de entidades diversas, saldo de projetos culturais, saldos de orçamentos vencidos e, principalmente, dos repasses fundo a fundo, oriundos dos Fundos Nacional e Estadual de Cultura. Vale aqui acrescentar que o Conselho Municipal de Cultura de D. Caxias foi criado em 1974, através da Lei nº 1.948/74 e que Nova Iguaçu, ainda que muito mais recente em relação a seu CPF, já lançou dois editais públicos em 2007 e 2010.

 Ainda que a gestão do Fundo Municipal de Cultura-FMC deva por lei ser vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, há uma série de dispositivos que garantem sua transparência tanto na gestão de seus recursos quanto na divulgação, acompanhamento e execução de seus editais públicos. O acompanhamento das ações do FMC é feito por um Comitê Gestor eleito dentro do Conselho de Cultura, com publicação de seus nomes em Diário Oficial com nomeação não remunerada de suas funções. As transferências de recursos do FMC devem priorizar ações como acesso a bens culturais, formação de agentes culturais, preservação de patrimônio material ou imaterial, fomento a pesquisa e inovação, premiar ações relevantes à cultura local, promover acesso à bens culturais, entre outros.

A principal virtude do FMC é então a de garantir recursos financeiros para que agentes culturais, mestres e produtores possam preservar o patrimônio cultural local e fomentar ações na base da sociedade, no que diga respeito a sua produção cultural. Tais ações, seja elas de vanguarda ou tradicionais, sempre carecem de constante atualização do cadastro municipal de agentes culturais. Ou seja, para a eficiente ação do CPF da cultura, é necessário um claro e prévio diagnóstico do cenário cultural do município, de modo que as políticas previstas no PNC, analisadas pelo Conselho de Cultura, atendam de forma fidedigna tanto às demandas da classe artística quando a necessidade de preservação de nosso patrimônio histórico. Podemos somar a isso a constante necessidade de formação, capacitação e reciclagem de agentes culturais e gestores, nos municípios, demanda constante que tem com fonte de recursos fundamentais o FMC.

FMC como legado para Mesquita

Uma das principais queixas que surgiram após as Olimpíadas de 2016 tem haver com o chamado “Legado Olímpico”, no sentido que os investimentos em estádios e demais arenas de jogos deveriam servir às gerações futuras, o que de fato não ocorreu. Citei de início que em nossa Região apenas Duque de Caixas e Nova Iguaçu destinaram recursos financeiros e executaram editais de seus respectivos Fundos de Cultura. Observemos então a atual conjuntura, na qual a pandemia do Novo Coronavirus impõe restrições aos espaços de produção cultural, horizontalizando a crise financeira em toda cadeia produtiva da cultura no Brasil. A partir desse olhar entendemos que é fundamental deixar um legado para as gerações futuras e não apenas atender a uma demanda emergente da classe artística, no sentido que políticas estruturantes permitam que eventuais ações emergenciais não lancem na arena um grande número de artistas de renda reduzida, no total ostracismo. No que se refere também a seus recursos financeiros, bem como as instituições as quais esses artistas representam, essa pandemia nos leva a refletir sobre a importância de um Fundo Municipal de Cultura instituído, de modo a garantir aos agentes culturais mesquitenses o mínimo de dignidade nesse momento. E no que tange as perspectivas futuras, que editais claros e democráticos possibilitem à nossa gente o devido acesso a recursos para fruição de seus projetos. O que se dará sempre quando o poder público veja e seja visto como parceiro, considerando que o pensamento da classe artística estará bem representado em um Conselho Municipal de Cultura que entenda a ideia de que governos passam mas, que políticas estruturantes permanecem.

 

FÓRUM PRÓCULTURA MESQUITA DE POLÍTICAS CULTURAIS

 

 

 


domingo, 28 de junho de 2020

MEMÓRIA E ANÁLISE DA LEI ALDIR BLANC

Lei Aldir Blanc: aguardando sanção presidencial

A crise mundial causada pela pandemia do novo Coronavirus tem produzido mudanças significativas em todas as camadas da sociedade, inclusive no Brasil.  O alcance amplo dessa verdadeira peste global atinge diretamente a menina dos olhos dos governos e dos que detém poder sobre os meios de produção, que é a economia, causando a nivel local efeito terrível nas camadas menos favorecidas da sociedade.

A Lei Aldir Blanc tem se notabilizado como um verdadeiro ponto de convergência entre o legislativo e a sociedade civil e entre correntes distintas de pensamento. Para além disso, há hoje uma mobilização nacional seja ela organizada ou não, no sentido de horizontalizar o olhar sobre a cadeira produtiva da cultura, imobilizada pelos efeitos da Covid-19. O PL1075/20 é a convergência de um conjunto de propostas voltados ao ampara emergencial de artistas, técnicos, produtores, mestres, artesãos, entre tantos outros fazedores da cultura nacional, que hoje aguarda apenas a sanção presidencial, que deve ocorrer até o próximo dia 30/060.

Segue aqui no link a cartilha produzida pela Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, que traça o histórico da Lei Aldir Blanc, comissão essa presidida pela Deputada Federal Benedita da Silva, que esclarece ponto a ponto esse fundamental mecanismo de apoio à cadeia produtiva da cultura.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

O NOVO NORMAL OU A NORMALIDADE QUE SE QUER?

a imagem do "novo normal" foto: gazeta do povo
Máscara, imagem do "novo normal" foto: Gazeta do Povo

Sabe aquela antiga prática de ensinar a criançada a lavar as mãos antes de comer? Pois bem. Muitas outras práticas sociais ganharam status de folclore nas famílias, tais como por para lavar as rupas usadas em velório, deixar os sapatos do lado de fora de casa ou por a mão na frente do rosto ao tossir, por exemplo. Essas e outras atitudes diárias foram incorporadas a partir de um imaginário coletivo, sobretudo na base da sociedade. Eram práticas tidas consensualmente como “educadas”, possibilitando a boa aceitação dos indivíduos na maioria dos espaços sociais. No entanto, a partir da pandemia da Covid-19, a ideia do que chamamos de “novo normal” trás em seu contexto elementos que transcendem as necessidades dos diversos grupos sociais. Ou seja, o que se entende como normalidade na sociedade de consumo, passa necessariamente pelo ponto de vista tanto de quem oferece produtos e serviços quanto de que procura atender a demandas específicas.

Em junho de 2019 escrevi um texto aqui no meu blog, cujo título era “SÓ PRA ENCHER O SACO? Abrindo debate sobre ofim do uso de sacolas plásticas”. Naquele momento o assunto em voga era a relevância do tema e a consequente adesão ou não da população, considerando que uma sacola plástica tem seu lugar no imaginário de uma comunidade, diferente do que ocorre em famílias que vivem em condições menos desiguais. No que se refere ao uso de máscaras descartáveis ou não, cuidados com a higiene pessoal em vias públicas e, sobretudo, o fator aglomeração, vale uma boa discussão voltada ao estudo das mentalidades, o que não será possível fazer aqui. Minimamente, cabe colocar que os longos estudos feitos por Lucien Febvre voltados aos aspectos psicológicos das práticas sócias nos mostram que não é possível compreender as mentalidades sem um aprofundamento na história, na linguagem e na cultura dos grupos sociais. Se nos lembrarmos que vivemos em uma verdadeira cebola social, com suas intrincadas camadas, será possível compreender que cada uma dessas camadas trás um conjunto de símbolos, dogmas e linguagens, através dos quais cada indivíduo “lê” e interpreta o que vem como determinação das camadas “superiores”.

conflito de normalidade
Mentalidade: necessidade e realidade. foto: portal 25Horas

Menos de dois meses após o início das medidas de isolamento social, vemos que a população já começa a afrouxar as medidas de proteção individual por sua própria conta e risco, mesmo com a massificada difusão de informações através das mídias eletrônicas e digitais, votadas a reafirmar a importância de cuidados com o próximo, o que é a grande virtude do uso de máscaras. Um amigo certo dia, com a finalidade de comparar a forma como o brasileiro encara o distanciamento social, me enviou uma piada que se referia a medidas de distanciamento social na Islândia, onde o governo recomentou o afastamento de dois metros de distancia entre as pessoas. “Dois metros de distancia? Quem é o governo pra me fazer ficar assim, tão perto das pessoas?” Nosso histórico de proximidade, bem como nosso tradicional “calor humano”, são um forte indicador que ilustra o nosso “não” ao isolamento, o que se percebe em indivíduos de formação e origem social, distintos. Quando vemos a diversidade de modelos e cores de máscaras usadas nas ruas, sobretudo nas grandes cidades, dão o tom de nosso tradicional apego a modismos bem como a criatividade empreendedora de nossa gente. Por outro lado, a forma incorreta de uso das mesmas como vemos em toda parte, dão conta de que as pessoas entenderam o conceito e a necessidade, mas não se adaptaram a forma e a necessidade de cuidado contínuo.

nova ordem financeira
Banco digital: normalidade conveniente. foto de divulgação 

Esse novo normal sobre os quais nos referimos aqui está também ligado ao estabelecimento de novas necessidades, por parte dos tradicionais detentores de meios e recursos econômicos. Se lembrarmos da pressão exercida pelo sistema bancário sobre sua categoria profissional afim, veremos que essa pandemia está oferecendo o ambiente propício para que os bancos digitais deem um salto no que se refere a sua relevância na sociedade hoje. As FinTechs, instituições financeiras que pensam, entre outros fatores, na desburocratização do sistema bancário, vem desenvolvendo tecnologias desde os anos 60 e a invenção dos caixas eletrônicos é uma delas. No entanto, alguns bancos físicos vem gradativamente informatizando a cada dia mais seus serviços, considerando que a o mundo virtual possibilita, entre outras coisas, o aumento dos lucros. Nesse caso, bancos tradicionais informatizados tem buscado migrar para o modelo pleno de atendimento virtual, como é o caso do Bradesco, que criou sua vertente digital que é a Next, que caiu como uma luva nesse período de quarentena e medo de aglomerações, por parte de uma grande parcela da população. Outro grupo econômico que está surfando na onda da pandemia do Corona vírus é o que investe no ensino  distancia como modelo de ensino. De igual modo, Educação a Distancia, conhecida como EAD, é uma boa solução para quem precisa do “canudo” mas não tem tempo disponível suficiente para se dedicar a pesada vida acadêmica. Logicamente os custos são mais baixos para os donos desses empreendimentos, o que eu não significa qualidade de ensino compatível com os valores cobrados. Resultado, número elevado de queixas ao PROCON, relacionadas a qualidade do serviços prestados nesse período.

O fato é que esse novo normal não se encaixa perfeitamente na realidade que vemos hoje, considerando que normalidade é algo cultural e que leva tempo para que seja estabelecido, daí a necessidade de imposição de regras. No entanto essas regras podem ser facilmente burladas, considerando que demandas sociais anteriores não atendidas, como pressuposto para o estabelecimento de regras mais duras. A camada mais pobre da população para uma taxa de energia elétrica no mesmo valor que as outras camadas sociais. O acesso a internet por sua vez, é precário e caro para os mais pobres, considerando que fora das grandes metrópoles a oferta de alternativas é menos. Ou seja, com menos concorrência, os monopólios regionais definem a seu modo os valores, bem como critérios para prestação de serviços de manutenção, inclusive. Soma-se a isso a qualidade das TVs abertas em comparação com a diversidade dos canais fechados. Soma-se a isso o grande número de famílias numerosas habitando residências de poucos cômodos e estrutura precária. Nesse caso, como evitar que uma criança ou adolescente veja a rua como lugar de lazer durante essa pandemia? Ainda que o preço médio de uma máscara seja de R$5,00, cabe sempre lembrar que esse número se multiplica proporcionalmente com o número de membros de uma família e, nesse caso, a compra dos legumes no sacolão vai garantir aumento na imunidade, segundo o novo folclore inserido nesse pacote do imaginário coletivo contemporâneo.   

 


segunda-feira, 25 de maio de 2020

ARTISTAS DA BAIXADA FLUMINENSE QUEREM A APROVAÇÃO DA PL 1075/2020


Ao contrário do que pensam os liberais de profissão, bem como os neófilos dessa linha de pensamento político,  esse momento de emergências, provocadas a partir da pandemia da Covid-19, vem trazendo sérias dificultardes a grande maioria da população, a qual incluo a classe artística.  Considerada a fala reiterada de que “o artista foi o primeiro a parar e será o últimos a retornas a suas atividades”, cabe reafirmar a importância do Estado na definição de estratégias de proteção social da população. Se faz necessário então promover ações que possam efetivamente minorar os impactos sobre nossa economia, daí a necessidade de apoio maciço tanto da população quanto da sociedade política, a PL 1075/2020. 

Nesse sentido, técnicos, artistas, produtores, mestre e demais integrantes da cadeia produtiva da cultura, oriundos ou atuantes na região da Baixada Fluminense, se posicionam favoráveis a votação do PL 1075/2020, conforme no vídeo a seguir e em concordância com as justificativas de Cleise Campos, conforme o texto que se segue. 


PORQUE VOTAR SIM NO PL 1075/2020 DE EMERGÊNCIA CULTURAL?

                                                                                                                                                                                             *Cleise Campos

 A cultura sempre foi importante, e agora, mais ainda. São as variadas atividades artísticas que tem nos acompanhado ao longo dos dias de isolamento social: Música. Filmes. Teatro. Oficinas de arte. Livro e leituras. Passeios virtuais pelos Museus e Centros Culturais. Arte e Cultura ao alcance das nossas mãos através do celular, do tablet, do computador, na tela de TV ou nas ondas do rádio. Mais do que em qualquer outro momento, temos uma potente produção cultural a nosso favor, neste momento da pandemia.

Por isso mesmo, faz todo sentido socorrer a categoria Cultural que também tem sido atingida pela crise provocada pelo coronavírus: Todo apoio ao PL 1075/20, com votação no Congresso Nacional dia 26/05, uma iniciativa de dezenas de Deputados Federais (autoria Benedita da Silva, relatoria Jandira Feghali, e vários co-autores), trabalhando juntos na composição do projeto de lei em favor dos agentes culturais, do produtor cultural.

É urgente dar atenção aos muitos artistas que estão impedidos de atuar no circo,na rua,no banquinho com voz e violão daquele bar,nas casas de recitais,nas tantas oficinas de arte,nos ateliês,nos palcos do teatro ou nas casas de shows, nos salões de artes plásticas,ou ali nas feiras de artesanato.  


A Bancada Fluminense conta com 46 Deputada/os Federais. Vamos conversar com nossos parlamentares: É preciso abraçar a Cultura votando SIM pela Emergência Cultural, retribuindo para o artista brasileiro, os artistas e trabalhadores culturais  das 92 cidades carioca-fluminense, os aplausos e reconhecimento pelo que produzem sempre, pela grande contribuição na economia e desenvolvimento do nosso mapa RJ que a Cultura promove, sempre.

Importante: temos quase 3 Bilhões no Fundo Nacional de Cultura, garantindo os recursos para cumprimento da LEI, atendendo artistas, equipamentos culturais, e também as Prefeituras, com repasse de Fundo a Fundo. A Cultura não pode parar, a Cultura importa. 

Confira os nomes de Deputadas/os do nosso estado que trabalham em Brasília e placar de votos na página facebook: ForumCulturaRJ

 

*Cleise Campos é gonçalense, atriz bonequeira, Prof. Historia e Filosofia

Gerente Feirartes na Secretaria Municipal de Cultura do RJ, conselheira de Cultura (município carioca e conselho estadual), articuladora no Fórum de Cultura do Estado do RJ

sexta-feira, 8 de maio de 2020

FUNDO ESTADUAL DE CULTURA RJ - resultado preliminar do edital




Após prorrogação do prado inicial, a Secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa divulga hoje (08 /04) o edital Cultura Presente nas Redes, o primeiro voltado aos artistas, mestres, produtores e demais agentes culturais das dez regiões fluminense, obedecendo critérios de regionalidade e densidade populacional. Segundo a gestora da pasta, a secretária Danielle Barros, cerca de oito mil inscrições foram feitas, demonstrando não somente sucesso quanto a abrangência desse edital, que foi o principal pleito do Conselho Estadual de Política Cultural desde sua eleição em 2016, mas também um avanço, desde que se estabeleceu a Lei 7035/15, que regulamenta o Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Segue o link do resultado e do respectivo Edital.

Mais informações pelo site da secretaria em:
http://cultura.rj.gov.br/

quarta-feira, 22 de abril de 2020

EU, UM VÍRUS?

Escultura em vidro, do artista britânico Luke Jerram - Virus

Assim como qualquer outro ser vivo, o Corona Vírus tem em sua natureza o instinto básico de comer, sobreviver e se multiplicar. Nesse momento difícil no qual questionamos autoridades governamentais e  seus protocolos de ação em relação  a pandemia, vale  pensar em nós mesmos e de que maneira  agimos ao longo de séculos. O ser humano vem promovendo invasões territoriais, expropriações patrimoniais e escravidão em absolutamente todos os  partes do mundo, e isso ocorreu exatamente pelo fato de, antes de qualquer outro fator, cada vida humana trazer em si uma natureza sobrevivencialista. Milhões de anos após os primeiros seres humanos surgirem nesse planeta, evoluímos e nos adaptamos cultural e socialmente até a forma como vivemos hoje. Porquê então nos surpreendemos com atitudes de igual modo expansionista e predatória de micro vidas que também disputam a sobrevivência e reprodução? 

O instinto mais primitivo de qualquer ser vivo é a busca por uma zona de conforto, favorável à perpetuação de determinado modo de vida, mesmo em condições adversas, a não ser que algum fenômeno o faça migrar e então se readaptar. Mudanças sempre levam tempo para serem assimiladas, sendo mais interessante a permanência no ambiente de origem, evitando contato com outros seres, de modo a preservar a vida em sua forma original. Hoje, quando a Covid-19, atual variante do Corona Virus, é trazido ao território brasileiro, descobrimos que a medida de saúde pública  mais recomendada por autoridades internacionais tem sido a de buscar manter o distanciamento social, de modo a evitar o contágio. Lembremos que, não faz muito tempo, cerca de cem anos aproximadamente, éramos majoritariamente campinenses produtores e consumidores do que plantávamos, o que ocorria bem longe dos grandes centro e em pequenos grupos sociais, na maioria dos casos em núcleos familiares. Ou seja, um isolamento social culturalmente assimilado. Quando estávamos próximos das grandes aglomerações urbanas, os mais pobres encontravam uma maneira segura de sobreviver e coexistir, mesmo de certa forma isolados em sua "Rocinha", bem diferente do que vemos hoje, quando um complexo de favelas na cidade do Rio de Janeiro é capaz de superar facilmente a densidade populacional da maioria dos municípios de nosso país.

Não nos damos conta de que, ao nos tornamos urbanos, metropolitanos e até cidadãos do mundo, levamos e trazemos aquilo que deveria ser cultivado, mantido e circulado em seu lugar de origem. A troca entre o que temos com o que o outro oferece, se tornou então natural e espontâneo com o avanço do que aprendemos a chamar de globalização, a partir dos anos 80. Ou seja, ser cidadão do mundo passa e ser um direito inalienável dos que podem se deslocar de seu lugar a qualquer outra parte do globo. Então, o fato  de um vírus microscópico também partilhar dessa globalização torna-se algo plausível. Se um simples girino, com sua meia dúzia de neurônios, tem como instinto vital a busca por abrigo e alimento, imagine o potencial expansionista e predatório de um ser evoluído ao ponto de somar em si 86 bilhões de neurônios, de pelo menos 16 tipos e funções diferentes, como ocorre entre nós humanos.
 
Gripe Espanhola, Capa do jornal  Gazeta de Notícias mostra 15out18

Devemos, a meu ver, não culpar um micro organismo ou creditar a atual pandemia na conta desses microscópicos predadores, pois somos nós os verdadeiros malvados nessa história. 

Na matéria publicana no site Diário do Centro do Mundo (22/04/20), em sua primeira entrevista coletiva, o atual Ministro da Saúde Nelson Teich levanta a seguinte discussão:

Em sua primeira entrevista coletiva como ministro da Saúde, Nelson Teich mostrou que está sintonizado com o pensamento de Bolsonaro em relação à pandemia do coronavírus. Defendeu que o Brasil precisa expor sua população ao vírus, de forma que pelo menos 70% seja infectada. A justificativa é que uma vacina contra a doença demora pelo menos 12 meses, e que o país não suporta tanto tempo em quarentena. Disse que o índice de mortes no Brasil é de 8 pacientes por milhão de infectados. Teich considerou o número bom, citanto que a Alemanha apresenta 15, Espanha 255 e Estados Unidos 129. “O nosso número é um dos melhores”, comemorou. Resumindo: vamos expor 70% da nossa população ao vírus e contar com a sorte imaginando que o total de óbitos pode chegar a 8 por milhão desse pessoal.
Melhor dizendo, como não afirmar que somos nós o verdadeiro motivo de adoecimento de nossa espécie nesse rico e acolhedor planeta? Posso até dizer que deturpamos a ideia de "ser igual a Deus", nos transformando naquela imagem mitológica de criador que, insatisfeito com sua criação, entende que a melhor decisão é destruir tudo e todos, ao ver que a criação ficou fora de controle. Juntemos a isso o fato de não aplicarmos o que aprendemos com a centenária Gripe Espanhola, inclusive no que se refere ao estigma estabelecido por seu apelido. Os lideres mundiais permitiram que o ônus daquele primeiro caso de H1N1, que se espalhou por conta da Primeira Grande Guerra, recaísse sobre apenas um país, nos mesmo moldes da atual criminalização do povo chinês que, por sua vez, culpa e reprime os imigrantes africanos que ali vivem.

Veja então em que ponto chegamos por aqui entre nós brasileiros. O país do abraço, da fala ao pé do ouvido, do beijo em público, está sendo orientado pelo bom senso a evitar manifestações importantes de sua cultura, no tocante a sociabilidade. Nada de afagos no rosto entre amigos e amantes tem sido recomendado, além de apertos de mãos formais ou cordiais. Sabemos que o vírus muda ao chegar em cada novo lugar e se adapta para sobreviver, ainda que, para isso, outras vidas sejam apenas fonte de abrigo, alimento e proliferação. Isso não é bem a nossa cara? Veja então que a recomendação prioritária que rompe o ciclo de ameaça a vida é exatamente isolamento social, algo difícil de assimilar em nosso dias, por entrarmos no consenso de priorizar uma vida urbana, de preferência, metropolitana, daí a dificuldade que temos em evitar aglomerações.

Na medida do possível então fiquemos cada um no seu canto e entre os que nos acolhem em família. Lave as mãos e remova o que vocês trás de impureza, do lugar de onde veio. Use a máscara e, mesmo metaforicamente, não permita que aquilo que sai da boca contamine o outro, assim como ocorre com gotículas e fake news. Quem tem mãos limpas então, não põe o outro em risco de morte pois, nossas atitudes podem de fato nos transformar em um virus, do tipo mais letal possível.