quarta-feira, 27 de maio de 2020

O NOVO NORMAL OU A NORMALIDADE QUE SE QUER?

a imagem do "novo normal" foto: gazeta do povo
Máscara, imagem do "novo normal" foto: Gazeta do Povo

Sabe aquela antiga prática de ensinar a criançada a lavar as mãos antes de comer? Pois bem. Muitas outras práticas sociais ganharam status de folclore nas famílias, tais como por para lavar as rupas usadas em velório, deixar os sapatos do lado de fora de casa ou por a mão na frente do rosto ao tossir, por exemplo. Essas e outras atitudes diárias foram incorporadas a partir de um imaginário coletivo, sobretudo na base da sociedade. Eram práticas tidas consensualmente como “educadas”, possibilitando a boa aceitação dos indivíduos na maioria dos espaços sociais. No entanto, a partir da pandemia da Covid-19, a ideia do que chamamos de “novo normal” trás em seu contexto elementos que transcendem as necessidades dos diversos grupos sociais. Ou seja, o que se entende como normalidade na sociedade de consumo, passa necessariamente pelo ponto de vista tanto de quem oferece produtos e serviços quanto de que procura atender a demandas específicas.

Em junho de 2019 escrevi um texto aqui no meu blog, cujo título era “SÓ PRA ENCHER O SACO? Abrindo debate sobre ofim do uso de sacolas plásticas”. Naquele momento o assunto em voga era a relevância do tema e a consequente adesão ou não da população, considerando que uma sacola plástica tem seu lugar no imaginário de uma comunidade, diferente do que ocorre em famílias que vivem em condições menos desiguais. No que se refere ao uso de máscaras descartáveis ou não, cuidados com a higiene pessoal em vias públicas e, sobretudo, o fator aglomeração, vale uma boa discussão voltada ao estudo das mentalidades, o que não será possível fazer aqui. Minimamente, cabe colocar que os longos estudos feitos por Lucien Febvre voltados aos aspectos psicológicos das práticas sócias nos mostram que não é possível compreender as mentalidades sem um aprofundamento na história, na linguagem e na cultura dos grupos sociais. Se nos lembrarmos que vivemos em uma verdadeira cebola social, com suas intrincadas camadas, será possível compreender que cada uma dessas camadas trás um conjunto de símbolos, dogmas e linguagens, através dos quais cada indivíduo “lê” e interpreta o que vem como determinação das camadas “superiores”.

conflito de normalidade
Mentalidade: necessidade e realidade. foto: portal 25Horas

Menos de dois meses após o início das medidas de isolamento social, vemos que a população já começa a afrouxar as medidas de proteção individual por sua própria conta e risco, mesmo com a massificada difusão de informações através das mídias eletrônicas e digitais, votadas a reafirmar a importância de cuidados com o próximo, o que é a grande virtude do uso de máscaras. Um amigo certo dia, com a finalidade de comparar a forma como o brasileiro encara o distanciamento social, me enviou uma piada que se referia a medidas de distanciamento social na Islândia, onde o governo recomentou o afastamento de dois metros de distancia entre as pessoas. “Dois metros de distancia? Quem é o governo pra me fazer ficar assim, tão perto das pessoas?” Nosso histórico de proximidade, bem como nosso tradicional “calor humano”, são um forte indicador que ilustra o nosso “não” ao isolamento, o que se percebe em indivíduos de formação e origem social, distintos. Quando vemos a diversidade de modelos e cores de máscaras usadas nas ruas, sobretudo nas grandes cidades, dão o tom de nosso tradicional apego a modismos bem como a criatividade empreendedora de nossa gente. Por outro lado, a forma incorreta de uso das mesmas como vemos em toda parte, dão conta de que as pessoas entenderam o conceito e a necessidade, mas não se adaptaram a forma e a necessidade de cuidado contínuo.

nova ordem financeira
Banco digital: normalidade conveniente. foto de divulgação 

Esse novo normal sobre os quais nos referimos aqui está também ligado ao estabelecimento de novas necessidades, por parte dos tradicionais detentores de meios e recursos econômicos. Se lembrarmos da pressão exercida pelo sistema bancário sobre sua categoria profissional afim, veremos que essa pandemia está oferecendo o ambiente propício para que os bancos digitais deem um salto no que se refere a sua relevância na sociedade hoje. As FinTechs, instituições financeiras que pensam, entre outros fatores, na desburocratização do sistema bancário, vem desenvolvendo tecnologias desde os anos 60 e a invenção dos caixas eletrônicos é uma delas. No entanto, alguns bancos físicos vem gradativamente informatizando a cada dia mais seus serviços, considerando que a o mundo virtual possibilita, entre outras coisas, o aumento dos lucros. Nesse caso, bancos tradicionais informatizados tem buscado migrar para o modelo pleno de atendimento virtual, como é o caso do Bradesco, que criou sua vertente digital que é a Next, que caiu como uma luva nesse período de quarentena e medo de aglomerações, por parte de uma grande parcela da população. Outro grupo econômico que está surfando na onda da pandemia do Corona vírus é o que investe no ensino  distancia como modelo de ensino. De igual modo, Educação a Distancia, conhecida como EAD, é uma boa solução para quem precisa do “canudo” mas não tem tempo disponível suficiente para se dedicar a pesada vida acadêmica. Logicamente os custos são mais baixos para os donos desses empreendimentos, o que eu não significa qualidade de ensino compatível com os valores cobrados. Resultado, número elevado de queixas ao PROCON, relacionadas a qualidade do serviços prestados nesse período.

O fato é que esse novo normal não se encaixa perfeitamente na realidade que vemos hoje, considerando que normalidade é algo cultural e que leva tempo para que seja estabelecido, daí a necessidade de imposição de regras. No entanto essas regras podem ser facilmente burladas, considerando que demandas sociais anteriores não atendidas, como pressuposto para o estabelecimento de regras mais duras. A camada mais pobre da população para uma taxa de energia elétrica no mesmo valor que as outras camadas sociais. O acesso a internet por sua vez, é precário e caro para os mais pobres, considerando que fora das grandes metrópoles a oferta de alternativas é menos. Ou seja, com menos concorrência, os monopólios regionais definem a seu modo os valores, bem como critérios para prestação de serviços de manutenção, inclusive. Soma-se a isso a qualidade das TVs abertas em comparação com a diversidade dos canais fechados. Soma-se a isso o grande número de famílias numerosas habitando residências de poucos cômodos e estrutura precária. Nesse caso, como evitar que uma criança ou adolescente veja a rua como lugar de lazer durante essa pandemia? Ainda que o preço médio de uma máscara seja de R$5,00, cabe sempre lembrar que esse número se multiplica proporcionalmente com o número de membros de uma família e, nesse caso, a compra dos legumes no sacolão vai garantir aumento na imunidade, segundo o novo folclore inserido nesse pacote do imaginário coletivo contemporâneo.   

 


segunda-feira, 25 de maio de 2020

ARTISTAS DA BAIXADA FLUMINENSE QUEREM A APROVAÇÃO DA PL 1075/2020


Ao contrário do que pensam os liberais de profissão, bem como os neófilos dessa linha de pensamento político,  esse momento de emergências, provocadas a partir da pandemia da Covid-19, vem trazendo sérias dificultardes a grande maioria da população, a qual incluo a classe artística.  Considerada a fala reiterada de que “o artista foi o primeiro a parar e será o últimos a retornas a suas atividades”, cabe reafirmar a importância do Estado na definição de estratégias de proteção social da população. Se faz necessário então promover ações que possam efetivamente minorar os impactos sobre nossa economia, daí a necessidade de apoio maciço tanto da população quanto da sociedade política, a PL 1075/2020. 

Nesse sentido, técnicos, artistas, produtores, mestre e demais integrantes da cadeia produtiva da cultura, oriundos ou atuantes na região da Baixada Fluminense, se posicionam favoráveis a votação do PL 1075/2020, conforme no vídeo a seguir e em concordância com as justificativas de Cleise Campos, conforme o texto que se segue. 


PORQUE VOTAR SIM NO PL 1075/2020 DE EMERGÊNCIA CULTURAL?

                                                                                                                                                                                             *Cleise Campos

 A cultura sempre foi importante, e agora, mais ainda. São as variadas atividades artísticas que tem nos acompanhado ao longo dos dias de isolamento social: Música. Filmes. Teatro. Oficinas de arte. Livro e leituras. Passeios virtuais pelos Museus e Centros Culturais. Arte e Cultura ao alcance das nossas mãos através do celular, do tablet, do computador, na tela de TV ou nas ondas do rádio. Mais do que em qualquer outro momento, temos uma potente produção cultural a nosso favor, neste momento da pandemia.

Por isso mesmo, faz todo sentido socorrer a categoria Cultural que também tem sido atingida pela crise provocada pelo coronavírus: Todo apoio ao PL 1075/20, com votação no Congresso Nacional dia 26/05, uma iniciativa de dezenas de Deputados Federais (autoria Benedita da Silva, relatoria Jandira Feghali, e vários co-autores), trabalhando juntos na composição do projeto de lei em favor dos agentes culturais, do produtor cultural.

É urgente dar atenção aos muitos artistas que estão impedidos de atuar no circo,na rua,no banquinho com voz e violão daquele bar,nas casas de recitais,nas tantas oficinas de arte,nos ateliês,nos palcos do teatro ou nas casas de shows, nos salões de artes plásticas,ou ali nas feiras de artesanato.  


A Bancada Fluminense conta com 46 Deputada/os Federais. Vamos conversar com nossos parlamentares: É preciso abraçar a Cultura votando SIM pela Emergência Cultural, retribuindo para o artista brasileiro, os artistas e trabalhadores culturais  das 92 cidades carioca-fluminense, os aplausos e reconhecimento pelo que produzem sempre, pela grande contribuição na economia e desenvolvimento do nosso mapa RJ que a Cultura promove, sempre.

Importante: temos quase 3 Bilhões no Fundo Nacional de Cultura, garantindo os recursos para cumprimento da LEI, atendendo artistas, equipamentos culturais, e também as Prefeituras, com repasse de Fundo a Fundo. A Cultura não pode parar, a Cultura importa. 

Confira os nomes de Deputadas/os do nosso estado que trabalham em Brasília e placar de votos na página facebook: ForumCulturaRJ

 

*Cleise Campos é gonçalense, atriz bonequeira, Prof. Historia e Filosofia

Gerente Feirartes na Secretaria Municipal de Cultura do RJ, conselheira de Cultura (município carioca e conselho estadual), articuladora no Fórum de Cultura do Estado do RJ

sexta-feira, 8 de maio de 2020

FUNDO ESTADUAL DE CULTURA RJ - resultado preliminar do edital




Após prorrogação do prado inicial, a Secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa divulga hoje (08 /04) o edital Cultura Presente nas Redes, o primeiro voltado aos artistas, mestres, produtores e demais agentes culturais das dez regiões fluminense, obedecendo critérios de regionalidade e densidade populacional. Segundo a gestora da pasta, a secretária Danielle Barros, cerca de oito mil inscrições foram feitas, demonstrando não somente sucesso quanto a abrangência desse edital, que foi o principal pleito do Conselho Estadual de Política Cultural desde sua eleição em 2016, mas também um avanço, desde que se estabeleceu a Lei 7035/15, que regulamenta o Sistema Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Segue o link do resultado e do respectivo Edital.

Mais informações pelo site da secretaria em:
http://cultura.rj.gov.br/

quarta-feira, 22 de abril de 2020

EU, UM VÍRUS?

Escultura em vidro, do artista britânico Luke Jerram - Virus

Assim como qualquer outro ser vivo, o Corona Vírus tem em sua natureza o instinto básico de comer, sobreviver e se multiplicar. Nesse momento difícil no qual questionamos autoridades governamentais e  seus protocolos de ação em relação  a pandemia, vale  pensar em nós mesmos e de que maneira  agimos ao longo de séculos. O ser humano vem promovendo invasões territoriais, expropriações patrimoniais e escravidão em absolutamente todos os  partes do mundo, e isso ocorreu exatamente pelo fato de, antes de qualquer outro fator, cada vida humana trazer em si uma natureza sobrevivencialista. Milhões de anos após os primeiros seres humanos surgirem nesse planeta, evoluímos e nos adaptamos cultural e socialmente até a forma como vivemos hoje. Porquê então nos surpreendemos com atitudes de igual modo expansionista e predatória de micro vidas que também disputam a sobrevivência e reprodução? 

O instinto mais primitivo de qualquer ser vivo é a busca por uma zona de conforto, favorável à perpetuação de determinado modo de vida, mesmo em condições adversas, a não ser que algum fenômeno o faça migrar e então se readaptar. Mudanças sempre levam tempo para serem assimiladas, sendo mais interessante a permanência no ambiente de origem, evitando contato com outros seres, de modo a preservar a vida em sua forma original. Hoje, quando a Covid-19, atual variante do Corona Virus, é trazido ao território brasileiro, descobrimos que a medida de saúde pública  mais recomendada por autoridades internacionais tem sido a de buscar manter o distanciamento social, de modo a evitar o contágio. Lembremos que, não faz muito tempo, cerca de cem anos aproximadamente, éramos majoritariamente campinenses produtores e consumidores do que plantávamos, o que ocorria bem longe dos grandes centro e em pequenos grupos sociais, na maioria dos casos em núcleos familiares. Ou seja, um isolamento social culturalmente assimilado. Quando estávamos próximos das grandes aglomerações urbanas, os mais pobres encontravam uma maneira segura de sobreviver e coexistir, mesmo de certa forma isolados em sua "Rocinha", bem diferente do que vemos hoje, quando um complexo de favelas na cidade do Rio de Janeiro é capaz de superar facilmente a densidade populacional da maioria dos municípios de nosso país.

Não nos damos conta de que, ao nos tornamos urbanos, metropolitanos e até cidadãos do mundo, levamos e trazemos aquilo que deveria ser cultivado, mantido e circulado em seu lugar de origem. A troca entre o que temos com o que o outro oferece, se tornou então natural e espontâneo com o avanço do que aprendemos a chamar de globalização, a partir dos anos 80. Ou seja, ser cidadão do mundo passa e ser um direito inalienável dos que podem se deslocar de seu lugar a qualquer outra parte do globo. Então, o fato  de um vírus microscópico também partilhar dessa globalização torna-se algo plausível. Se um simples girino, com sua meia dúzia de neurônios, tem como instinto vital a busca por abrigo e alimento, imagine o potencial expansionista e predatório de um ser evoluído ao ponto de somar em si 86 bilhões de neurônios, de pelo menos 16 tipos e funções diferentes, como ocorre entre nós humanos.
 
Gripe Espanhola, Capa do jornal  Gazeta de Notícias mostra 15out18

Devemos, a meu ver, não culpar um micro organismo ou creditar a atual pandemia na conta desses microscópicos predadores, pois somos nós os verdadeiros malvados nessa história. 

Na matéria publicana no site Diário do Centro do Mundo (22/04/20), em sua primeira entrevista coletiva, o atual Ministro da Saúde Nelson Teich levanta a seguinte discussão:

Em sua primeira entrevista coletiva como ministro da Saúde, Nelson Teich mostrou que está sintonizado com o pensamento de Bolsonaro em relação à pandemia do coronavírus. Defendeu que o Brasil precisa expor sua população ao vírus, de forma que pelo menos 70% seja infectada. A justificativa é que uma vacina contra a doença demora pelo menos 12 meses, e que o país não suporta tanto tempo em quarentena. Disse que o índice de mortes no Brasil é de 8 pacientes por milhão de infectados. Teich considerou o número bom, citanto que a Alemanha apresenta 15, Espanha 255 e Estados Unidos 129. “O nosso número é um dos melhores”, comemorou. Resumindo: vamos expor 70% da nossa população ao vírus e contar com a sorte imaginando que o total de óbitos pode chegar a 8 por milhão desse pessoal.
Melhor dizendo, como não afirmar que somos nós o verdadeiro motivo de adoecimento de nossa espécie nesse rico e acolhedor planeta? Posso até dizer que deturpamos a ideia de "ser igual a Deus", nos transformando naquela imagem mitológica de criador que, insatisfeito com sua criação, entende que a melhor decisão é destruir tudo e todos, ao ver que a criação ficou fora de controle. Juntemos a isso o fato de não aplicarmos o que aprendemos com a centenária Gripe Espanhola, inclusive no que se refere ao estigma estabelecido por seu apelido. Os lideres mundiais permitiram que o ônus daquele primeiro caso de H1N1, que se espalhou por conta da Primeira Grande Guerra, recaísse sobre apenas um país, nos mesmo moldes da atual criminalização do povo chinês que, por sua vez, culpa e reprime os imigrantes africanos que ali vivem.

Veja então em que ponto chegamos por aqui entre nós brasileiros. O país do abraço, da fala ao pé do ouvido, do beijo em público, está sendo orientado pelo bom senso a evitar manifestações importantes de sua cultura, no tocante a sociabilidade. Nada de afagos no rosto entre amigos e amantes tem sido recomendado, além de apertos de mãos formais ou cordiais. Sabemos que o vírus muda ao chegar em cada novo lugar e se adapta para sobreviver, ainda que, para isso, outras vidas sejam apenas fonte de abrigo, alimento e proliferação. Isso não é bem a nossa cara? Veja então que a recomendação prioritária que rompe o ciclo de ameaça a vida é exatamente isolamento social, algo difícil de assimilar em nosso dias, por entrarmos no consenso de priorizar uma vida urbana, de preferência, metropolitana, daí a dificuldade que temos em evitar aglomerações.

Na medida do possível então fiquemos cada um no seu canto e entre os que nos acolhem em família. Lave as mãos e remova o que vocês trás de impureza, do lugar de onde veio. Use a máscara e, mesmo metaforicamente, não permita que aquilo que sai da boca contamine o outro, assim como ocorre com gotículas e fake news. Quem tem mãos limpas então, não põe o outro em risco de morte pois, nossas atitudes podem de fato nos transformar em um virus, do tipo mais letal possível.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A MÁSCARA REVELA OU ESCONDE TUDO?


A sociedade na qual vivemos, com sua estética e comportamentos preestabelecidos, é inegavelmente uma forma de ditadura bem peculiar. Partilhamos  e absorvemos uma hegemonia cultural tão pesada, que precisamos de algum mecanismo de proteção individual ou esconderijo, que nos permita fugir da formatação social que nos oprime. A máscara é então uma forma de esconder ou até revelar o que verdadeiramente é uma pessoa ou pequeno grupo de pessoas que enfrentam um conflito particular. Nós, que hoje assumimos viver em bolhas sociais, em muitos casos precisamos de uma maneira de estar invisíveis em outros grupos e assim, deixar numa gaveta a verdade sobre quem de fato queremos ser. Na ficção a máscara esconde tanto o herói quanto o vilão, que se abrigam de si mesmos, seja por vergonha ou por trauma, causados por aquilo para que foram  criados. Na arte ou na festa a máscara, é por sua vez, aquilo que nos permite flutuar fora da bolha, nos misturando com outros que se agregam a um personagem coletivo, onde os iguais se defendem ou até mesmo atacam de forma orquestrada. 

Máscara de tragédia grega - fonte ignorada
Os gregos antigos nos possibilitaram fazer uso do que a sociologia chama hoje de "máscara social", ao adotarem faces pré definidas com características pessoais típicas ao meio, o que era representado a partir de padrões que as pessoas observavam em seu dia a dia. Algo tão marcante que se tornou inclusive símbolo do teatro hoje. Quando o ator "se mascara", ilustrando assim outra pessoa em determinado contexto, percebemos que esse artista pouco difere do que acontece conosco, quando “vestimos” um personagem, seja para uma conquista amorosa ou entrevista de emprego, por exemplo.   Segundo Felisberto Sabino (2005), “O ator relaciona-se com o mundo sob a perspectiva de um outro ser” (p.03) e essa é uma lógica que nos envolve a todos, naquilo que chamamos de “vida real”. O que a realidade cotidiana difere dos palcos é que identidade é uma escolha, diferente de um personagem elaborado por um roteirista, ainda que, em ambos os casos exista um papel pré estabelecido em um roteiro tanto social quanto teatral. Ou seja, para a sociologia a identidade é fruto da socialização, que por sua vez, varia de tempos em tempos. Em sua obra “Espelhos e Máscaras” 2011, Anselm Strauss discute um conjunto de ideias que dizem respeito ao “eu” e seu lugar na coletividade, mostrando que “as interações acontecem entre indivíduos, mas os mesmos também representam – em termos sociológicos - coletividades diferentes e, muitas vezes, múltiplas que se estão expressando por meio das interações”. podemos entender então que é possível que uma pessoa tenha uma postura no trabalho e outra totalmente diferente quando vai ao samba ou à igreja e para que isso ocorra, é necessária ao indivíduo uma postura condizente com cada um desses lugares.
 
Festa dionisiana - fonte ignorada
A ideia da máscara cabe como elemento que ilustra bem um contexto social de proteção ou escolha do “eu”. Um capacete ou um elmo medieval por exemplo, protegem a cabeça de estilhaços ou golpes, enquanto o uniforme cria identidade de grupo e principalmente define hierarquia. Já a máscara, enquanto objeto fetichizado, representa a autonomia do indivíduo em relação um grupo, resguardando a identidade, enquanto revela o caráter do indivíduo ou de um coletivo, o que percebemos logo no primeiro olhar. Posso pensar que é exatamente por isso que os deuses egípcios têm corpo humano e cabeça de animal, considerando que a natureza que lhes é atribuída em família já não é capaz de retratar sua identidade em gerações egípcias posteriores. O Deus Hórus, por exemplo, surge como deus do silêncio e da sabedoria, mudando radicalmente tempos depois, quando lhe é dada uma cabeça de falcão, simbolizando seu olhar sobre onisciente sobre todo povo egípcio. O fato é que a forma como se desenvolve a interação em sociedade, coloca pessoas como personagens ligadas a um roteiro e não como indivíduos ou protagonistas, omitindo suas identidades. É por esse motivo que, sob o ponto de vista sociológico, a ideia de máscara social se encaixa perfeitamente a estratégia de fuga a qual cada indivíduo pode recorrer, sempre que uma tradição, doutrina ou pacto social já não lhe faz mais sentido.

Já no aspecto material, tanto na realidade quanto na ficção a máscara se presta tanto ao lícito quanto ao ilícito. Longe da ideia insegurança pessoal ou como reflexo de uma patologia, a máscara pode servir para encobrir ações tanto da justiça quanto do crime, muitas vezes distante do engraçado ou do romântico que os filmes e séries nos apresentam, mostrando que o vilão tem no fundo algo bom que nos cativa. O fato é que a história está repleta de fatos revolucionários, heroicos ou cruéis, nos quais indivíduos impõem o terror ou engendram lutas democráticas como forma de controle social ou tomada de poder. A máscara então encobre ações de seus usuários, haja vista que, no que diz respeito senso comum, as atitudes do então mascarado ou seu grupo são invariavelmente injustificáveis, daí o recurso do encobrimento da identidade, possibilitando que, sem ela, criminosos e justiceiros circulem incógnitos entre nós. 

A máscara e a ideia de unidade
Série La Casa de Papel: mascara de criminosos viralizou. foto: Netflix 

O fator que contribui de forma significativa para que a máscara se torne elemento de reforço dramático nas telas é seu uso como símbolo de unidade em um grupo. Diversos filmes e séries, alguns de estrondoso sucesso, nos mostram o fascínio que grupos de mascarados exercem sobre as pessoas, há gerações. São vários os exemplos dos quais podemos fazer uso para ilustrar tal fato, exemplos esses que podem ser positivos ou negativos sob o ponto de vista também de cada grupo ou indivíduo. 

Subcomandante Marcos, um dos líderes do EZLN
Na década de 90 no México surge um movimento armado paramilitar que chamou a atenção não só de seus patrícios mas também viralizou na mídia internacional. O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), liderado pelo autodenominado Subcomandante Marcos, inicia em 01 de janeiro de 1994 uma marcha de mobilização nacional em favor dos direitos de povos indígenas. O grupo armado do EZLN que era composto majoritariamente por indígenas, fazia uso dos capuzes como forma de horizontalizar a liderança, ainda que Marcos tenha sido visto pelo mundo como orador mais eficiente e carismático. Uma mobilização nacional levou centenas de milhares de pessoas à Capital, levando o então presidente Vicente Fox a propor um acordo, atendendo assim a reivindicações daquele movimento. Com os avanços positivos em relação às reivindicações e a ampliação da capacidade política da EZLN, o grupo opta em 2005 a se registrar como partido político, denunciando as estruturas de poder, voltadas a concentração de riqueza e impedimento de ascensão das mais de sessenta nações indígenas mexicanas. Os encapuzados da EZLN, ainda que tenha se consolidado como grupo paramilitar armado, se tornou símbolo internacional de resistência popular.

Mas a história do movimento de pequenos grupos identitários não é formada apenas de levantes populares munidos de valores e propósitos dignos. É difícil compreender como a nação mais rica e desenvolvida do planeta ainda reproduz práticas discriminatórias do século XIX.  É exatamente no Século XXI que percebemos, através  da eleição de Barack Obama a presidente, que organizações racistas adormecidas naquele país,  apenas precisavam de um motivo para eclodir com plena força. E a liberdade com a qual esses grupos se manifestam, tem respaldo na própria Constituição. O texto da 1ª Emenda que ao mesmo tempo afirma defender a igualdade entre as pessoas, também dá base para que grupos radicais se manifestem livremente em todo país. O texto constitucional diz o seguinte:

"O congresso não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringindo a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações de queixas".

KKK no séc. XIX: finalidade de assustar e reprimir os negros no Sul dos EUA
Fonte: listeningbetweenthelines.org
A ku Klux Klan, organização que usa a chamada “máscara do orgulho americano”, tem seu início oficialmente no ano de 1865, no estado do Tennessee, Norte dos EUA. Com o fim da Guerra Civil Norte-Americana, era um absurdo para os brancos conservadores da Região, ver um crescimento exponencial no número de negros  que ocupavam cargos políticos e na hierarquia militar. Avessos ao texto da 1ª Emenda, onde a Constituição defende também que “todos os homens foram criados iguais”, um grupo de jovens encapuzados passa a fazer rondas noturnas ao redor das casas dos negros com o intuito de assombrá-los. Com seu aspecto fantasmagórico, esses jovens agregaram outros cidadãos, espalhando o terror, agora espancando e chicoteando e até enforcando negros que ousassem circular pelas ruas a noite. Hoje aquele país já não vive situações de lixamento como ocorria até os anos 50 no século XX. No entanto, esses mascarados se apoiam no texto constitucional para se reunir e, inclusive, eleger membros no Congresso Nacional, além  de juízes na Suprema Corte Norte-Americana, segundo pesquisadores e jornalistas dos EUA.

A máscaras nas folias
Todos sabemos que Roma se deixou influenciar pela encantadora cultura grega, assimilando boa parte de seus símbolos e divindades, renomeando e adaptando vários elementos simbólicos e materiais à sua realidade. Dionísio e Baco são respectivamente mitos grego e romano apreciadores da festa e da celebração, cujos adoradores tinham as máscaras como forma de ilustrar as demais divindades a eles relacionadas quando em festa. Celebrar os deuses tornou-se, no entanto, algo espúrio, a partir da crença do deus único e supremo, coincidindo com a busca pela hegemonia religiosa de Roma. No entanto as festas pagãs pela Europa antiga passaram a ser toleradas pela igreja, considerando que seus devotos, na grande maioria, pobres aldeões, mantinham tais festas como forma de lazer e de vínculo comunitário.  Em nossas terras, exatamente pelo histórico de colonização cristã, essa festa carnal é tida como blasfêmia, ainda que, para a grande massa da população, essa seja uma oportunidade de vestir uma outra realidade ainda que  brincante, como um grande espetáculo cênico, como descreve Alan Villela Barroso (*):

Festejo advindo dos rituais dionisíacos, o carnaval mantém sua tradição em ser uma festa popular, voltada para as massas, pautada na liberdade e na diversidade de expressões, de danças, músicas, poesias e alegorias, sendo o público, o ator-folião, convidado a participar desta festa coletiva e simultânea, com adereços, máscaras ou fantasias, onde o mesmo observa, representa e experimenta personagens e papéis sociais, descobrindo-se em novas maneiras de fruir, sentir e explorar os prazeres do corpo, da mente e da carne (AV BARROSO, p. 06)

A “festa da carne”, como define a morfologia em latim da palavra carnaval, tem origem no século XI, ainda sem essa denominação, desenvolvendo peculiaridades aqui nos trópicos tupiniquins. A prática portuguesa e popular do carnaval no Brasil traz de Portugal a tradição do “Entrudo”, respeitando porém o calendário cristão vigente.  Essa prática muito apreciada por jovens portugueses que aqui viviam, trazia em si o hábito de perturbar os cidadãos e principalmente os negros escravizados, com o arremesso de frutas, bolas de água, entre outros métodos. Esses jovens se mascaravam e se reuniam em grupos para se embebedar e fazer balburdia, o que ocorria não apenas na Capital do império. Há relatos de festas de Entrudo por todas as regiões do país, sobretudo no século XIX, quando há um número maior de registros, por conta da proliferação de órgãos de imprensa. É claro que a festa, que tinha seu limite na quarta-feira de cinzas, contava com muitas brincadeiras em via pública que deixavam os mais velhos transtornados, tamanha a farra com banhos de barro, água, farinha ou ovos, que incomodava a todos, o que gerou interferência do governo, que proibiu o Entrudo em vias públicas. Já os pobre e escravos passaram, já no final do século XIX a sair às ruas brincando, em muitos casos pintando a face de branco, em chacota às festas que passavam a ser realizadas em clubes fechados e restritos às camadas mais abastadas.

Carnaval de Debret 1828: negros satirizando os brancos 
Foi, porém com o declínio dos bailes de máscaras realizadas em clubes, a partir da virada do século XX, que  o carnaval toma ares de festa popular de forma horizontal. O entrudo, ainda que em plena obediência ao calendário litúrgico católico, acabou criminalizado tanto pela igreja quanto pelo governo, que queria, por sua vez, se afastar ainda mais de qualquer tradição ligada à monarquia. Tem início então um processo de nacionalização do carnaval, que tem seu ponto alto a partir da Revolução de  30 liderada por Vargas, que adota o carnaval como festa popular genuinamente brasileira. A principal parceria para que isso fosse possível era a utilização do rádio como mecanismo de propaganda. A partir de então o carnaval passa a ter um caráter popular massificado e que, de uma forma muito interessante, mantém algumas características históricas, como é possível notar a partir da letra de Zé Ketti e Pereira Matos:

Tanto riso,
Oh! quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão!
Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano,
Foi no carnaval que passou,
Eu sou aquele Pierrot,
Que te abraçou,
E te beijou, meu amor,
Na mesma máscara negra
Que esconde teu rosto
Eu quero matar a saudade.
Vou beijar-te agora,
Não me leve a mal,
Hoje é carnaval!

A máscara e a crítica política
Uma peculiaridade do carnaval, seja em que tempo se dê ao longo de sua história, é a possibilidade da crítica social e política, sobretudo possibilitando algum tipo de expressão às camadas menos favorecidas da sociedade, em relação a sua percepção do mundo a sua volta. E essa expressão pode ser considerada uma forma de liberdade para a grande massa, que  já se deu conta de que o carnaval é o momento no qual a criatividade e sarcasmo podem dar vazão à sua indignação ou estranheza quanto a diversas situações que interferem em seu dia-a-dia. Bom exemplo disso é o sucesso que a Fábrica Condal adquiriu desde sua inauguração em 1958. 
Valles, em sua retomada na Abertura. Fonte: O Globo
Na ocasião, o artista plástico e ex-professor de escultura da Universidade de Barcelona, Armando Valles, que se instalou no Brasil em 1956, afirmou em entrevista ao Jornal O Globo em 1970, que as fantasias eram bastante elaboradas, mas que as máscaras eram grotescas, ainda que buscassem representar uma ideia. Valle passou a produzir máscaras com material sintético em larga escala, para distribuição em lojas de artigos para o carnaval, o que se tornou um estrondoso sucesso. Atendendo a uma demanda crescente, em 1961 o artista passou elaborar também máscaras de políticos, interrompendo a produção desse tipo específico em 1964 com o início da Ditadura, voltando a retratar figuras da política em 1995, a partir do processo de Abertura Política, quando Tancredo se tornou uma das personagens mais procuradas em suas obras. Valle faleceu em 2007, com a fábrica ainda se mantendo em atividade por mais dez anos, com a adesão em 2013 do artista plástico Gabriel Barros. No entanto a fábrica, que funcionava no bairro da Covanca em São Gonçalo-RJ, sob a direção da esposa e do filho de Armando Valle, encerrou suas atividades em 2019, prestes a completar 61 anos de atividades ininterruptas. Gabriel alegou que preferiu se dedicar à sua própria fábrica de máscaras em Duque de Caxias. 

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Referências:


COSTA, Felisberto Sabino. A Máscara e a Formação do Ator. Revista Móin-Móin, Jaraguá do Sul, SCAR/UDESC, ano 1, 2005;

Perny, Mônica Menezes. As máscaras de carnaval no cenário carioca : uma contribuição à memória social / Mônica Menezes Perny. — 2015

O Entrudo, primórdios do carnaval no Brasil:



ZANATTA, M. S. Nas Teias da Identidade: Contribuições para a Discussão do Conceito de Identidade na Teoria Sociológica. PERSPECTIVA, Erechim. v.35, n.132, p.41-54, dezembro/2011;


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

FUNDAMENTALISMO CATÓLICO NA CULTURA? SIM, EM TODAS ELAS


"Atendendo vontade divina", é a justificativa de Regina Duarte para Cultura. foto:Pleno.News


Nada mais comum do que um governante intervir no modo de vida da sociedade, como ocorre hoje no Brasil. Nesse caso, acho que Regina Duarte está mesmo no lugar certo, por ser ela uma representante do segmento das artes cênicas e também uma fervorosa católica, segundo o que ela mesmo declara.

Se a gente pensar então que esteticamente cultura inclui um conjunto de símbolos e linguagens que refletem determinado modo de vida, podemos compreender as motivações de ministros e secretários desse governo, tomando como exemplo falas de Roberto Alvim, secretário anterior da Cultura e também profissional dos palcos. O diretor teatral católico fervoroso que alega ter sido curado de um câncer, defendia a horizontalização de valores tradicionais, para a nação. Em entrevista sua ao site de O Globo, edição de 19 de julho de 2019, Alvim sai em defesa do presidente que o acolheu, convocando a quem o mesmo  define como  “artistas conservadores”,  para criar uma “máquina de guerra cultural” em defesa do governo, referindo-se a foto de Fernanda Montenegro que posa fantasiada de bruxa sobre uma pilha de livros. 
  
Se considerarmos as relações históricas entre fé e poder, veremos que não há interferência tradicional mais duradoura que as da igreja católica. É lembrar que dominação e determinismo moral são ditados pelo Vaticano há séculos, interferindo em diversas culturas. Agora, quando Regina Duarte (também católica fervorosa) alega cumprir uma "vontade divina" ao assumir a pasta, fica claro que definitivamente não é possível debater cultura com esse tipo de líder político ou com quem o apoia, considerando que é impossível discutir com Deus, pelo menos com esse, em quem o atual governo apoia suas ideias. Cabe lembrar mais uma vez que vem de longe essa ideia de tomar o poder tendo uma visão particular de Deus como estratégia, usando uma série de dogmas e símbolos como meio legitimação do poder e a história está repleta de exemplos.

 Pepino, o Breve (assim chamado por ser baixinho e não pelos seus dezessete anos no poder), é considerado o primeiro nobre a ser consagrado rei sob as bênçãos da igreja. A historiadora Maria do Carmo Parente Santos em sua obra “As relações de poder entre a Igreja e o Estado francês no séc. XII” nos diz que aquele nobre usurpou um trono que naturalmente seria ocupado por membro de outra dinastia:

Pepino então ousou. Para ele tratava-se de legitimar sua autoridade ligando-a não à ordem humana - falha, sempre precária e por isso mesmo passível a todo momento de contestação - mas alicerçá-la através da ligação com a própria ordem sobrenatural e transcendente e, por conseguinte, incontestável. sobrenatural e transcendente e, por conseguinte, incontestável. Assim, apela para o papa no sentido que reconheça seu direito ao trono. Zacarias [o papa] ao atender ao apelo de Pepino e aprovar sua permanência como rei dos francos também o faz atendendo à diretriz de estabilidade do corpo social, viga mestra na construção a que persistentemente os ideólogos da Igreja vinham se dedicando, a idéia de ordem humana como reflexo da ordem divina, a sociedade humana como resultado da vontade de Deus (p. 393).
 Está dado aí o fechamento ideal entre duas forças que têm projetos de poder a longo prazo. De um lado, um valoroso comandante militar que almeja ser rei, mas que não se legitimaria naturalmente, pois era o terceiro filho de Felipe I. Pepino se articula com o clero e é então coroado com base em seu discurso de poder estabelecido por outorga do próprio Deus. Por outro lado, o Papa carecia de forte apoio militar, haja vista os constantes roubos ao patrimônio eclesiástico comprometiam o poderio financeiro e patrimonial da igreja, que tinha claros projetos de expansão, mas não poderia contar com tropas, por conta da natureza de seu discurso. A partir de então, o conjunto formado pelo poderio militar, aliado a onipotência divina poderia daí por diante, ser resumida a figura do rei, como figura santificada. Essa forma de dominação seria tempos depois imitada pelos demais monarcas europeus, método que criou lastro em muitos outros níveis de poder como o judiciário, vide o hábito que se seguiu, de imposição da mão sobre a bíblia em juramento. 
 
Luis XIV:um rei fabricado. foto: Wikipedia
No entanto precisamos ter clareza de que uma imagem ou uma ideia não pegam assim, com tanta facilidade, sobretudo à medida que o tempo passa. É necessário que haja um empurrãozinho para que as ideias de um novo mandatário entrem no imaginário coletivo, principalmente se for o caso de tal figura surgir com determinações muito diferentes dos que assumiram o poder antes dele. Ou seja, a estratégica ideia de criação de um mito político tal como vemos hoje no Brasil, também tem escola. Luis XIV, chamado por seus admiradores de “Deus Sol”, adotou estratégias “marqueteiras” de convencimento de seu povo, já no Século XVII, podendo ser considerado um dos primeiros casos em que o artista se associa ao poder, em benefício mútuo.  Anacronismo a parte, esse monarca tem paralelo com o que vemos hoje, quando pensadores e artistas se colocam a serviço de uma imagem a ser firmada na cabeça do povo. Segundo Peter Burke (1994):

As ideias do século XVII sobre a relação entre arte e poder podem ser dispostas ao longo de um espectro. De um lado havia os escritores que pareciam conferir  imagem real seu valor nominal, fossem eles poetas a escrever odes ao rei, historiadores a narrar suas vitórias ou eruditos a descrever as decorações de Versailles. Descreviam estátuas e outros monumentos como meios de ‘instruir o povo’, incentivando-o a amar seu príncipe e obedecê-lo (p.17).
 O fato é que os monarcas medievais foram transformados em mitos, em boa medida por artistas que vieram depois deles, enquanto os estadistas contemporâneos se utilizam de recursos mais ágeis como a internet, de modo a massificar em tempo real as ideias que os colocaram e os mantém no poder. A estratégia de hoje é  criação de uma imagem mitológica e até metafísica, que se adapte a cada nova demanda pela consolidação da imagem, buscando criar consenso na sociedade. O discurso do medo, que Regina Duarte eternizou, quando na eleição de Lula em 2002, também não representa nenhuma novidade. Grupos católicos conservadores mantêm a prática de embasar doutrinariamente seu apoio a seja qual for o governo que se coloque frontalmente contra os princípios do clero.

Marcha das Familias com Deus, frases como as de hoje. foto: Bruno Toscano
Podemos citar como exemplo os fatos que motivaram o golpe de 1964, quando a parcela conservadora e mais influente da igreja se colocou contra o que determinou o Concílio Vaticano II (1961), sob o comando do Papa João XXIII.   No documento da igreja constavam orientações quanto ao zelo dos clérigos por valores voltados a justiça social e defesa dos Direitos Humanos, determinação que a camada dominante da sociedade ligada a igreja católica, ignorou sem pestanejar. As reformas de base projetadas por João Goulart não eram do agrado de latifundiários, economistas e  membros do judiciário a época, que entendiam ser mais seguro apoiar uma intervenção militar do que as incertezas de um governo simpatizante do comunismo. Nesse sentido, cerca de meio milhão de católicos realizam a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada no dia 19 de março de 1964, dia de São José, padroeiro das famílias.
Para que possamos ter uma noção clara da relação entre os discursos conservadores daquela passeata com o que vemos na atualidade, basta dar uma olhada em alguns cartazes que os manifestantes levaram, trazendo frases como: “Vermelho bom, só batom”, “Um, dois, três, Brizola no xadrez”, “Verde Amarelo, sem foice e sem martelo”, “Tá chegando a hora, de Jango ir embora”, "O Kremlin não compensa", "Abaixo o entreguismo vermelho", "A melhor reforma é o respeito à lei", "Chega de palhaçada, queremos governo honesto".

O que posso concluir é que o fundamentalismo católico é especialmente perigoso à sociedade, pois é diferente do radicalismo protestante que, em sua maioria, conta com seguidores pouco instruídos e de baixa afinidade com a leitura, em decorrência de sua baixa renda e pouco tempo de escolaridade. Já a média de escolaridade dos católicos é mais elevada, além de sua faixa de renda que supera os radicais evangélicos.  Cabe observar que a capacidade de articulação interna e externa dos radicais católicos em relação ao restante da sociedade, é bem maior, ainda que os evangélicos sejam em maior número.   Em 2015, um grupo de católicos ligados ao Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), entidade privada que, segundo seu estatuto, visa zelar por uma “defesa da Civilização Cristã”, fez pressão sobre o Papa Francisco. A instituição, que tem sede em São Paulo e que dá suporte intelectual a católicos por todo território nacional, lançou um abaixo assinado que foi encaminhado ao Sumo Pontífice. 
Trata-se de uma coleta de assinaturas – em vista do próximo Sínodo sobre a Família, que ocorrerá em outubro de 2015 – a ser enviada ao Papa Francisco solicitando uma palavra esclarecedora para superar a crescente confusão entre os fiéis, causada pelas informações veiculadas por ocasião do último Sínodo, sobre a “possibilidade de que se tenha aberto no seio da Igreja uma brecha que permite a aceitação do adultério – mediante a admissão à Eucaristia de casais divorciados recasados civilmente –, e até mesmo uma virtual aceitação das próprias uniões homossexuais, práticas essas condenadas categoricamente como contrárias à Lei divina e natural
 Segue o link do documento na íntegra.

Mais adiante, em 2019, o mesmo grupo se envolve no enfrentamento ao Sínodo da Amazônia, encontro de religiosos católicos com o Papa, que discute o papel da Igreja em relação a questões ambientais no Brasil. o documento de trinta páginas discute, entre outros pontos, seu papel missionário, defendendo por exemplo a ideia de uma “Igreja samaritana, misericordiosa, solidária (...) em diálogo ecumênico, inter-religioso e cultural”. 

Para o Papa Francisco a missão da igreja é o ser humano. foto: O Globo
Em documento enviado ao encontro, o IPCO entende que o mesmo se destina a uma “utopia comunotribalista pela qual uma minoria de antropólogos neomarxistas pretende manter nossos irmãos indígenas no subdesenvolvimento, confinando-os num gueto étnico-cultural, verdadeiros ‘zoológicos humanos”
Vale observar que simultaneamente, ocorria um encontro no hotel Quirinale, em Roma, com aproximadamente 200 pessoas, com a participação palestrantes expoentes do catolicismo conservador, incluindo o deputado Eduardo Bolsonaro. A tônica desse encontro foi a busca por estratégias capazes de barrar o que o IPCO chamam de “esquerdização da igreja”. Em matéria de 11/10/19, o Blog da Cidadania traz parte de um documento expedido pela instituição, afirmando que o zelo daquele coletivo não se dá no sentido de criar cisão na igreja,  “Mas de trabalhar para que não haja excessos, distorções e perversões da fé católica de 2.000 anos”, como se fosse possível cristalizar a sociedade em suas forma diversas, durante tanto tempo.

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Referências: 
BURKE, Peter. A Fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994;
Maria do Carmo Parente Santos. LUÍS VI E SUGER As relações de poder entre a Igreja e o Estado francês no séc. XII. disponível em: http://dx.doi.org/10.15448/1984-6746.1995.159.35991