quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

ESTRANHO “MUNDO DO TRABALHO” NO BRASIL DE HOJE


O ESTRANHO “MUNDO DO TRABALHO” NO BRASIL DE HOJE

“O meu patrão sou eu mesmo!”

Essa frase é antiga. Porém, tem conotações distintas na história do trabalhador brasileiro.

O site oficial do Senado Federal, em texto publicado hoje, (28 de junho de 2019), informa que a  Medida Provisória 873/2019   expirou, tendo em vista o tempo legal para tramitação e devidos encaminhamentos nas duas Casas Legislativas.  O texto da MP preconizava que estariam barrados os descontos do Imposto Sindical em folha de pagamento do trabalhador formal, no valor referente a um dia trabalhado, por ano. O fim da vigência desse dispositivo governamental não chega ser uma vitória para o trabalhador mas, sem dúvida, é uma derrota para o governo Bolsonaro, que tem reafirmado a cada dia seu compromisso com um modelo de Estado Liberal, onde as contrapartidas sociais estão longe de ser prioridade do governo. Fatalmente, o mundo do trabalho é o alvo fundamental das políticas públicas implementadas, sobretudo desde que Temer assume a presidência do Brasil, dedicando esforço intensivo a Reforma trabalhista, do mesmo modo como o atual governo prioriza, de forma acalorada, a Reforma da Previdência, sob resistência de uma camada importante de formadores de opinião.

Se considerarmos que essa queda de braço entre direitos trabalhador e interesses do empregador  pode ser demarcada pelo menos a partir do governo Collor, a quem atribuo o primeiro lampejo neo-liberal no Brasil, veremos que uma estrutura  hegemônica se estabeleceu. Estrutura essa capaz de incutir na cabeça do trabalhador contemporâneo a naturalização dessa crescente perda de direitos, o que justifica o estabelecimento de uma cultura empreendedora, em detrimento das formas coletivas do articulação de trabalhadores.

O fato é que algumas profissões já nascem com características autônomas, como o caso do artesão, que exerce suas práticas de forma criativa e única, muitas vezes utilizando tecnologia desenvolvida pelo mesmo. Outras, como o técnico de informática, palestrantes, ou o personal treiner, são profissões contemporâneas que possibilitam ao trabalhador estabelecer as próprias regras na geração de renda pessoal.
Grupo "SIPATSHOW": palestras com o uso de linguagem artística em empresas

No entanto, o modo de produção ou prestação de serviço que deveria se caracterizar pelo vínculo temporário, hoje se tornou pré-requisito para contratação permanente, por parte de empresas no Brasil, com o uso do chamado pejotismo. Esse método de contratação de terceiros via pessoa jurídica tem sido Método adotado para flexibilização de vínculo empregatício, eximindo a empresa contratante de encargos previstos na legislação trabalhista.

O modelo Pessoa Jurídica de vínculo nasce com a função de possibilitar prestação temporária de serviço, considerando que muitas empresas, por seu perfil operacional, não possui em seu quadro funcional alguns profissionais em áreas específicas. Nesse caso, o vínculo contratual ou via CLT levaria a tal empresa à um vínculo desnecessário com determinado trabalhador.
Bom exemplo disso é que:

Para efeitos de comparação entre as duas modalidades de contratação, em 1994, na virada do Plano Real, um analista de sistemas sênior celetista que ganhava, em média, R$ 2.000,00, era contratado como pessoa jurídica por aproximadamente R$ 23,00 por hora, aproximadamente R$ 4.000,00. Desta forma, podemos observar que há nítida vantagem financeira na modalidade PJ em relação à celetista, fazendo com que este fenômeno se tornasse cada vez mais popular na área de tecnologia da informação (MARTINS, 2013, p.8).

No entanto, vemos exemplos atuais que demonstram o uso de um truque no que se refere à contratação de trabalhadores, com a utilização desse mecanismo. Em matéria do site G1, publicado no dia 09 de janeiro, vemos que a Secretara de saúde de Aracajú fez uso desse dispositivo para contratar médicos para atuarem em Unidade de Pronto Atendimento-UPA. Por ser uma modalidade que se caracteriza pelo vínculo temporário e autônomo em relação prestador de serviço e o contratante, notamos nesse caso que a finalidade é eximir a prefeitura de responsabilidades quando ao servidor público.

Trabalhadores de Aracaju cobrando direitos:site G1 em 09/01/2019

O Art. 3º da CLT deixa bem claro que “Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário.” Ou seja, se existe plantão continuado e salário pré-estabelecido também com rotina mensal, está caracterizado o vínculo empregatício. Logo, o modelo PJ não deveria ser utilizado nesses casos.

Em se tratando de prestação de serviço entre empresas, o trabalhador PJ tem a possibilidade inclusive de aumentar significativamente sua renda, como já comentamos anteriormente. No entanto, tem sido muito comum o uso desse tipo de artifício nas estruturas públicas, sobretudo nas prefeituras. 

A contratação de cooperativas, por exemplo, fui um mecanismo amplamente utilizado na Baixada fluminense, em particular na Prefeitura de Mesquita, onde até três cooperativas operaram simultaneamente na contratação de “prestadores de serviço”. No entanto os vínculos trabalhistas eram claros, vide o grande número de ações na justiça que deram ganho de causa aos trabalhadores desvinculados à critério do gestor da pasta e não da cooperativa à qual esse trabalhador estivesse ligado (COSTA, 2018)

De igual modo, a iniciativa privada tem feito uso desses mecanismos, sendo esse grupo de empregadores, na verdade, os que vêm alavancando a precarização das relações trabalhistas ao longo de décadas. O que ocorre é que algumas profissões não exercem necessariamente atividades informais. No entanto, existe uma tradição de vínculo menos rígidos entre algumas categorias profissionais, como é o caso de artistas e produtores culturais.

Ao observarmos as formas de vínculo empregatício entre produtores ou agente culturais diversos e as instituições privadas, vemos uma tendência à informalidade ou inexistência de vínculo trabalhista, considerando às formas precárias de contratação de agentes culturais. Bom exemplo a ser observado diz respeito sistema Fecomércio RJ, em particular o SESC RJ e sua atuação no estado do Rio de Janeiro.

Com um pouco mais de 50 anos realizando atividades artísticas e culturais interna e externamente às suas dependências, nos últimos 15 anos o SESC vem adotando uso de vínculos precários de trabalho, desde que Orlando Diniz, hoje denunciado por corrupção pela operação Lava Jato, tornou-se Presidente daquela instituição e Arauto da precarização dos vínculos de trabalho dentro dessa instituição patronal. Os primeiros contratos de trabalho do SESC RJ via CLT passam na última década a condição de contrato temporário de trabalho chegando ao pejotismo, quando os trabalhadores são contratados via pessoa jurídica, através do sistema de microempreendedor individual - MEI, não criando assim ônus algum a instituição, no tocante a seu quadro funcional.

Como exemplo disso vemos que o SESC/RJ lançou em 23 de março de 2018 seu edital 01/2018, para fins de “credenciamento de pessoa física e microempreendedor individual para prestação de serviço técnicos em atividades finalísticas nas unidades operacionais do SESC/ARRJ no Estado do Rio de Janeiro – instrutor, monitor e oficineiro”. Esse edital marca a retomada das atividades artísticas e arte-educativas do SESC/RJ, após a prisão de Orlando Diniz, ex-presidente do Sistema FECOMÉRCIO, pela Força Tarefa Lava-Jato no estado fluminense. O que vemos é que Diniz se utilizada desse tipo de vínculo precário inclusive para beneficiar financeiramente o grupo ao qual, a Lava-Jato lhe atribuía vínculo.


Diniz é acusado de contratar funcionários de forma fraudulenta: imagem RJTV 23/02/2018
Ocorre que até mesmo os mais aguerridos movimentos culturais trazem no conjunto de suas lutas algumas reivindicações nas quais excluem questões relacionadas aos vínculos precários de trabalho. Fato que nos dá o entendimento de que as estruturas tradicionais de poder financeiro vêm conseguindo implementar e consolidar na sociedade tanto o modelo de estado mínimo quanto os meios mais incisivos de precarização nas relações de trabalho e geração de renda no estado do Rio de Janeiro.

Nesse contexto vemos que trabalhadores pertencentes à classe artística têm se mostrado dispostos a abrir mão de direitos históricos em favor da garantia da geração de renda. Cabe observar que esse fenômeno se dá mesmo entre trabalhadores que apresentam bom nível de informação quando as desigualdades sociais e as interferências, visando implementar e consolidar a flexibilização das leis trabalhistas.

Estamos em um novo ano, com um novo governo no Brasil. Temos notícias de diversas articulações que visam passar do processo de flexibilização dos vínculos trabalhistas à efetiva precarização das relações de trabalho. Há em nosso país hoje uma cortina de legalismo e moralidade encobrindo intenções muito mais sérias. Intenções essas que tem o trabalhador como alvo, sobretudo aquele que apresenta alguma capacidade de aglutinação e mobilização de classe. 

Nesse caso nós, trabalhadores, vivemos em um ambiente no qual uma nova cultura, com seus código e valores, se estabelece. Para além disso,

A cultura do trabalho pode também ser definida pela forma como se constroem os valores de um conjunto de trabalhadores diante da sociedade. Valores esses que os indivíduos aprendem então a criar e reproduzir, a partir de uma realidade que lhes é oferecida, interferindo em seu meio a partir da mesma lógica de criação e reprodução (COSTA, 2018, p.52).

Torna-se fundamental então ver o trabalho como elemento humanizador da sociedade e não apenas como mecanismo de geração de renda. Abrir mão à fragmentação dos trabalhadores enquanto um conjunto de pessoas que produzem e vivem do trabalho é trazer para dentro de nossas casas esse ideário de individualismo e impessoalidade.Ou seja, é investir no desenvolvimento de uma consciência do papel de cada profissional, diante do conjunto dos trabalhadores à nossa volta, para a qualidade de vida, bem antes de ser um fator de geração de riqueza à quem emprega e mera forma de levantar recurso para pagar as despesas.  É importante então estar ciente de que tem se estabelecido uma nova cultura do trabalho, que impõe agora regras políticas/partidárias, morais e éticas, associadas às já consolidadas justificativas econômicas para a flexibilização das relações de trabalho no Brasil. 

Por fim, fica a reflexão de que, diferente do anseio de ser dono de si e de sua produção, o trabalhador tem vivido uma condição de “estranhamento” (OLIVEIRA, 2010). Ou seja, mesmo ciente de sua capacidade técnica e qualificação profissional, é o empregador quem define o grau de competência para exercício da atividade para qual esse trabalhador se qualificou, bem como o valor financeiro desse trabalho. Esse estranhamento então surgem a partir do entendimento que, mesmo sendo a mão do trabalhador a que produz riqueza, o que lhe é dado de retorno não condiz com o nível de esforço empenhado, gerando assim conflitos internos e externos em quem de fato produz riqueza.

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Referências:

COSTA, Ivan José Machado da. Cultura do trabalho: histórico de lutas e a atuação de agentes de combate a endemias no município de Mesquita-RJ. 2018, 120 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional em Saúde) - Fundação Oswaldo Cruz. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Rio de Janeiro, 2018.

MARTINS, Edney Sabioni. A Modernização das Relações de Trabalho no Âmbito da Prestação de Serviços na Área de Tecnologia da Informação. apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharelado em Direito da Universidade Católica de Brasília, no primeiro semestre do ano de 2013. 


OLIVEIRA, R.A. A Concepção de Trabalho na Filosofia do Jovem Marx e suas Implicações Antropológicas. Kínesis, v. 2, n. 3, abr. 2010, p. 72-88.

SIPATSHOW. Grupo teatral. Link:
https://sipatshow.com.br/quem-somos.html

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Em defesa da permanência do Ministério da Cultura


CARTA ABERTA FICA MINC:
Em defesa da permanência do Ministério da Cultura


O Fórum de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura do Brasil lançou ontem uma carta aberta, manifestando a preocupação e o repúdio de gestores e agentes culturais ao anúncio de extinção do Ministério da Cultura - MinC.

Existem várias justificativas para a pleito de agentes culturais e artistas brasileiros, em prol da permanência do Ministério da Cultura. No entanto, deixo aqui um brave texto relacionado ao montante de recursos movimentado pelos trabalhadores da Cultura, resumindo parte da Carta Aberta Fica MinC, disponível no link logo após o texto:

"A Cultura não pode e nem deve ser considerada um bem menor para uma Nação. Ela é constitutiva da identidade nacional e da preservação de sua história e suas raízes. Cultura é educação, aprendizagem, crenças, música, poesia, nossos costumes e hábitos, é a totalidade que abrange o comportamento individual e coletivo de uma nação.O PIB da economia criativa do mundo cresceu 8.6% por ano de 2003 a 2012, enquanto o resto dos setores estagnou em 2.1%. A oferta de atividades culturais em espaços de base comunitária reduzem 1/3 da violência e abre novas portas para a juventude.

O simples fato de transformar a cultura numa secretaria dentro de um outro ministério, coloca correnteza abaixo todas as conquistas do povo brasileiro.

Por isso que nós, Artistas, produtores culturais, esperamos sensibilizar o novo presidente eleito para que reconheça o bem cultural desse país e a importância do valor imaterial e histórico da Cultura e de se manter o nosso MinC com status de Ministério. Sendo assim estará mantendo a história viva de um povo."


(texto extraído da página do ator Paulo Betti, no Facebook)

Baixe aqui a íntegra da Carta Aberta Fica MinC:

#ficaminc
#nãoaodesmontedacultura

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

ALMIR COMEMORA ZUMBI 2ª EDIÇÃO



Seu Almir, dono do bar e incentivador do evento
O evento “Almir Comemora Zumbi” é um encontro de militantes do movimento negro,  artistas, produtores e agentes culturais da Baixada Fluminense, em celebração pelo Dia da Consciência Negra, que nessa segunda edição foi realizado no dia 20 de novembro, último dia do feriadão.

Os Coletivos Gestar, Caldo de Cultura, Centro de Cultura Popular da Baixada Fluminense, Fulanas de Tal e CEAP, além de aproximadamente cem pessoas, se encontraram no Bar do Almir, comerciante negro, cujos pais trabalharam nos laranjais iguaçuanos. Esses coletivos convidam a população em geral para fazer desse evento um marco na Região, focando na história e memória da população negra que sempre compôs a força de trabalho que gera desde sempre a riqueza de nosso estado fluminense.

Assim, retratar um pouco da história e da cultura que envolve o antigo Recôncavo da Guanabara é o principal objetivo desses amigos e admiradores de nossa cultura, retratada não pelos tradicionais “vultos históricos”, mas a partir de seu povo trabalhador e criativo, que encontrou um lugar de acolhimento em Nova Iguaçu, cidade que consideramos como “Cidade-Mãe da Baixada Fluminense”, desde antes das primeiras emancipações na década de 40 do Século XX.
Pinga, compositor de Bezerra da Silva, nos emocionou


O Bar do Almir, que tem cinquenta anos de tradição, fica na Rua Ione Torres Ennes, 86- Centro, Nova Iguaçu e o evento. que tem entrada franca, teve início às 11 horas. Na ocasião foi servida uma deliciosa feijoada no valor de R$ 20,00. Na versão do ano anterior o encontro contou com cerca de cem participantes, número esse que deve ser superado nessa edição.

Ewerson do Caldo de Cultura, com Geisa Ketti e seu neto Pedro
A programação contou com exibição de curta metragem, poesia, esquetes teatrais, roda de samba, exposições de arte, lançamento de livros e, para a criançada, brincadeiras infantis, contação de história e pipoca. Ainda que o evento conte com animadores e artistas voluntários, é importante observar que o cuidado com as crianças contou com a exclusiva responsabilidade dos pais.

As pessoas interessadas em ter maiores informações sobre nosso encontro, podem fazer sua reservas antecipadas com a produção evento através do watssap: 21 97980-9001.


Equipe de produção e alguns dos artistas convidados



sábado, 3 de fevereiro de 2018

4ª CONFERÊNCIA ESTADUAL DE CULTURA - RJ


Ivan Machado - Presidente do CEPC

Esse é um momento de consolidação de crise e incertezas no campo da política, no estado do Rio de Janeiro.  Em um momento ímpar de convergência, sociedade civil, representada pelo Conselho Estadual de Politica Cultural - RJ, juntamente com a Secretaria de Estado de Cultura, fazem história, andando de mãos dadas, para viabilizar de forma exemplar o que a democracia determina.
Segue abaixo texto produzido por Cleise Campos (Superintendente de Políticas Culturais da SEC-RJ), em relação ao que representa e o que devemos esperar da 4ªCEC-RJ
  
O Estado do Rio de Janeiro aprovou em 2015 a sua Lei de Cultura, garantindo a implantação  do Sistema Estadual de Cultura RJ (Lei 7035/2015), com notada mudança no âmbito das políticas culturais, agregando os 92 municípios em prol da cultura fluminense. Dentre as peças integrantes do Sistema Estadual de Cultura do RJ (SIEC RJ), localizam-se as Conferências municipais, intermunicipais, regionais e a estadual de cultura. 
Cleise Campos e Ivan Machado - logomarca da 4ªCEC-RJ
As Conferências são espaços destinados ao encontro da sociedade civil e poder público, com o objetivo de debater e propor políticas, com programas a serem aplicados. É fundamental espaço para avaliação  das políticas públicas, considerando o que foi implementado para gerar novas ações. A 4ª Conferência Estadual de Cultura do RJ é momento  de consolidação da política cultural vigente, com interação dos protagonistas do setor, onde se “confere” o que foi realizado, projetando o que virá, e ainda, a eleição de delegados para etapa Nacional.
 As propostas em discussão na 4ª CEC RJ tem um peso relevante no cumprimento do Plano Estadual de Cultura do RJ, aprovado como anexo único da Lei 7035/2015, em especial, o acompanhamento das metas e ações no  conjunto de diretrizes e estratégias distribuídas nos seis eixos temáticos. Também em pauta a apreciação dos Planos Setoriais dos Segmentos Artísticos e dos Planos Regionais, outras peças integrantes do SIEC RJ.
 Com a convocação da 4ª Conferência Estadual de Cultura publicada recentemente no Diário Oficial do ERJ, os municípios que realizam  suas conferências municipais devem estar em sintonia  com o  Sistema Estadual de Cultura do RJ (SIEC RJ), dialogando com  o tema e sub temas da etapa estadual e nacional. A Secretaria de Estado de Cultura do RJ (SEC RJ) disponibiliza nos próximos dias um manual com passo a passo para auxiliar  na realização das conferências municipais, importante iniciativa de algumas cidades na realização dos seus encontros locais. 
 Nesse calendário valoroso de conferências, em articulação direta com o Sistema Nacional de Cultura, cabe bem resguardar atenção ao chamado “CPF da Cultura”, em referência a instalação e funcionamento do Conselho, Plano e Fundo de Cultura, fortalecendo uma dinâmica sistêmica das políticas culturais em todo Estado e no Brasil.
 As etapas regionais nos meses de fevereiro, março, abril e maio além da etapa final da 4ª CEC RJ de 2018, nos dias 01 e 02 de junho, sob coordenação da SEC RJ, envolvem vários parceiros, com destaque para Entidades Culturais, Movimentos de Cultura, Artistas, Produtores e Animadores Culturais, Arte Educadores, Pesquisadores, Instituições de Ensino, Conselho Estadual de Política Cultural do Rio de Janeiro (CEPC RJ), Prefeituras e Ministério da Cultura. 
 Para mais informações sobre as conferências, e ainda, conhecer em  detalhes o funcionamento do Sistema Estadual de Cultura do RJ, suas outras peças integrantes e demais instrumentos de gestão (Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura do RJ e o Programa Estadual de Formação e Qualificação Cultural do RJ), acesse o portal Cultura.RJ
 Desânimo com a política Brasil? Alto grau de desestimulo com o ano eleitoral? Compreensivo. Bastante compreensivo (às vezes cansa de muito). 
Mas ainda assim, uma ponderação: Atravessamos nos recentes anos positivo  momento de transformação na política cultural fluminense, a partir da aprovação da Lei 7035/2015. Tal momento pode ser ainda mais ampliado, uma vez apropriada a Lei de Estado de Cultura RJ - Garantia de mais acesso as artes e aos bens culturais para tod@s, onde a cultura se configura como vetor fundamental de desenvolvimento, em boa composição com o exercício da cidadania. Cultura é direito.

Participe da 4ª CEC RJ: Vamos conferir? 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

CEPC: Novos e antigos rumos para a Cultura no Estado do Rio de Janeiro



No dia 31 de outubro de 2017 foi eleita a nova presidência do Conselho Estadual
de Políticas Culturais, tendo Ivan Machado como residente e Geiza Ketti como vice-presidente. Em uma eleição realizada entre seus membros, o CEPC elegeu a Chapa 2 com maioria de votos,  com posse festiva realizada no Cultural Bar (Nova Iguaçu), no dia 14 de novembro, de modo a manter uma aproximação entre gestores públicos de cultura e sua base social, além de configurar um tipo de relatório de gestão do primeiro período, quando o governo ocupava a presidência do Conselho, na pessoa da artista bonequeira e professora Cleise Campos. Na ocasião foi também entregue o prêmio Música.com a Rogério Costa, por fomentar a fruição da obra musical de compositores de dentro e fora da Região da Baixada fluminense. Nesse dia 14 esteve presente o então Secretário de Estado de Cultura André Lazaroni, além de Zaqueu Teixeira, Presidente a Comissão de Cultura da ALERJ.

Geiza Ketti ao lado de Ivan Machado, tendo Lazaroni ao fundo (foto: Jorge Ferreira)

 Conforme previsto em seu Regimento Interno, o CEPC inicia a segunda metade do biênio 2016-2018 tendo a sociedade civil à frente da mesa diretora, exatamente no momento em que se iniciam as movimentações na direção da realização da 4ª Conferência Estadual de Cultura. Desde 2015, quando foi publicada a Lei 7035/15, que versa sobre o Sistema Estadual de Cultura, muito se avançou em relação a consolidação de questões relacionadas ao SIEC. No entanto, o entendimento do CEPC é que o ano de 2017 trouxe importantes avanços para o conjunto de  marcos regulatórios da Cultura. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

A ordem no caos de Bispo do Rosário

A ORDEM NO CAOS DE BISPO DO ROSÁRIO

Por Ivan Machado

“A obra de arte  está irremediavelmente atada à vida”
Frederico Moraes

Sergipano, nascido em 06 de janeiro de 1909, Manoel Bispo do Rosário viveu
durante cinquenta anos na colônia Juliano Moreira, para onde foi transferido em 1939. Com diagnóstico de esquizofrenia de paranoia, Bispo do Rosário passou sete anos trancado voluntariamente em sua cela, onde afirmava ter recebido uma mensagem divina na qual dizia que deveria se preparar para o fim do mundo. Nesse período, uma extraordinária quantidade de peças artísticas foram produzidas, despertando o interesse de um grande número de críticos de arte contemporânea, embevecidos por seu magnífico trabalho cheio de detalhes. Em 1980, durante uma matéria do fantástico abordando a questão das péssimas condições de vida nos manicômios, Bispo do Rosário foi descoberto, trazendo ao restante do mundo a grandiosidade de um artista em seu mundo de caos (veja a matéria no link).

A grande maioria de suas obras são seriadas, suscitando questionamentos quanto às motivações dessa prática. Se por um lado se atribui que o transtorno obsessivo compulsivo pode ter gerado ideias repetitivas, por outro lado, cabe lembrar que Bispo foi marinheiro, com uma rotina repetitiva, como de praxe da profissão. Também por esse motivo ultimo, é possível entender seu nível de conhecimento geral, tendo em vista as constantes viagens que fazia pela Marinha do Brasil, o que se reflete nos fardões por ele confeccionados, sem uso de matéria prima especificamente adquirida para esse fim, dando lugar a fios retirados dos uniformes dos internos, daí o constante tom de azul em muitas de suas obras, sobretudo as de tapeçaria.

Não somente os bordados, mas um grande número de esculturas e instalações foram produzidos por Bispo, que teve sua sela transformada em um verdadeiro espaço de exposição, haja visto que foram produzidas ali praticamente todas as suas obras. Nesse sentido, Bispo do Rosário era diferenciado, no sentido de impor seu lugar e expressar sua arte em meio às adversidades, o que lhe serviu como uma forma muito particular de emancipação.  Segundo Flávia Corpas, a arte possibilita repensar a relação entre sujeito e objeto, no sentido que a arte o fez re-significar seu lugar, dando-lhe novo sentido, de tal modo que Bispo tinha a chave de sua sela.

Falecido em 05 de julho de 1989, Artur Bispo do Rosário não teve sua obra ligada à loucura, mas como expressão da re-significação do objeto no espaço. Psiquiatras que lidam com a arte descreveram seu trabalho como a obra de um homem, acometido de diversidades como qualquer outros, seja ele desempregado, deficiente físico ou cego. O fato é que Bispo do Rosário encontrou na arte o caminho de sua libertação interior, de tal modo que o Museu bispo do Rosário é o único no mundo instalado em uma instituição para doentes mentais, aberta à admiração publica.


A Roda da Fortuna de Bispo
A forma como Bispo do Rosário se expressava era a mais pura forma de composição artística. Não é incomum que sejam feitas comparações com outros conceituados nomes da arte contemporânea, como o que ocorre com a obra acima. Ainda que existam similaridades com a obra modernista de 1913 de Marcel Duchamp, cabe lembrar que a obras de Bispo foram elaboradas com a utilização de materiais reaproveitados do interior do espaço de seu internato. A genialidade que emerge de seu subconsciente intriga e encanta acadêmicos que se deparam com seu fazer artístico, como vemos no relato de Alfred Braga:

É claro que a simples justaposição das fotografias da Roda da Fortuna, de Bispo do Rosário, e da Roda de Bicicleta, de Marcel Duchamp, não autoriza ninguém a teorizar sobre semelhanças, nem sobre coincidências significativas, ou arquétipos, ou inconsciente coletivo. Mas, talvez nas enormes distâncias entre esses dois artistas é que repouse uma esquisita proximidade que vai provocar, naqueles eruditos, o susto, e disparar o paralisante pudor acadêmico[2]

Roda de bicicleta de Marcel Duchamp

Ainda que imerso na loucura, nota-se claramente seu senso estético e sua noção de equilíbrio, de modo que os elementos constitutivos da obra expressam coerência e dão sentido à percepção dos olhares mais atentos. Na comparação das duas obras vemos duas intenções bem distintas. Enquanto Duchamp se propõe a transformar um objeto em carte, de forma estética e representativa, Vemos que Bispo faz com que a expressão de seu subconsciente se materialize artisticamente, cabendo aos olhares treinados enquadrá-los na categoria de artista contemporâneo.                                                            




[1] Referências:
- CORPAS, Flavia, “Artur Bispo do Rosário: A arte além da  loucura”, Nau Editora, Rio de Janeiro, 2013
- Fotos: João Liberto e Rodrigo Lopes in Catálogo da exposição “Artur Bispo do Rosário Século XX”
[2] BRAGA, Alfredo, extraído de: http://www.alfredo-braga.pro.br/ensaios/reinvencao.html



segunda-feira, 13 de julho de 2015

OS NOVOS DA FOLIA


Crianças acompanham a Folia Sete estrela do Rosário de Maria-Mesquita,RJ 

D. Preta e Mestre Juninho: 
gerações extremas de mestres de Folia
Os jovens são a garantia de futuro das Folias de Reis. No entanto hoje os critérios de adesão são diferentes de como eram há décadas, quando as crianças participavam durante determinado tempo em cumprimento de alguma promessa feita por seus pais ou até mesmo tradição familiar. Entre os palhaços das folias, a crença era que deveriam participar durante sete anos no mínimo, o que naturalmente mudou, sobretudo a partir da ausência dos mais antigos e as práticas aplicadas pelos novo mestres do reisado, como Mestre Juninho, da Jornada "A Brilhante Estrela Dalva". Ele que é também artesão fazedor de máscaras, morador da Baixada Fluminense, agora está à frente de sua bandeira, que parte do bairro da Penha-RJ

A figura do palhaço é a que exerce maior atração sobre os meninos. Sobretudo hoje quando não se leva tanto em consideração a crença de que, quem não veste o palhaço durante sete anos seguido, pode ser acometido de algo fatal, vemos que há uma maior permissividade por parte dos pais em relação à participação dos pequenos entre esses foliões. Sobretudo no que se refere à crença formação familiar, notamos que, entre os palhaços é comum ver jovens que demonstram sua fé através de religiões de matriz africana. Sobretudo esse aspecto da quebra da hegemonia religiosa cristã pode, inclusive, ser entendido como maior avanço. em se tratando das tradições familiares dos foliões que, historicamente, professaram a fé cristã.
Palhaço descansando: Menino com guia de Obaluaê 

Em relação às meninas, quando muito pequenas, em sua maioria integram um pequeno grupo de anjos, que é postada diante do cortejo, enquanto na bateria, meninas maiores iniciantes tocam os instrumentos mais leves como caixa, chocalho e cavaquinho, o que não impede que as mais resistentes toquem instrumentos mais pesados, como bumbo. Hoje é possível ver, sobretudo na região Metropolitana do Rio, algumas meninas na função de "produtoras" das folias, responsáveis por administrar páginas e contatos via Watssap. 


No que se refere aos adolescentes à distribuição é um pouco mais homogênea. No entanto, vemos que na Região da Baixada Fluminense as performances dos palhaços são calcadas em acrobacias e danças que em muito lembram o chamado “Passinho”, dança ligada à cultura funk. Quanto estética pessoal, a vaidade é algo muito comum. Integrando a bateria ou conduzindo a bandeira de cada Folia e até mesmo entre os rapazes, vemos uma grande preocupação da imagem pessoal nos cortejos. 
Vaidade à mostra: Brinco, sobrancelha feita e o famoso corte Talibã

Uma virtude fundamental nesse contexto é a existência de um bom número de jovens artesãos que confeccionam as mascaras e paramentos dos palhaços. Com um altíssimo potencial criativo, materiais diversos são utilizados na feitura das máscaras, haja visto que em sua grande maioria os meninos são oriundos de famílias de baixa renda, o que em nada limita a criatividade dos mesmo. Nesse caso, a limitação quanto ao acesso à matéria prima acentua o nível de qualidade, em relação aos recursos. como no exemplo de Luciano, que faz máscaras desde seus 14 anos.