domingo, 17 de julho de 2011

Do gozo a desmistificação - Um caminho para prática teatral



por Lino Rocca*


Este texto nasce a partir da leitura de uma palestra dada pelo filosofo francês de origem argelina Louis Althusser num encontro com o importantíssimo Teatro Piccolo de Milão no meados de 1969 abordando os pensamentos de Marx e Brecht e entendendo-os como exercícios de duas práticas inovadoras. Segundo ele é evidente que Marx de um lado, e Brecht, de outro, identificaram que a Filosofia e o Teatro têm profundas relações com as Ciências, de um lado, e com a Política, de outro.

Para Althusser Marx e Brecht compreenderam cada um à sua maneira, que a questão central da Filosofia e do Teatro era manter com a Política uma relação mistificada. Ambas as estruturas são fundamentalmente determinadas pela Política, e, contudo, fazem de tudo para negar essa determinação, ou melhor, para fingir que escapam dela. A Filosofia e o Teatro falam sempre para encobrir a voz da Política. E conseguem muito bem. Althusser diz: ”Elas existem apenas através dela, e ao mesmo tempo elas existem para suprimi - lá, justamente à qual elas devem sua existência”.

Para Althusser o resultado é bem conhecido: “a Filosofia passa seu tempo afirmando que não faz Política, que está acima dos conflitos políticos de classe, que se dirige a todos os homens, que fala em nome da Humanidade, sem tomar partido, ou seja, sem reconhecer o partido político que ela segue.” É o que Marx chamava de a “Filosofia que se contenta em interpretar o mundo”. Na realidade, nenhuma Filosofia se contenta em interpretar o mundo: toda filosofia é politicamente ativa, mas a maioria das filosofias passa seu tempo negando que sejam politicamente ativas. Elas dizem: nós não tomamos partido em política, nós nos contentamos em interpretar o mundo, em dizer o que ele é. E ai vale afirmação - quando alguém vem lhes dizer: “eu não faço política”, pode estar certo que esse alguém faz. É a mesma coisa com o Teatro.

Desta forma, percebe-se a Filosofia como uma produtora de objetos de consumo para um gozo especulativo, e por outro lado, percebe-se o Teatro como produtor de objetos de consumo para o gozo estético. Os filósofos acabam criando filosofias para o consumo e o gozo especulativo, os dramaturgos, e os diretores e atores, acabam criando o Teatro para o consumo e o gozo estético. A crítica da especulação-interpretação do mundo em Marx e a crítica do Teatro digestivo em Brecht são uma única e mesma coisa.

Então, Althusser afirma: “Daí deriva a revolução da prática em Marx e em Brecht. Não se trata de criar uma nova Filosofia, ou um novo Teatro. Trata-se de instaurar uma nova prática no interior delas, para que elas deixem de ser interpretação do mundo, ou seja, mistificação, e sirvam à transformação do mundo”. Portanto, o primeiro efeito dessas novas práticas é o de afirmar a destruição desta mistificação e não da Filosofia e do Teatro. É preciso então, reconduzir ambas ao seu verdadeiro lugar, para fazer aparecer essa mistificação como mistificação e, ao mesmo tempo, para mostrar a sua verdadeira função: a de transformar a Realidade e o Humano.

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Lino é um dos articuladores da cultura na Baixada Fluminense. Formado em teatro, fui Gestor de Cultura em Nova Iguaçu-RJ

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A nova família do mesmo Brasil

A família de Tasila do Amaral

O Direito Romano criou o que conhecemos e aceitamos até hoje como família. Um vínculo capaz de resguardar o direito a posse de bens aos que estão no seu seio, traz à nós algo muito mais profundo que um termo latino ("famulus" = 'domésticos, servidores, escravos...) que possibilita a seus entes garantir a permanência dos bens entre pessoas de vínculo direto, bem diferente do que vemos hoje não só entre nós brasileiros mais em muitas outras partes do mundo moderno.

Quando criança percebia a dificuldade com de minha mãe tentava se enquadrar ao conceito de família imposto pela igreja e pelo sistema legal da época, Haja visto que ela mesmo criava e sustentava sozinha os filhos. Era comum perceber que meu irmão recebia uma série de recomendações à noite, antes de todos dormirem, de maneira que ele seguisse tais normas no cuidado da casa e do irmão mais novo (eu, no caso) enquanto ela cumpria duas e à vezes três jornadas diária de trabalho, o que teve alguma amenidade com a chegada de minha avó, vinda da Bahia, quem assumiria então a função de co-gestora da família durante a semana. Era comum ouvir, durante as conversas informais com amigas, a recorrente afirmação: “você trabalha muito. precisa arranjar um marido!” Para meu orgulho, resistiu com bravura, sustentando, educando e entregando para a vida seus filhos, já devidamente preparados para isso.

Pintura de Debret retratando a hierarquia familiar do Brasil colônia

Mais de quarenta anos depois, é possível ver o Brasil ainda em conflito com sua realidade social, cultural e econômica, onde a família toma formas variadas sem que assumamos o rosto da maturidade nacional a cada vez que nos olhamos no espelho. Na semana passada, para exemplificar, deu-se aparentemente o desfecho sobre a decisão tomada pelo juiz Jeronymo Pedro Villas Boas, Juiz da 1ª Vara de Fazenda Pública de Goiânia, quando decidiu de forma arbitrária contra a união civil do casal Leo Mendes e Odílio Torres, contrariando a decisão do Supremo Tribunal de Justiça. Na ocasião, o magistrado afirmou que a União Estável fere o conceito de família previsto na Constituição Federal no § 3º do Art. 226 da Constituição Federal, que define:

É reconhecida como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família.

Todavia, existem diversos estudos que discutem o novo perfil da família moderna, que tem características diversificadas, em especial no Brasil. Um exemplo de modernização do sistema legal para adequação à realidade das relações familiares hoje é a chamada Lei Maria da Penha (da Lei nº 11.340/06). O jovem advogado mineiro João Rodholfo, considera da seguinte maneira a aplicação da referida lei nessas questões:

Embora, em alguns pontos, a sociedade continue com a mentalidade machista, o fato é que a mulher passou a exercer um papel cada vez mais ativo dentro do lar familiar; o sustento passou a ser um dever de ambos e os papeis de ativo e passivo se revezam. Isto é, ora manda o homem ora manda a mulher. No Brasil, muito já se avançou desde adoção do Estado laico. A Constituição Federal de 1988 trouxe grandes inovações ao ordenamento jurídico nacional, passando a considerar a união estável como unidade familiar entre homem e mulher ou entre qualquer um dos pais e seus descendentes. Com isso, fora dado o ponta pé inicial para a implantação do novo conceito de Família, ou seja, o casamento deixou de ser sua única fonte, dividindo esse status com outros institutos. Logo, essa seara tornou-se fértil para as discussões doutrinárias e legislativas que deram origem a várias legislações especializadas em proteger a família originada em qualquer um dos novos arranjos.

A Lei Maria da Penha respalda inclusive um dado que o IBGE já apresenta a duas décadas, que é o constante aumento de idosos que sustentam suas famílias. Os números são de maneira notória mais altos nas camadas mais baixas da população. Porém, se refletem em todas as demais. Em 2991, 4,3 milhões de idosos se enquadravam nessa caso, subindo para 6,4 em 2005, configurando um aumento de cerca de 50% em menos de quinze anos. O senso 2000 mostra que o número de netos e bisnetos que moram com os avós, subiu para 52,4% em relação a pesquisa anterior. Um outro nicho de onde é possível perceber a atual realidade nacional está contido nos indicadores sociais do Programa Bolsa Família, que corrobora tanto o fato quanto os números, ainda mais acentuados no Nordeste do Brasil, onde a porcentagem chega a quase 80%.

O Programa Bolsa Família - Gestão matriarcal

Uma outra questão, retomando a primeira abordagem feita aqui, é a religiosa. Desde o vínculo da igreja com o Estado, herdado do modelo romano, temos a figura do pai não apenas como personagem principal mas também o filho como a única figura capaz de formar uma nova família quando adulto, relegando a filha a condição de membro de uma outra quando casada. Ainda é atribuído a Deus a imposição de uma união que deve ser heterogênea. Logo, no campo do divino não há discussão e não há união “abençoada” sem o aval da igreja, o que coloca qualquer configuração familiar à margem da sociedade e não apenas a atual união estável entre Mendes e Odilon em Goiás.

União Estável - fato que rebe mais atenção que outras

Lulu Santos e Nelson Mota proferiram um verdadeiro resumo das relações inter pessoais e da cultura quando cantam “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Eu gostaria muito de assistir Os Herculoides na TV aos domingos a tarde, devido a mesmice televisiva dos canais abertos. No entanto, sei que a prioridade da mídia é outra nos dias de hoje. Sei que tudo muda o tempo todo no mundo e não é minha vontade minha vontade de assistir bons desenhos animados com ótimas trilhas sonoras o que vai fazer o mundo ficar do meu jeito, só pra me agradar. Agora, observando bem, me lembro que até mesmo o bom e velho desenho animado refletia aquele formato padrão de família unida, o que de fato não nos pertence mais. E na verdade, seremos menos doentes se não pensarmos em acomodar o mundo ao nosso bel prazer.


Os Herculoides - reprodução do padrão de família nos anos 70

O mandachuva - Exemplo "engraçado" de relação familiar - sempre sob suspeita
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Fontes: Constituição Federal,
Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), IBGE, Cartilha Programa Fome Zero, Rodholfo, João - Direito de Família - nalei.com.br

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Folia de Reis Sete Estrelas do Rosário de Maria de D. Mariana indicada a Prêmio

No dia 03 de outubro de 2010, quarta-feira, faleceu nosso maior símbolo da Cultura Popular na Baixada Fluminense. Essa moradora de Mesquita ajudou a elevar o nome de nossa cidade, sem receber retorno algum. Apenas em prol da louvação e da fé, tão presente nas jornadas da folia Sete Estrela do Rosário de Maria que, ao longo desses 140 anos de atividades, teve em D. Maria Ana sua maior defensora.

Sua benção, D. Mariana!


Foto publicada no livro FOLIAS DE REIS FLUMINENSES - Peregrinos do sagrado, publicado pela Secretaria de Estado de Cultura

A Folia de Reis sete Estrelas do Rosário de Maria, da Mestra Maria Anna, moradora do bairro Chatuba em Mesquita, está concorrendo ao Prêmio de Cultura do Estado do Rio de Janeiro na categoria Patrimônio Imaterial.
A folia de dona Mariana (como é mais conhecida) concorre na com outros dois grupos. Confira os demais concorrentes e demais categorias no link abaixo:
A cerimônia de premiação será no dia 29 de junho, no Theatro Municipal
A Folia Sete Estrelas do Rosário de Maria promove um dos maiores e mais emocionantes encontros de Cultura Popular do estado do Rio de Janeiro, em atividade há 144 anos.
Uma matéria mais ampla foi postada aqui no meu blog, no início do ano, enfocando a festa de arremate dela. Confira no link:

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Empresas de telecomunicação e telefonia contra ao Plano Nacional de Banda Larga

Rogério Santanna, do Planejamento à frustração na TELEBRAS

No dia 01 de junho foi veiculada na mídia a controvertida situação de Rogério Santanna, destituído da Presidência da TELEBRAS pelo Conselho Gestor daquela estatal após um ano de atuação no Setor, para o qual foi designado exatamente para implementar o Plano Nacional de Banda Larga.

O PNBL, em vigor desde o final de 2009, foi elaborado com a finalidade de regular e popularizar o acesso a internet de alta velocidade, sobretudo às comunidade atendidas precariamente, tendo como meta um total de 40 milhões de domicílios até 2014.

Segundo Santanna “teremos 500 cidades digitais até 2014 e isso somente será possível com a ajuda da iniciativa privada”. Infelizmente é aí que se inicia a odisséia. A TELEBRAS foi ressuscitada por Lula com a finalidade de dar peso institucional para o avanço na área de transmissão de dados em alta velocidade. Todavia, os interesses do mercado andam na contramão da evolução tecnológica voltada para o bem do cidadão comum. Sobretudo quando a geração de renda, que é a verdadeira Razão Social da grande maioria delas, é ameaçada. Lula admitiu ainda em 2010 que ficaria inviável uma a execução do Plano ainda naquele ano, devido a uma série de articulações que se fazia necessária, "As empresas não farão concessão se não houver pressão. Se acharem que o governo é um leão sem dentes, não farão nada" atacou Santanna quando percebeu o corpo mole das empresas, resistindo à execução do PNBL.

É notório o descaso com que as empresas de telefonia e de tecnologia em geral lidam com o mercado. Tomando como exemplo a antiga abordagem quanto a Baixada Fluminense e interior do Estado do Rio de Janeiro, invariavelmente somos qualificados como “mercado pouco rentável”, não justificando os investimentos para atender a demanda. Cabe a nós exercer nosso direito de pressão na direção contrária à que fazem conosco.

Segue abaixo o link para baixar e consultar o PNBL:

http://www.mc.gov.br/images/pnbl/o-brasil-em-alta-velocidade1.pdf

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Fonte: Ministério das Comunicações, G1 e Carta Capital

sábado, 14 de maio de 2011

JOÃO CÂNDIDO E OS 100 ANOS DA REVOLTA DA CHIBATA

OS ACONTECIMENTOS no Rio. 
O Comercio de Campinas. 
Campinas (SP), n.3115, 26 nov. 1910. Capa. (APESP)




João Cândido, o "Almirante Negro"

A SUPIR (Superintendência de Igualdade Racial) de S.J. Meriti, então coordenada pela minha amiga Leila Regina, em parceria com a Universidade Estácio daquele Município, realizou em uma segunda-feira, 16 de maio de 2010 das 08h30m às 16h, o SEMINÁRIO RAÍZES DA COR – 100 ANOS DA REVOLTA DA CHIBATA. Com o objetivo de discutir o legado de João Cândido, a sua influência no fortalecimento das Políticas de Ações Afirmativas e do Movimento Negro no Ano da Afro-descendência”.
Tive a oportunidade de conhecer parentes de João Cândido, no período em que atuei como arte-educador na Casa da Cultura, dirigida por Jorge Florêncio. Fui de fato um prazer enorme prazer conhecer de perto a história de um herói negro de nossos tempos, que morreu de velho, sem passar pelos martírios que acompanham nossos grandes nomes oriundos do povo.
João Cândido, cantado em prosa e verso por João Bosco, que inclusive teve sua letra caçada pelos militares no período da repressão, exatamente por enaltecer um “insurgente”, segundo a marinha do Brasil na época, tem sua maior homenagem hoje, na gestão Dilma, quando temos o primeiro navio petroleiro totalmente construído no Brasil que leva seu nome.
João Cândido já idoso, em Meriti

Revolta da Chibata
No dia 22 de novembro de 1910, João Cândido, ao assumir, por indicação dos demais líderes, o comando do Minas Gerais e de toda a esquadra revoltada, controla o motim, faz cessar as mortes, e envia radiogramas pleiteando a abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra brasileira. Foi designado à época, pela imprensa, como Almirante Negro. Por quatro dias, os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro apontaram os seus canhões para a Capital Federal mostrando grande habilidade e conhecimento das possibilidades de manobras de guerra em um dos dois maiores  navios de combate  da  América Latina . No ultimato dirigido ao Presidente Marechal Hermes da Fonseca, os revoltosos declararam: "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira". A rebelião terminou com o compromisso do governo federal em acabar com o emprego da chibata na Marinha e de conceder anistia aos revoltosos. Entretanto, no dia seguinte ao desarmamento dos navios rebelados, dia 27, o governo promulgou em 28 de novembro um decreto permitindo a expulsão de marinheiros que representassem risco, o que era um nítida quebra de palavra, uma traição do texto da lei de anistia aprovada no dia 25 pelo Senado da República e sancionada pelo presidente Hermes da Fonseca, conforme publicação no diário oficial de 26 de novembro, levado ao Minas Gerais pelo capitão Pereira Leite.


João Candido, sendo conduzido preso


Em São João de Meriti inclusive, exatamente no Bairro Praça da Bandeira, foi postado em 1999 um busto de nosso herói, o primeiro no Brasil, de modo a homenagear e eternizar na comunidade onde viveu e faleceu a memória de nosso grande herói negro. O então Vereador Jorge Florêncio criou Projeto de Lei Municipal homenageando João Cândido. Em 2019 um grupo de lideranças comunitárias e culturais locais criou o espaço Cultura João Cândido, exatamente em frente à praça onde está postado o busto do nosso Almirante Negro.

A Academia contribuindo com a Memória

Álvaro Pereira do Nascimento é um historiador premiado por conta da relevância de sua pesquisa sobre os eventos que se antecederam à revolda de novembo de 1910 e que consta do acervo do Arquivo Nacional desde 2001. No Rio de Janeiro o jornal Folha de São Paulo publicou no dia 09 de fevereiro de 2002 um artigo muito importante apresentando a óbra do pesquisador, com assinatura da jornalista Claudia Antunes. Segue abaixo a íntegra da publicação:

A história vista de baixo, sob a ótica das estratégias populares para driblar ou mesmo transformar em lucro as situações adversas, é o sentido que percorre "A Ressaca da Marujada - Recrutamento e Disciplina na Armada Imperial", livro que pretende levantar os antecedentes, na Marinha, da Revolta da Chibata, já no período republicano, em 1910.
Apresentada como tese de mestrado na Unicamp, a obra do historiador Álvaro Pereira do Nascimento, 37, foi premiada pelo Arquivo Nacional em 1999 e editada no ano passado.
Usando como fontes boletins policiais e processos submetidos ao Conselho de Guerra da Armada, Nascimento conclui que a rebelião comandada pelo marinheiro de primeira classe João Cândido Felisberto não foi um acontecimento isolado. Ao contrário, ela foi precedida de um clima de inquietação constante entre a marujada, na época do Império, e de pelo menos três rebeliões em navios de guerra depois de 1889.
O mais interessante, porém, é que as fontes usadas por Nascimento desvendam a mistura de atração e de repulsa exercida pelo serviço militar nos marinheiros, que naquela época vinham dos estratos mais desfavorecidos da sociedade -ex-escravos, filhos de escravos e uma minoria de brancos muito pobres.
Ao mesmo tempo em que eram submetidos, na Armada, a um regime draconiano de disciplina, com castigos corporais constantes, esses homens viam no alistamento ou no recrutamento forçado (usado pela polícia para "limpar" as cidades de desempregados e de infratores) "caminhos para conquistarem suas liberdades". Uma vez em serviço, eles não abriam mão, mesmo sob punição física, dos "valores e costumes construídos nas ruas" -a turma, as mulheres, a bebida-, o que os levava a infringir as regras da oficialidade.
"A Ressaca da Marujada" está dividida em três partes. Na primeira, a partir do processo a que foi submetido em 1873, no Conselho de Guerra, o oficial José Cândido Guilhobel, Nascimento descreve a prática do "tribunal do convés". Numa analogia com o que chamaria hoje de "tribunal do camburão", o historiador mostra como, nos navios do Brasil imperial, os oficiais julgavam e puniam, passando por cima dos códigos escritos de Justiça.
Num caso que Nascimento considera atípico, Guilhobel foi levado a julgamento (e absolvido) por submeter um marinheiro a 500 chibatadas de uma só vez, quando o máximo permitido eram 25 chibatadas por dia. Em sua defesa, o oficial argumentou: "Será lógico e justo que eu responda por aquilo que já encontrei como praxe a bordo dos navios de guerra?"
Na segunda parte, o historiador mostra como era feito o alistamento no século 19. À falta de voluntários, prevaleciam o recrutamento forçado, feito pela polícia, e o arrolamento de menores, que passavam antes por escolas de aprendizes. O serviço militar era considerado um castigo, mas Nascimento enumera casos em que homens presos por "arruaça" optavam pelo alistamento, para escapar da cadeia.
Na última parte do livro, dedicada aos tempos conturbados que marcaram a Abolição e a transição para a República, Nascimento mostra como os marujos usaram o "privilégio" da farda para acertar contas, nas ruas do Rio, com policiais repressores. O historiador ressalta que os marinheiros não se movimentaram em prol da monarquia, apesar de a corrente majoritária da historiografia destacar a simpatia dos negros pela família imperial.
Eufóricos, no segundo dia da República, com o decreto que aboliu os castigos corporais na Armada, os marujos logo se sentiram traídos por uma medida que, cinco meses depois, restabeleceu essas punições.
Portadores de uma nova consciência política, eles deram início a uma série de motins, culminando com a revolta liderada pelo "almirante negro". Nela, cita Nascimento, os marinheiros não reclamavam somente o fim da chibata, mas "os direitos sagrados que as leis da República nos facultam" -e que ainda deve a muitos de seus cidadãos.



Leia mais:
Edição da Revista O MALHO, que publicou o contexto sob o ponto de vista do governo e de parte da sociedade, na Capital da República, à época. Link a baixo:
http://omalho.casaruibarbosa.gov.br/revista.asp?rev=429&ano=1910

NASCIMENTO, Álvaro Pereira  - A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na Armada Imperial. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001

Veja mais detalhes no site abaixo, onde importantes documentos e matérias estão disponíveis. a baixo:
 http://www.arquivoestado.sp.gov.br/exposicao_chibata/
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

I Conexão Baixada - 16 a 20 de maio de 2011



Colaboração de Ane Alves*

A Universidade Federal Rural Do Rio De Janeiro - UFRRJ Convida para I Semana da Baixada - Conexão Baixada: Dialogando e Interagindo 16 a 20 de maio de 2011.

O Pet Conexão Baixada IM, fruto da fusão dos programas Conexões de Saberes (PCS) e Educação Tutorial (PET), mediante a articulação entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão, busca contribuir com a formação acadêmica e cidadã dos estudantes do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Propõe a Semana da Baixada sob o título Conexão Baixada: Dialogando e Interagindo como uma das possibilidades de criação de um espaço de interlocução entre os diversos protagonistas das histórias e culturas na Baixada Fluminense/RJ e o ambiente universitário. Trata-se de um encontro ao longo de uma semana onde estarão presentes, dialogando e interagindo professores, pesquisadores, alunos universitários e da escola básica, artistas, produtores culturais e os mais variados grupos culturais da região.

O Instituto Muldisciplinar - UFRuralRJ, fica na Avenida Roberto Silveira, s/n. Centro - Nova Iguaçu, próximo ao Viaduto da Posse e a garagem da Linave.

Segue abaixo a programação
Dia 16 de maio (segunda-feira)
18h às 18:30h (Atividade 1) – Abertura
Expositores:
- Profa. Dra. Nídia Majerowicz – Pró-Reitora de Graduação da UFRRJ
- Prof. Dr. José Cláudio de Souza Alves - Pró-Reitora de Extensão da UFRRJ
- Profa. Dra. Leila Dupret - Diretora IM/UFRRJ
- Prof. Dr. Otair Fernandes de Oliveira - PetConexõesIM_Baixada
19h às 21h (Atividade 2) – Mesa: Baixada Fluminense: espaços, histórias e identidades
Debatedores:
Profª Dra. Lúcia Helena Pereira da Silva (UFRRJ)
Profº Dr. Álvaro Pereira Nascimento (UFRRJ)
Sr. Roberto Lara (compositor, cantor, gestor e produtor cultural)
Mediadora: (graduanda em Pedagogia e petiana)
Dia 17 de maio (terça-feira)
14h às 17h (Atividade 3) - Cine Baixada I – apresentação dos filmes: “Nunca fui, mas me disseram” e “A casa da pantera”
Debatedores:
Prof. Dr. Mauro Sá Rego Costa – Coord. do Laboratório de Rádio da FEBF/UERJ
Prof. Dr. José Cláudio de Souza Alves - Pró-Reitora de Extensão da UFRRJ
Mediadora: Thamires Cristina (graduanda em História e petiana)
18h às 21:00h (Atividade 4) - Estudando a Baixada I: apresentação de pesquisas com temas relacionados à Baixada Fluminense
Mediadora: Giselle Florentino (graduanda em Ciências Econômicas e petiana)
Dia 18 de maio (quarta-feira)
08h às 15h (Atividade 5) – Atividade externa: Caminhada Ecológica na Reserva Biológica de Tinguá
Organização: PET do Curso de Geografia (PetGeo) e alunos do curso de Turismo
16h às 18h (Atividade 6)
Oficina - Os filmes da minha vida: fazendo cinema em uma escola da Baixada
Grupo de Pesquisa Estudos Culturais em Educação e Arte. Coord: prof. Dr. Aristóteles Berino
18h às 21h (Atividade 7)
Estudando a Baixada II: apresentação de pesquisas com temas relacionados à Baixada Fluminense
Dia 19 de maio (quinta-feira)
14h às 17h (Atividade 8) - Cine Baixada II: curtas baixadas!
Apresentação de curtas metragens sobre a região, seguida de debate com os produtores e professores convidados.
- As Belezas da Baixada e outros (IPAHB)
- Preconceito contra nordestinos (Valter Filé)
- Mães do Hip Hop (Enraizados)
- Não piche. Pinte! (Geania Maria)
Participação dos produtores e profs. do IM (Aristóteles e Valter Filé)
Mediadora: Olivia Cascardo (graduando em História e petiana)
18h às 21h (Atividade 9) - Lançamento de livros com participação do autores do IM e da região (Ney Alberto, Paulo Santos) que têm a Baixada Fluminense como tema.
Dia 20 de maio (sexta-feira)
Mostra Cultural – A Baixada se levanta, agiganta e nos encanta!
Apresentação de teatro, música, dança e poesia de grupos diversos que promovem a cultura na Baixada (Auditório).
Atividade 11 (permanente)
Exposição: Imagens da Baixada (Paulo Santos - fotógrafo), Impressionismo na Baixada.
** As atividades 8, 9 e 10 terão programação à parte.

Inscrições
:
Para se inscrever, em quaisquer atividades da programação, baixe a ficha de inscrição, preencha-a com atenção, envie para: inscricaosemanabaixada@yahoo.com.br e aguarde confirmação. Inscrições limitadas para as atividades 5 e 6.
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* Ane Alves é Produtora Cultural formada pela IFRJ e membro do Conselho de cultura de Nova Iguaçu

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Retrocesso em Meriti - Cultura retorna à Educação

Flyer promocional de inauguração da Lona - foto de artistas apenas para divulgação


Esse é o desdobramento do artigo publicado em fevereiro, citando as mudanças previstas para a cultura em São João de Meriti.

Em reunião que ocorreu no dia 18 de abril, o Prefeito Sandro Matos anunciou a fusão Educação/Cultura. E disse ainda mais. Que através dessa junção, seria justificável a utilização dos recursos destinados ao FUNDEB para aplicação em eventos e demais projetos culturais na Cidade. As atividades voltadas à Educação Musical estariam neste ano sendo direcionadas paulatinamente a um local alternativo a ser determinado em breve, segundo declarações da Secretaria de Cultura. Na última sexta-feira 29/04 então, foi inaugurada a Lona Cultural Serginho Meriti, em homenagem a esse grande compositor do Município. O local, no entanto, não apresenta a infra necessária um show de médio porte por exemplo, devido as condições da própria lona, que é no padrão circo mesmo, sem vedação acústica ou mesmo fechamento do entorno, que proteja de intempéries como vento e chuva. Nesse caso, a utilização desse espaço para aulas de música torna-se inviável. Salvo a apresentação formal de um local que apresente as condições mínimas de funcionamento das disciplinas musicais.

À medida que informações diferentes às citadas surjam, divulgaremos com a maior satisfação. No momento, fica apenas mais uma marca do retrocesso na Política de Cultura em um dos maiores municípios da Baixada Fluminense.