quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A Ruptura do Discurso: Juventude, Algoritmos e o Futuro da Política Progressista

 

Ilustração gerada por IA

Por Ivan Machado

Nos primeiros meses de pré-campanha eleitoral no Brasil, algumas movimentações da extrema direita organizada me pareceram burrice a princípio, por puro preconceito, admito. O resultado do primeiro turno das eleições, no entanto, deixaram claro que existia uma estratégia muito bem articulada, dentro e fora do Brasil, há tempos. No enfrentamento a isso, noto que o mundo digital nunca foi um lugar de investimento prioritário para a esquerda, ainda que muitos de nós tenhamos que instalar aplicativos com Instagram, por exemplo, após insistência de algum jovem da família. Ocorre que a idade avançada da esquerda brasileira lhe trouxe certa atrofia na visão, somada a uma lentidão na percepção sobre o tempo das coisas à sua volta. Por outro lado, o velho (porém, ativo) capitalismo detém recursos de sobra para pagar por cada nova visão de mundo a ser estabelecida. Muito se fala na esquerda sobre a ideia de autocrítica, sem que tal avaliação, quando ocorre de fato, não é seguida de mudança de paradigmas ou ações estruturantes e acumulativas, equívoco esse que nos conduziu ao estado de coisas no qual estamos mergulhados mais uma vez.

 “A vida vem em ondas como o mar” é uma frase cunhada por Nelson Mota e Lulu Santos no início dos anos 80, propondo uma reflexão sobre a ideia de que, de fato, “tudo muda o tempo todo no mundo”. Preciso citar também aqui nesse contexto o lançamento da música Revoluções Por Minuto no ano de 1984, cuja sigla dá nome à banda RPM. Assisti um show daquela banda liderada por Paulo Ricardo, que me assustou ao exibir, de forma inédita nos palcos brasileiros, um computador junto aos teclados e sintetizadores, o que de fato tornou-se uma revolução no cenário musical. Vale observar também que, naquele momento, grande parte das igrejas nem mesmo admitia o uso de bateria nos cultos. Quando observamos a liturgia dos templos cristãos hoje, com o uso de tecnologia de ponta em seus cultos e missas, vamos notar que o público acompanhou compulsoriamente essa evolução. Na virada do século XXI a música evangélica, agora autointitulada de “Gospel”, horizontaliza não apenas o uso do Pop Rock como estilo musical, mas também cristaliza um modo de culto que foge do rigor doutrinário tradicional de cada igreja. De igual modo, a política também acompanhou o tendencioso discurso focando em um padrão ideológico comum e, exatamente por isso, polarizado. Não por acaso, quem consumiria os produtos surgidos de uma adoração horizontalizada, também o fez na política, menos nos últimos 20 anos.

 Se o olhar para Deus se deu através de uma janela aberta pelos EUA, a política brasileira também seguiu a mesma visão, tendo cada nova tecnologia surgida nesse século como ferramenta, sempre sob a hegemonia estadunidense. Quando surgiu a novidade das redes sociais, me questionei sobre qual rede estávamos falando, considerando que diversas bolhas de relacionamento sociais foram criadas, quase que imediatamente após à criação do Facebook em 2004. Já no espectro político denominado de esquerda, Partidos como PDT, PCdoB e PT passam a contar com o emergente PSOL em 2005. Porém, tendo como esteio antigos dirigentes partidários e suas interpretações do mundo. É fato que novos e jovens militantes se aliaram a esses partidos, inclusive antes daquele momento. Porém, sob a mentoria dos antigos “capas pretas”, adeptos do centralismo democrático de Lenin, democratizando as discussões em plenário, mas mantendo a centralidade das decisões entre poucos. Quando digo poucos, me refiro inclusive ao sentido de gênero, considerando que o núcleo decisório dos partidos, inclusive os de Esquerda, se perpetua entre homens desde sempre e até os dias atuais. Ainda hoje não se percebe, por parte das castas dirigentes, nenhum investimento no sentido de mudar esse quadro, fato que vem demonstrando sérios prejuízos para a manutenção das estruturas. 

 Com a publicação da Lei 9.096/95 que define a chamada Clausula de Barreira, iniciava-se uma ampla discussão quanto a proposta de adequação dos partidos aos novos tempos, através de critérios para a existência de partidos políticos, tomando como base sua representação no Congresso Nacional. Na prática, o tema passa a ser discutido sistematicamente em 2007, quando alguns partidos se fundiram, visando a sobrevivência política de seus quadros partidários, ao que alguns partidos não se atentaram e hoje têm como consequência o bloquei de seu acesso ao Fundo Partidário, bem como o tempo de TV e rádio durante o horário eleitoral gratuito.  Se em 2003, quando se deu o primeiro governo Lula, os eleitores eram em sua maioria jovens, veremos hoje que a geração posterior não é necessariamente afeita ao discurso de esquerda, considerando que as ideias circulantes nas redes sociais e aplicativos de mensagens são majoritariamente veiculadas pela extrema direita. Logo, há que se compreender o desapego e até estranhamento dessa juventude com as ideias progressistas, tendo em vista que a produção de conteúdos digitais é pensado, produzido e veiculado a jovens que aprende a ver o mundo como um necessário espaço de luta entre apenas dois polos dissonantes.

 No momento no qual a ideia de “Imperialismo Americano” era fala corrente na esquerda, vivíamos a chamada Guerra Fria. Um período cheio de subjetividades, que somente os olhares mais apurados conseguiam formular justificativas para nossa indignação. Com a queda do Muro de Berlim me parece que as ameaças se tornaram ainda mais subjetivas, até a revolução tecnológica da China e a necessidade dos EUA de deixar clara a necessidade de reafirmar seu poderio, sobretudo no Hemisfério Norte. Veja que o primeiro governo Trump surge exatamente no momento de questionamento global da hegemonia estadunidense e uma verdadeira epidemia de opioides. Uma nova batalha está ai às claras, por conta da estreita parceria entre o governo dos Estados Unidos e as chamadas Big Techs, que carecem de minerais raros como matéria prima para a produção de chips e processadores. O resultado então é nítido. Trump, com sua poderosa máquina de guerra ataca países como Venezuela e Iran, enquanto países com sólida estrutura democrática como Espanha e Brasil são bombardeados com desinformação, através das grandes empresas de tecnologia digital.

 Foi o primeiro governo Obama em 2009 o responsável por consolidar a nova tendência mundial. Eleito com votos majoritariamente garimpados através da internet, o próprio governo dos EUA rapidamente se deu conta de que as redes sociais se tornaram uma máquina extremamente eficiente na buscas pela consolidação de sua hegemonia. No Brasil esse novo mecanismo de comunicação de massa criava capilaridade na sociedade, influenciando corações e mentes de maneira silenciosa, enquanto a influência internacional sobre nossa cultura avançava silenciosamente. A final de contas, as ferramenta de comunicação digital nunca foram vistas como algo relevante pela esquerda, um erro que a coloca em condição de risco existencial de fato. Eleita para o cargo de Deputada Federal nas eleições de 04 de outubro com 524.216 votos, Ana Elisa é estagiária de Direito e moradora da cidade de Divinópolis-MG e terá 21 anos quando assumir seu mandato em 2027. A jovem apresenta críticas tanto ao desapego da esquerda às redes sociais, quanto a aversão dos líderes mais velhos à Ascenção de jovens na política. Segundo matéria publicada no site do G1 em 05/10, a jovem deputada eleita declara o seguinte: "Eu devo este resultado nas urnas ao meu esforço, à minha persistência. Mesmo com tantos impasses e com tantas pessoas que me prejudicaram no espectro político, eu continuei ativa. Persisti muito e devo isso à minha construção nas redes sociais". A matéria relata que Ana Elisa recebeu em março o convite para concorrer nas eleições e antes disso sua atuação sedava exclusivamente nas redes sociais onde atuava como influenciados, junto a mais de dois milhões de seguidores de suas redes.

 Posso, por fim, dizer que vivemos hoje um ponto de ruptura. Não contar com Lula como ponta de lança de nossas metas e projetos políticos, em uma conjuntura que esvazia a esquerda enquanto massifica desinformação sem um eficaz contraponto, nos coloca em um posso mais profundo que aquele no qual se encontram nossos vizinhos argentinos. Sem um arcabouço intelectual mínimo na média da população e uma estratégia pactuada de forma eficaz e abrangente entre setores progressistas, me parece que o destino da esquerda brasileira é flopar diante da população, assim como ocorre quase que na totalidade dos países Europeus.