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| Ilustração gerada por IA |
Por Ivan Machado
Nos primeiros meses de pré-campanha eleitoral no Brasil, algumas
movimentações da extrema direita organizada me pareceram burrice a princípio,
por puro preconceito, admito. O resultado do primeiro turno das eleições, no
entanto, deixaram claro que existia uma estratégia muito bem articulada, dentro
e fora do Brasil, há tempos. No enfrentamento a isso, noto que o mundo digital
nunca foi um lugar de investimento prioritário para a esquerda, ainda que
muitos de nós tenhamos que instalar aplicativos com Instagram, por exemplo,
após insistência de algum jovem da família. Ocorre que a idade avançada da
esquerda brasileira lhe trouxe certa atrofia na visão, somada a uma lentidão na
percepção sobre o tempo das coisas à sua volta. Por outro lado, o velho (porém,
ativo) capitalismo detém recursos de sobra para pagar por cada nova visão de
mundo a ser estabelecida. Muito se fala na esquerda sobre a ideia de
autocrítica, sem que tal avaliação, quando ocorre de fato, não é seguida de
mudança de paradigmas ou ações estruturantes e acumulativas, equívoco esse que
nos conduziu ao estado de coisas no qual estamos mergulhados mais uma vez.
“A vida vem em ondas como o mar” é uma frase cunhada por Nelson Mota e
Lulu Santos no início dos anos 80, propondo uma reflexão sobre a ideia de que,
de fato, “tudo muda o tempo todo no mundo”. Preciso citar também aqui nesse
contexto o lançamento da música Revoluções Por Minuto no ano de 1984, cuja
sigla dá nome à banda RPM. Assisti um show daquela banda liderada por Paulo
Ricardo, que me assustou ao exibir, de forma inédita nos palcos brasileiros, um
computador junto aos teclados e sintetizadores, o que de fato tornou-se uma
revolução no cenário musical. Vale observar também que, naquele momento, grande
parte das igrejas nem mesmo admitia o uso de bateria nos cultos. Quando
observamos a liturgia dos templos cristãos hoje, com o uso de tecnologia de
ponta em seus cultos e missas, vamos notar que o público acompanhou
compulsoriamente essa evolução. Na virada do século XXI a música evangélica,
agora autointitulada de “Gospel”, horizontaliza não apenas o uso do Pop Rock
como estilo musical, mas também cristaliza um modo de culto que foge do rigor
doutrinário tradicional de cada igreja. De igual modo, a política também
acompanhou o tendencioso discurso focando em um padrão ideológico comum e,
exatamente por isso, polarizado. Não por acaso, quem consumiria os produtos
surgidos de uma adoração horizontalizada, também o fez na política, menos nos
últimos 20 anos.
Se o olhar para Deus se deu através de uma janela aberta pelos EUA, a
política brasileira também seguiu a mesma visão, tendo cada nova tecnologia
surgida nesse século como ferramenta, sempre sob a hegemonia estadunidense.
Quando surgiu a novidade das redes sociais, me questionei sobre qual rede estávamos
falando, considerando que diversas bolhas de relacionamento sociais foram
criadas, quase que imediatamente após à criação do Facebook em 2004. Já no espectro
político denominado de esquerda, Partidos como PDT, PCdoB e PT passam a contar
com o emergente PSOL em 2005. Porém, tendo como esteio antigos dirigentes
partidários e suas interpretações do mundo. É fato que novos e jovens
militantes se aliaram a esses partidos, inclusive antes daquele momento. Porém,
sob a mentoria dos antigos “capas pretas”, adeptos do centralismo democrático
de Lenin, democratizando as discussões em plenário, mas mantendo a centralidade
das decisões entre poucos. Quando digo poucos, me refiro inclusive ao sentido
de gênero, considerando que o núcleo decisório dos partidos, inclusive os de
Esquerda, se perpetua entre homens desde sempre e até os dias atuais. Ainda
hoje não se percebe, por parte das castas dirigentes, nenhum investimento no
sentido de mudar esse quadro, fato que vem demonstrando sérios prejuízos para a
manutenção das estruturas.
Com a publicação da Lei 9.096/95 que define a chamada Clausula de
Barreira, iniciava-se uma ampla discussão quanto a proposta de adequação dos
partidos aos novos tempos, através de critérios para a existência de partidos
políticos, tomando como base sua representação no Congresso Nacional. Na
prática, o tema passa a ser discutido sistematicamente em 2007, quando alguns
partidos se fundiram, visando a sobrevivência política de seus quadros
partidários, ao que alguns partidos não se atentaram e hoje têm como
consequência o bloquei de seu acesso ao Fundo Partidário, bem como o tempo de
TV e rádio durante o horário eleitoral gratuito. Se em 2003, quando se
deu o primeiro governo Lula, os eleitores eram em sua maioria jovens, veremos
hoje que a geração posterior não é necessariamente afeita ao discurso de
esquerda, considerando que as ideias circulantes nas redes sociais e
aplicativos de mensagens são majoritariamente veiculadas pela extrema direita.
Logo, há que se compreender o desapego e até estranhamento dessa juventude com
as ideias progressistas, tendo em vista que a produção de conteúdos digitais é
pensado, produzido e veiculado a jovens que aprende a ver o mundo como um
necessário espaço de luta entre apenas dois polos dissonantes.
No momento no qual a ideia de “Imperialismo Americano” era fala corrente
na esquerda, vivíamos a chamada Guerra Fria. Um período cheio de
subjetividades, que somente os olhares mais apurados conseguiam formular
justificativas para nossa indignação. Com a queda do Muro de Berlim me parece
que as ameaças se tornaram ainda mais subjetivas, até a revolução tecnológica
da China e a necessidade dos EUA de deixar clara a necessidade de reafirmar seu
poderio, sobretudo no Hemisfério Norte. Veja que o primeiro governo Trump surge
exatamente no momento de questionamento global da hegemonia estadunidense e uma
verdadeira epidemia de opioides. Uma nova batalha está ai às claras, por conta
da estreita parceria entre o governo dos Estados Unidos e as chamadas Big Techs,
que carecem de minerais raros como matéria prima para a produção de chips e
processadores. O resultado então é nítido. Trump, com sua poderosa máquina de
guerra ataca países como Venezuela e Iran, enquanto países com sólida estrutura
democrática como Espanha e Brasil são bombardeados com desinformação, através
das grandes empresas de tecnologia digital.
Foi o primeiro governo Obama em 2009 o responsável por consolidar a nova
tendência mundial. Eleito com votos majoritariamente garimpados através da internet,
o próprio governo dos EUA rapidamente se deu conta de que as redes sociais se
tornaram uma máquina extremamente eficiente na buscas pela consolidação de sua
hegemonia. No Brasil esse novo mecanismo de comunicação de massa criava
capilaridade na sociedade, influenciando corações e mentes de maneira
silenciosa, enquanto a influência internacional sobre nossa cultura avançava
silenciosamente. A final de contas, as ferramenta de comunicação digital nunca
foram vistas como algo relevante pela esquerda, um erro que a coloca em
condição de risco existencial de fato. Eleita para o cargo de Deputada Federal
nas eleições de 04 de outubro com 524.216 votos, Ana Elisa é estagiária de
Direito e moradora da cidade de Divinópolis-MG e terá 21 anos quando assumir seu
mandato em 2027. A jovem apresenta críticas tanto ao desapego da esquerda às
redes sociais, quanto a aversão dos líderes mais velhos à Ascenção de jovens na
política. Segundo matéria publicada no site do G1 em 05/10, a jovem deputada
eleita declara o seguinte: "Eu devo este resultado nas urnas ao meu
esforço, à minha persistência. Mesmo com tantos impasses e com tantas pessoas
que me prejudicaram no espectro político, eu continuei ativa. Persisti muito e
devo isso à minha construção nas redes sociais". A matéria relata que Ana
Elisa recebeu em março o convite para concorrer nas eleições e antes disso sua
atuação sedava exclusivamente nas redes sociais onde atuava como influenciados,
junto a mais de dois milhões de seguidores de suas redes.
Posso, por fim, dizer que vivemos hoje um ponto de ruptura. Não contar
com Lula como ponta de lança de nossas metas e projetos políticos, em uma
conjuntura que esvazia a esquerda enquanto massifica desinformação sem um
eficaz contraponto, nos coloca em um posso mais profundo que aquele no qual se
encontram nossos vizinhos argentinos. Sem um arcabouço intelectual mínimo na
média da população e uma estratégia pactuada de forma eficaz e abrangente entre
setores progressistas, me parece que o destino da esquerda brasileira é flopar diante da população, assim como
ocorre quase que na totalidade dos países Europeus.